terça-feira, 27 de maio de 2025

Como os projetos de Educomunicação podem apoiar as aprendizagens em Língua Portuguesa




O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é um indicador criado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) que mede a qualidade da educação nas escolas públicas brasileiras. Ele é calculado a partir de dois componentes principais:

1. Desempenho dos estudantes em avaliações padronizadas (como a Prova Brasil/Saeb), especialmente em Língua Portuguesa e Matemática.

2. Taxa de aprovação escolar, ou seja, o fluxo escolar (sem reprovações ou abandono).

Como os projetos de Educomunicação podem apoiar as aprendizagens em Língua Portuguesa

Os projetos de Educomunicação, como o Imprensa Jovem, podem contribuir diretamente para a melhoria dos índices de Língua Portuguesa ao promoverem atividades práticas de leitura, escrita, oralidade e interpretação de textos. Veja como:

1. Produção de conteúdos reais

Estudantes escrevem roteiros, reportagens, entrevistas, resenhas e artigos de opinião.

Essas práticas desenvolvem habilidades de escrita autoral, coesão e coerência textual, fundamentais na prova do Saeb.

2. Leitura crítica e interpretação

Analisar notícias, campanhas midiáticas e diferentes gêneros textuais estimula o pensamento crítico e a interpretação de textos, habilidades centrais em Língua Portuguesa.

3. Oralidade e argumentação

Gravação de podcasts, vídeos e entrevistas favorece a expressão oral, organização de ideias e argumentação, que são avaliadas nas práticas pedagógicas de Língua Portuguesa.

4. Engajamento e protagonismo

A motivação dos estudantes aumenta quando produzem algo significativo para a comunidade. Isso melhora o engajamento com os conteúdos curriculares, inclusive os de Língua Portuguesa.

 5. Trabalho interdisciplinar e colaborativo

A Educomunicação integra múltiplas áreas do conhecimento, promovendo aprendizagens significativas e contextualizadas, o que potencializa o desempenho dos estudantes.

Por Carlos Lima

Foto : Imprensa Jovem 


domingo, 25 de maio de 2025

O Canto do Sabiá: Infância, Encanto e Identidade

Todos os dias, as crianças da escola são recebidas com cantoria. Com minha turma, começamos a manhã em roda — como um ninho redondo e aconchegante — , onde cantamos juntos diferentes canções.

Acredito que a musicalização é um momento precioso, cheio de possibilidades para contribuir com o desenvolvimento integral das crianças. Além das tradicionais canções infantis, apresento a diversidade dos ritmos que compõem a nossa cultura. Por isso, levei para a nossa roda o samba de coco e a catira, ritmos cheios de história e identidade. Nessas músicas, um personagem especial aparecia: o pássaro sabiá.

A presença do sabiá nas letras despertou a curiosidade dos pequenos — muitas crianças passaram a acreditar que todos os pássaros vistos durante as brincadeiras no parque eram o sabiá-laranjeira. Foi bonito ver como a música se estendeu para além da roda, despertando o olhar atento, a imaginação e o encantamento com a natureza ao redor. Esse despertar para o sabiá virou pesquisa: conhecemos canções como as do Mestre Suassuna. Descobrimos ali outra paixão — a capoeira — , tornando nossas rodas de musicalização momentos de construção de identidade por meio da história, das culturas e do movimento.

O sabiá, com seu canto doce e inconfundível, é uma das aves mais queridas do Brasil. Entre suas muitas espécies, destaca-se o sabiá-laranjeira, escolhido como símbolo nacional por sua presença marcante e pela beleza do seu canto, que ecoa ainda antes do amanhecer, anunciando o novo dia com delicadeza.

Poetas e músicos se inspiraram em sua melodia serena, eternizando o sabiá como símbolo de memória, natureza e liberdade. Apesar de sua origem nas matas e florestas, ele se adaptou com graça à vida nas cidades, onde continua encantando territórios periféricos, como os parques da nossa escola. E, ao ouvir o canto de resistência nas vozes das crianças — “que povo é esse que sabe se defender, que povo é esse que sabe se defender?” — com a marcação das palmas e todos em roda no jogo da capoeira, entoando a música Sabiá cantou, senti, naquele instante, a inspiração que daria origem a minha escrita.

Acredito em uma escola que, como o ninho de um sabiá, acolhe, cuida e incentiva voos livres e altos — uma escola que, como seu canto, nos lembra quem somos, de onde viemos e para onde queremos voar.

“E assim, em meio à simplicidade de um dia comum, a inspiração brotou — como uma semente livre, trazida pelo sabiá.”

