sábado, 25 de julho de 2026

A escola amplia o tempo ou amplia as experiências?


Em uma reunião com as famílias no retorno das férias escolares, boa parte do encontro, os assuntos abordados foram normas e procedimentos: não correr no pátio; utilizar o horário do lanche exclusivamente para se alimentar; evitar ir ao banheiro durante as aulas; informar que faltas podem ser comunicadas ao Conselho Tutelar; acompanhar diariamente os cadernos, já que os estudantes nem sempre mostram as atividades aos pais; conferir as lições de casa; e garantir o uso obrigatório do uniforme.

Ao final da reunião, fiquei pensando: será que essas orientações representam, de fato, o que entendemos por educação? Será que a ampliação da jornada escolar se resume ao aumento do tempo de permanência na escola ou deveria significar a ampliação das oportunidades de aprendizagem, convivência, criação e desenvolvimento humano?

Como é a rotina de uma criança ou de um adolescente que permanece cerca de sete horas por dia na escola? Se considerarmos um dia de 24 horas, aproximadamente oito são dedicadas ao sono, duas à alimentação, duas aos cuidados pessoais e outras nove entre escola, deslocamentos e preparação para sair de casa. Resta muito pouco tempo para brincar, descansar, conviver com a família, encontrar os amigos ou simplesmente não fazer nada.

Enquanto isso, o mundo continua mudando. As transformações tecnológicas, culturais e sociais não pedem licença para acontecer. Novas formas de interação surgem diariamente e são rapidamente incorporadas pelas novas gerações. A escola, porém, muitas vezes permanece organizada por uma lógica em que o controle ocupa mais espaço do que a escuta.

Talvez seja por isso que tantos jovens encontrem, durante a madrugada, no celular, um espaço para conversar, expressar sentimentos e viver experiências que não encontram durante o dia. Não se trata apenas do uso da tecnologia, mas da busca por autonomia, pertencimento e conexão humana.

A rotina disciplinar de muitas escolas deixa pouco espaço para conversas espontâneas, para o diálogo entre colegas, para o exercício da escuta e da convivência. Aquilo que nós, adultos, valorizamos em nossas relações — uma boa conversa, um momento de descontração, uma pausa para compartilhar ideias — raramente é reconhecido como parte importante da experiência estudantil.

Talvez seja o momento de nos perguntarmos: por que a frequência escolar, especialmente entre os estudantes mais jovens, tem se tornado uma preocupação crescente? Será que eles se reconhecem na rotina que vivem? Participam da construção de sua experiência escolar ou apenas cumprem tarefas previamente definidas?

Uma escola comprometida com a emancipação não pode limitar-se à organização do tempo e ao cumprimento de regras. Ela precisa oferecer experiências significativas, valorizar a participação, promover o diálogo e reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, capazes de pensar, criar, opinar e transformar o ambiente em que vivem.

A ampliação da jornada escolar só faz sentido quando também amplia as possibilidades de aprender, de conviver, de sonhar e de viver plenamente a infância e a juventude. Caso contrário, estaremos apenas prolongando o tempo de permanência em um espaço que, em vez de libertar, pode acabar restringindo aquilo que a educação tem de mais precioso: a formação de pessoas livres, críticas e felizes.


Por Carlos Lima - Professor e Educomunicador 

domingo, 5 de julho de 2026

O que experiências com bandas de rock dos anos 90 me ensinou sobre Educação Integral


Na aula do curso de Educação Integral desta semana, compartilhei com os colegas uma experiência que marcou minha juventude: a organização de eventos culturais com bandas de garagem nos anos 1990. Mais do que recordar um período especial da minha vida, a intenção era mostrar como essas vivências continuam inspirando minha prática como educador.

Durante o encontro, assistimos a um trecho do filme Escola de Rock, que serviu como ponto de partida para refletirmos sobre o papel das aulas no São Paulo Integral (SPI) e sobre a potência dos projetos de Educomunicação. Em ambos os casos, o que faz a diferença não é apenas o conteúdo, mas a maneira como criamos oportunidades para que cada estudante descubra seu lugar, expresse seus talentos e participe de forma significativa.

Ao rever um documentário musical sobre bandas independentes, percebi novamente algo que sempre me encantou: cada grupo possuía sua própria identidade, seu estilo e sua forma de interpretar o rock. Não existia uma única maneira "correta" de fazer música. A diversidade de sons, personalidades e performances era justamente o que tornava aquele grande concerto tão rico e envolvente. Todos contribuíam para criar uma atmosfera de pertencimento, criatividade e celebração.

Não é exatamente isso que buscamos promover na Educação Integral?

Uma aula também pode ser um palco onde diferentes talentos encontram espaço para florescer. Há quem se destaque falando, pesquisando, organizando, fotografando, entrevistando, criando trilhas sonoras, produzindo vídeos, escrevendo ou simplesmente acolhendo e incentivando os colegas. Quando planejamos projetos considerando competências, habilidades, interesses e as individualidades dos estudantes, ampliamos as possibilidades de aprendizagem e fortalecemos o protagonismo juvenil.

Os projetos de Educomunicação carregam essa essência. Eles transformam a sala de aula em um ambiente de criação coletiva, colaboração e respeito às diferentes formas de participação. Assim como em uma banda de rock, cada integrante exerce um papel importante para que o resultado final aconteça.

As propostas educomunicativas  disponibilizadas no site do Núcleo de Educomunicação dialogam diretamente com essa perspectiva. São atividades que ampliam as oportunidades de participação, despertam o interesse dos estudantes, criam ambientes de aprendizagem mais significativos e podem ser adaptadas às diferentes realidades das escolas.

No fim das contas, talvez educar seja muito parecido com organizar um festival de bandas: criar as condições para que todos encontrem sua voz, toquem juntos e descubram que a diversidade é o que torna a experiência verdadeiramente inesquecível.

Para quem quiser conhecer o documentário que inspirou essa reflexão, ele está disponível no 

 Show Inverno Rock gravado em 1995 no Parque Chico Mendes na Vila Curuça, organizado por Carlinhos (eu) com bandas de diferentes regiões da cidade


Por Carlos Lima: Professor Educomunicador 

Imagem: Cena do filme Escola de Rock


Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...