segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Seu projeto de Educomunicação está saudável?


Assim como o corpo humano, um projeto de Educomunicação pode apresentar sinais de saúde — ou algumas patologias. Um projeto saudável promove o protagonismo dos estudantes, valoriza o processo, trabalha de forma colaborativa, dialoga com o currículo, respeita a diversidade e cria espaços de escuta e comunicação. Quando esses princípios começam a desaparecer, é hora de prestar atenção aos sintomas.

Entre as patologias mais comuns estão o professorcentrismo, quando o educador faz tudo e os estudantes apenas executam; a tecnologite, quando o equipamento se torna mais importante que a comunicação; a desidratação formativa, quando o projeto deixa de investir na formação; e a monocultura da participação, quando apenas os estudantes considerados “bons” têm voz. Também existem problemas como o distanciamento do currículo, conflitos com a escola, falta de recursos e ausência de registro institucional.

O diagnóstico não deve servir para procurar culpados, mas para cuidar do projeto. O tratamento pode envolver escuta dos estudantes, reorganização das funções, formação da equipe, diálogo com a escola, revisão dos objetivos e criação de novas estratégias de participação. Alguns problemas são pontuais; outros se tornam crônicos e, se não forem tratados, podem comprometer a continuidade da iniciativa.

A experiência de décadas desenvolvendo projetos e coordenando políticas de Educomunicação mostra que nenhum projeto está livre de problemas. O importante é reconhecer os sinais, agir coletivamente e acompanhar os resultados. Afinal, Educomunicação não é apenas produzir um bom podcast, vídeo, rádio ou jornal. É construir uma prática em que a comunicação, a aprendizagem e o protagonismo estudantil permaneçam vivos.

Se quiser, posso também transformar esse texto em uma versão mais provocativa, no estilo do Bloglerando, com um título mais impactante e intertítulos curtos.

Inspirado no Manual de Patologias nos projetos Educomunicativos de Carlos Lima

Por Carlos Lima : Professor Educomunicador 

Ilustração: Onezio Cruz 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Orientação Pedagógica de Educomunicação publicada

 


A Orientação Pedagógica de Educomunicação já está disponível para download. Mais do que um documento curricular, ela representa uma conquista histórica para a Educação Paulistana e o resultado de muita persistência na construção de uma política pública que celebra 25 anos de Educomunicação na Rede Municipal de Ensino.

Acesse o documento  clique para baixar

Depois da implementação do Currículo da Cidade nas diferentes áreas do conhecimento, há cerca de uma década, que contou com a participação do Imprensa Jovem na escuta dos estudantes, aguardávamos com expectativa a construção de um documento curricular específico para a Educomunicação. Era preciso transformar em orientação pedagógica uma experiência que já acontecia cotidianamente nas escolas.

Pré lançamento do documento na Digital Learning Week 2026

Para isso, iniciamos um movimento de escuta virtual, buscando reunir contribuições que pudessem dar origem a uma primeira proposta. As temáticas levantadas naquele momento passaram a funcionar como um norte para o trabalho. A consolidação desse primeiro ponto de partida contou também com o apoio da colega Edneia Oliveira, da UNESCO.

Seguimos dialogando com a área de Currículo e, com o apoio fundamental do professor Cido Sutero, conseguimos avançar na construção de uma parceria com a UNESCO, acreditou na proposta e assumiu conosco o desafio de realizar esse projeto. Vale informar que a Unesco tem apoiado nossas as iniciativas educomunicativas da Rede, entre as quais o Imprensa Jovem desde 2008 a partir do projeto Segurança Humana. 

A chegada dos consultores e ex-formadores do Núcleo de Educomunicação — Maurício Virgulino, Bruno Ferreira e Paola Prandini — trouxe novos contornos à primeira proposta. A partir daí, ampliamos a escuta envolvendo formadores, professores, técnicos de diferentes áreas e projetos, pesquisadores, especialistas, equipes pedagógicas da SME, entre elas COPED, COCEU e CODAE, além dos estudantes, que foram e continuam sendo nosso ponto forte.