Por Mariana Damasceno de Oliveira

Fonte : 

https://medium.com/@maridamas/o-relato-de-viv%C3%AAncia-que-inspirou-o-nome-sabi%C3%A1-5d46a6209d30

sábado, 24 de maio de 2025

Como nasceu o setor Núcleo de Educomunicação

Minha trajetória com a Educomunicação começou muito antes da criação oficial do programa Educom.Rádio na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. Já devo ter contado essa história aqui no blog, mas retomo agora como um registro histórico importante.

Tive a honra de participar de uma das edições da série de documentários História Oral, gravada entre 2016 e 2017, com grandes educadores que contribuíram para a história da Secretaria Municipal de Educação. Ao contar minha história de vida, fui também revisitando o caminho trilhado nos projetos e programas de Educomunicação.

Comecei minha atuação no projeto Educom.Rádio na escola, uma experiência transformadora que me aproximou da potência das mídias na educação. Com o tempo, assumi a coordenação do projeto Nas Ondas do Rádio, que viria a se tornar um programa institucional em 2009, ampliando seu alcance e impacto nas escolas da rede.

Alguns anos depois, demos um passo ainda mais significativo: trabalhamos coletivamente para transformar o programa Nas Ondas do Rádio no Núcleo de Educomunicação da SME — o primeiro setor público no Brasil dedicado à formação de professores na interface entre educação e comunicação, desenvolvendo projetos midiáticos com intencionalidade pedagógica.

O projeto Imprensa Jovem, criado nas escolas com o protagonismo dos estudantes, também ganhou novo status, passando a ser reconhecido oficialmente como um programa educacional da SME. Essa conquista representou um importante avanço institucional: a transformação de um projeto em programa e a criação de um setor específico, fruto de ampla escuta com a rede por meio de consulta pública e consolidado no processo de reestruturação da Secretaria.

Na entrevista para a série História Oral, compartilho minha trajetória, as conquistas ao longo desse percurso e algumas mensagens para o futuro — sempre acreditando na força da Educomunicação como prática transformadora na escola pública.

Foto: ONU 

Mais informações 

Estabelece normas complementares ao Decreto nº 56.793, de 04/02/16, que dispõe sobre a organização, as atribuições e o funcionamento da Secretaria Municipal de Educação, bem como altera a denominação e a lotação dos cargos de provimento em comissão que especifica. Clique aqui


 

domingo, 18 de maio de 2025

Imprensa Jovem e Inteligência Artificial: um diálogo necessário com a educação

O Imprensa Jovem é, desde sua criação, um projeto de Educomunicação que valoriza o uso consciente e criativo das tecnologias. Em 2006, os blogs passaram a integrar a produção dos estudantes, logo veio o uso de software livre, redes sociais, cursos EAD e celulares. Recursos muitas vezes vistos com desconfiança, mas que abriram novas possibilidades de expressão e aprendizagem.

Agora, vivemos a chegada das Inteligências Artificiais (IAs) à educação. Como toda inovação, as IAs geram entusiasmo e também preocupações. Há quem acredite que elas poderão substituir professores ou comprometer a autoria dos estudantes. Mas é importante olhar para dois aspectos centrais:

  1. A substituição de tarefas humanas por automações, o que nos remete à discussão sobre a uberização do trabalho;

  2. A coleta e o uso massivo de dados por essas tecnologias.

Apesar disso, o fenômeno da automação é uma realidade. A IA já está no cotidiano de todos e todas. Compreendê-la culturalmente é fundamental, e os processos educativos têm um papel essencial nesse entendimento. Formar é o melhor caminho para evitar preconceitos e ampliar possibilidades.

A formação é um espaço de trocas, de reflexão crítica e de construção conjunta de saberes sobre os usos — e não-usos — da tecnologia. É nesse espírito que o Imprensa Jovem tem se apropriado da IA como ferramenta de apoio. O objetivo não é substituir a criatividade ou a autoria dos estudantes, mas potencializá-las.

As propostas com IA são pensadas para garantir que a tecnologia complemente o processo intelectual, e não o substitua. As orientações pedagógicas aos estudantes são claras: a IA deve ser suporte, não o autor final da produção. Como toda tecnologia, deve ser encarada como ferramenta, não como fim.

Na prática: IA na cobertura jornalística estudantil

Durante coberturas jornalísticas de eventos, estudantes do Imprensa Jovem costumavam usar o Google para buscar informações sobre os entrevistados em tempo real. Isso ajudava, mas nem sempre era suficiente: as perguntas, às vezes, eram pouco elaboradas ou feitas às pressas.