Foi justamente essa escuta diversa que permitiu aproximar teoria e prática. Nosso desejo era que o documento estivesse o mais próximo possível da realidade das escolas, para que pudesse ser apropriado rapidamente por professores e estudantes e se transformasse em referência para as práticas educomunicativas.

Ao mesmo tempo, havia uma preocupação fundamental: respeitar toda a história e todo o caminho percorrido ao longo de mais de duas décadas de Educomunicação na Rede Municipal de Ensino. A Orientação Pedagógica não começa agora. Ela é resultado de uma construção que atravessa diferentes momentos e experiências: o Educom.Rádio, o Nas Ondas do Rádio, a criação e consolidação do Núcleo de Educomunicação e, posteriormente, o Eixo de Educomunicação.

Ao longo dessa trajetória, também ocupamos diferentes espaços institucionais — Currículo, ASCOM, Ensino Fundamental — até chegarmos à atual Divisão de Gestão Democrática e Programas Intersecretariais. Mudaram os lugares, as estruturas e os nomes, mas permaneceu uma convicção: a comunicação é um direito e pode transformar a experiência educativa.

Os pílares deste documento são: 

  1. Desenvolvimento de Competências de Comunicação

  2. Comunidades Colaborativas e Participativas

  3. Cultura Digital

  4. Práxis Curricular

  5. Liberdade Responsável de Expressão

O Imprensa Jovem foi fundamental em todo esse processo de mobilização. As escolas, os professores e, especialmente, os estudantes participaram das discussões. Os grupos de WhatsApp trabalharam intensamente, reunindo centenas de pessoas e fazendo circular ideias, experiências, críticas e sugestões. De certa maneira, muitas mãos ajudaram a escrever este documento que agora fica como legado para as gerações de hoje e de amanhã.

Nosso reconhecimento especial ao time de formadores especialistas em Educomunicação, que, ao longo desse percurso, compartilhou experiências, conhecimentos e vivências em diversos momentos de construção coletiva de conteúdos e propostas formativas. Esse processo colaborativo pavimentou caminhos e lançou bases fundamentais para a elaboração deste documento. Também não poderia deixar de reconhecer e agradecer a contribuição do professor Clayton Scarcella, que passou a integrar o Núcleo de Educomunicação e trouxe novas perspectivas, conhecimentos e experiências, ampliando e fortalecendo essa construção coletiva.

E não poderia esquecer as vibrações, a torcida e a parceria da UNESCO Brasil, que sempre sonhou conosco, celebrou nossas conquistas e acreditou que essa construção poderia representar um passo importante não apenas para dar maior visibilidade à Educomunicação nas escolas municipais de São Paulo, mas também para fortalecer essa perspectiva na educação brasileira e internacional. Maria Rehder e Mariana Otero foram essenciais nessa caminhada e na construção dessa obra que agora entregamos à Rede.

Por isso, esta Orientação Pedagógica não pertence a uma pessoa, a um núcleo ou a uma gestão. Ela é uma conquista da Rede. É resultado de uma história construída por muitas pessoas, em diferentes tempos e espaços, e que continua em movimento.

Hoje, com os projetos de Educomunicação consolidados em cerca de 400 unidades educacionais, temos diante de nós um novo desafio: levar essa experiência para as aulas de Educação Integral.

E talvez esse seja um dos trabalhos mais desafiadores que teremos pela frente: transformar aquilo que é tão encantador como projeto — porque nasce da escolha, da criação, da experimentação e do protagonismo — em uma experiência pedagógica sistemática dentro da sala de aula.

Não será simples. Mas temos história, experiência, estudantes, professores, formadores e uma Rede que aprendeu que a comunicação pode ser parte da educação.

As Orientações Pedagógicas chegam justamente para nos ajudar nesse próximo passo.

A história continua. E agora temos mais um capítulo para escrever — juntos, com os estudantes e com a Rede.

Por Carlos Lima - Educomunicador e professor 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Correio da Amizade: quando uma carta chega para dar força antes da prova


Outro dia, conversando sobre as antigas Pen Pal Letters, lembrei de uma prática que marcou a experiência de muitos estudantes: trocar cartas, em inglês, com pessoas de outros países.

Era uma experiência simples, mas cheia de descobertas. A gente escrevia, esperava e, algum tempo depois, recebia uma carta de alguém que não conhecia. Abrir o envelope, descobrir de onde vinha, ler o nome de quem escreveu e tentar entender o que aquela pessoa tinha para contar era emocionante.

A carta era, ao mesmo tempo, uma oportunidade de aprender uma língua, conhecer outra cultura e fazer uma nova amizade.

Fiquei pensando: e se recuperássemos essa experiência entre estudantes da própria cidade?

Com a aproximação das provas, imaginei uma proposta chamada Correio da Amizade: estudantes de uma escola poderiam escrever cartas para estudantes de outra escola, talvez de um território distante, contando como estão vivendo esse período.

Uma escola da Zona Sul poderia escrever para uma escola da Zona Leste. Uma turma do 5º ano poderia receber uma carta de outra turma que também está se preparando para as avaliações.

A carta poderia chegar à escola dentro de um envelope. A professora poderia reunir a turma, abrir a correspondência e ler o texto para todos.

E então surgiria a pergunta:

“O que vamos responder?”

A turma poderia conversar sobre o que ouviu, compartilhar experiências e escrever coletivamente uma nova carta.

Assim, o Correio da Amizade se transforma em uma pequena rede de comunicação entre escolas.

Antes da prova, uma palavra amiga

As provas fazem parte da vida escolar. Elas podem representar desafios, expectativas, conquistas e também algumas aflições.

Mas será que precisamos falar sobre elas apenas a partir de notas e resultados?

Uma carta pode abrir outro caminho.

O estudante pode contar como está se preparando, quais estratégias encontrou para estudar, o que considera difícil, o que já conseguiu aprender e até aquilo que gostaria de ouvir de outro estudante.

Pode falar sobre seus medos, mas também sobre suas descobertas.

Pode contar uma pequena crônica do cotidiano da escola.

Pode compartilhar uma dica de estudo.

Pode simplesmente dizer:

“Você não está sozinho. Boa prova!”

É aí que a avaliação ganha uma dimensão humana: a possibilidade de estudantes reconhecerem que existem outras pessoas vivendo desafios semelhantes.

De uma sala para outra

Imagino a cena.

Uma carta chega de uma escola da Zona Sul para uma escola da Zona Leste.

A professora entra na sala do 5º ano com um envelope nas mãos.

— “Pessoal, chegou uma carta para nossa turma.”

A conversa para.

Os estudantes querem saber de quem é.

A professora abre o envelope e começa a leitura.

A carta fala sobre a escola, sobre os amigos, sobre as matérias preferidas, sobre a preparação para as provas e sobre aquilo que deixa alguns estudantes preocupados.

Quando a leitura termina, começa uma nova conversa.

— “O que vocês responderiam?”

A turma discute.

Alguns querem contar como estudam. Outros querem falar sobre futebol, música, brincadeiras, professores, livros ou sobre o que gostam de fazer no intervalo.

A professora registra as ideias.

Depois, a turma escreve sua própria carta.

No final, a

lguém fecha o envelope.

Agora é a vez de esperar.

Uma carta foi enviada. Outra amizade pode estar começando.

Escrever também é aprender

O mais interessante é que o Correio da Amizade não precisa ser apenas uma atividade de Língua Portuguesa.

A carta pode envolver diferentes aprendizagens.

É possível trabalhar leitura, escrita, oralidade, revisão textual, pesquisa, localização geográfica, diversidade cultural e comunicação.

Se as escolas forem de diferentes regiões da cidade, os estudantes podem pesquisar onde fica a escola que receberá a carta.

Podem descobrir características do território.

Podem perguntar:

Como é estudar em outro bairro?

O que temos em comum?

O que é diferente?

Dessa forma, a carta deixa de ser apenas um exercício escolar e passa a ser uma situação real de comunicação.

Como escrever uma carta para outra turma?

Não existe uma única maneira de escrever uma carta. Mas algumas perguntas podem ajudar os estudantes a começar.

1. Comece apresentando quem somos

“Olá, estudantes da escola...”

“Somos uma turma do 5º ano da escola...”

“Estamos escrevendo para contar um pouco sobre nossa escola...”

2. Conte alguma coisa sobre a escola

Como é a escola?

Quantos estudantes existem na turma?

O que vocês gostam de fazer juntos?

Existe algum projeto de que vocês gostam muito?

3. Conte como vocês estão vivendo o período das provas

Como estão se preparando?

Qual matéria parece mais fácil?

Qual é mais desafiadora?

Como vocês organizam os estudos?

4. Compartilhe uma experiência

Pode ser uma pequena história.

Um momento engraçado.

Uma conquista.

Uma dificuldade que foi superada.

Uma atividade que deu muito certo.

5. Faça perguntas

Uma boa carta também sabe perguntar.

“Como é a escola de vocês?”

“Qual é a matéria preferida da turma?”

“Vocês também estão se preparando para as provas?”

“Como vocês estudam?”

“Que conselho vocês dariam para nossa turma?”

6. Termine deixando uma mensagem

A despedida pode ser simples e afetiva:

“Esperamos que vocês gostem da nossa carta.”

“Desejamos uma boa prova para todos.”

“Esperamos receber uma resposta.”

“Um abraço da turma do 5º ano!”

E, claro, não podemos esquecer de colocar os nomes dos estudantes e da escola.

Uma carta não precisa ser perfeita

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes da proposta.

A carta não precisa nascer perfeita.

Ela pode ser escrita, lida, discutida, revisada e reescrita.

A turma pode descobrir que escrever para alguém de verdade é diferente de escrever apenas para entregar uma atividade ao professor.

Existe um destinatário.

Existe uma intenção.

Existe algo que queremos comunicar.

E existe a expectativa de uma resposta.

Essa é uma das grandes riquezas da comunicação: quando escrevemos para alguém, precisamos pensar no outro.

O Correio da Amizade como prática educomunicativa

Na perspectiva da educomunicação, o mais importante não é apenas produzir a carta.

É criar um ecossistema de comunicação em que estudantes tenham voz, sejam autores, escutem outras pessoas e estabeleçam relações por meio da linguagem.

Uma escola envia.

Outra recebe.

Uma turma fala.

Outra escuta.

Depois, a comunicação volta.

E volta transformada.

É uma espécie de ponte construída com papel, palavras e afetos.

Em tempos de mensagens instantâneas, talvez exista algo especialmente potente em esperar alguns dias por uma carta.

Porque a espera também faz parte da experiência.

Receber uma carta é descobrir que alguém, em algum lugar, parou por alguns minutos para escrever para você.

Vamos experimentar?

O Correio da Amizade pode começar pequeno.

Duas escolas.

Duas turmas.

Duas professoras dispostas a experimentar.

Uma primeira carta.

Depois uma resposta.

E talvez, aos poucos, essa troca possa crescer e envolver outras escolas, outros territórios e outras histórias.

Quem sabe uma escola da Zona Leste escreva para uma escola da Zona Sul.

Uma escola do extremo Norte para uma escola do Centro.

Uma turma do Ensino Fundamental para outra turma que ela ainda não conhece.

Porque, antes de qualquer prova, existe algo que também precisamos aprender:

dar força uns aos outros.

E talvez uma carta seja uma das formas mais bonitas de começar.

Correio da Amizade: uma escola escreve, outra escuta, e a cidade inteira pode começar a conversar.

Uma sugestão de dinâmica para o professor

Você pode transformar a postagem em uma proposta prática com 5 momentos:

  1. Apresentar a ideia – conversar com os estudantes sobre cartas e Pen Pals.

  2. Escolher a escola parceira – preferencialmente de outro território.

  3. Produzir a carta coletivamente – cada estudante pode sugerir uma parte.

  4. Enviar e esperar – transformar a espera pela resposta em parte da experiência.

  5. Receber e responder – ler a carta, conversar sobre ela e produzir a resposta.

Um detalhe que pode deixar a proposta ainda mais educomunicativa é não definir previamente tudo o que a carta deve conter. As perguntas e temas podem nascer da própria turma. Assim, a carta não vira apenas uma ficha de perguntas, mas uma verdadeira conversa entre estudantes.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

Seu projeto de Educomunicação está saudável?

Assim como o corpo humano, um projeto de Educomunicação pode apresentar sinais de saúde — ou algumas patologias. Um projeto saudável promove...