Mais recentemente, estudantes passaram a usar ferramentas como ChatGPT e DeepSeek. A partir de um tema e dos objetivos da entrevista, elaboram prompts (comandos) que ajudam a gerar sugestões de perguntas mais qualificadas. Com isso, conseguem se preparar melhor, formular questões relevantes e aprofundar as entrevistas. Mais do que respostas prontas, as IAs ampliam o repertório e a autonomia dos estudantes.

Esses usos não retiram a autoria estudantil — pelo contrário: potencializam a aprendizagem e o protagonismo. Os estudantes aprendem a discernir o que vale a pena perguntar, como refinar uma ideia, como adaptar uma linguagem para o público. E isso se traduz em conteúdos mais ricos para os canais de comunicação das escolas.

Formação como eixo central

A boa apropriação das IAs passa necessariamente por processos formativos, tanto de professores quanto de estudantes — ou, melhor ainda, dos dois juntos. Produzir conteúdos midiáticos é complexo e exige múltiplas competências. E a Educomunicação tem a vantagem de não focar apenas na técnica, mas no empoderamento comunicativo de crianças e adolescentes.

Tecnologias como o celular, por exemplo, são recursos valiosos. Com planejamento e uso consciente, são ferramentas poderosas para registro, edição e divulgação de conteúdos. O uso educativo das tecnologias deve ser viável, planejado e com intencionalidade pedagógica. No Imprensa Jovem, o celular é um aliado em muitas ações de cobertura exatamente por sua praticidade.

Se o objetivo é dar voz às juventudes e promover a difusão de informações para a comunidade e para a sociedade, usar as tecnologias disponíveis contribui diretamente para fortalecer a autoestima e a participação cidadã dos estudantes.

O valor da pergunta

Se o Imprensa Jovem fosse um país, sua moeda seria a pergunta. E, nesse novo cenário com IAs generativas como o ChatGPT, a habilidade de formular boas perguntas — ou bons prompts — é chave. Perguntar é a porta de entrada para resolver problemas, ampliar repertórios e construir conhecimento colaborativo.

Habilidades desenvolvidas com IA no Imprensa Jovem:

  • Criação de roteiros de reportagem e podcast com base em temas sugeridos pelos estudantes;

  • Aprimoramento de textos para blogs e redes sociais;

  • Checagem de fatos e criação de projetos de verificação de informações (fact-checking);

  • Pesquisa de conteúdos para pautas jornalísticas;

  • Dinamização da produção midiática com apoio das IAs, a partir do desafio apresentado pelo professor.

A Inteligência Artificial, quando integrada com ética, criticidade e criatividade, não substitui o humano — amplia sua capacidade de agir, comunicar e transformar.

Por Carlos Lima: Educomunicador e professor

Imagem : produzido por IA no ChatGPT


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Imprensa Jovem 20 Anos: Participe da Construção do Nosso Documentário Comemorativo!


O ano de 2025 marca uma data histórica para a educação midiática na cidade de São Paulo: os 20 anos do Programa Imprensa Jovem, uma política pública pioneira que transformou escolas em verdadeiras agências de comunicação protagonizadas por estudantes. Ao longo dessas duas décadas, milhares de crianças, adolescentes e jovens deram voz às suas comunidades, praticaram o jornalismo educativo e exerceram o direito à comunicação de forma criativa, ética e cidadã.

Para celebrar essa trajetória coletiva, estamos produzindo um documentário especial e queremos contar com a sua participação — e com a dos estudantes que fazem ou fizeram parte dessa história!

📣 Dois Convites Especiais Para Você!

Estamos abrindo duas formas de participação no documentário e em outras ações comemorativas. Veja como contribuir:


🎬 1. “Imprensa Jovem é...” – Um Filme Coletivo em 15 Segundos

Grave um vídeo curto (até 15 segundos) completando a frase:
👉 “Imprensa Jovem é...”

Esse filme será formado por diversos depoimentos curtos, criando um mosaico audiovisual de ideias, sentimentos e significados sobre o projeto. Educadores(as), estudantes e ex-estudantes estão convidados!

📝 Dicas para a gravação:

  • Enquadramento horizontal, em primeiro plano e centralizado(a);

  • Qualidade HD (18:9), com som limpo (microfone, lapela ou headset);

  • Ambiente bem iluminado, evite contraluz;

  • Grave em local que represente a escola, o projeto ou sua atuação;

  • Inicie e finalize com 5 segundos de silêncio;

  • Não é necessário se identificar;

  • Finalize com um sorriso de 3 segundos;

  • Nomeie o vídeo:
    IMPRENSA JOVEM É_ESCOLA_NOME COMPLETO;

  • Anexe a autorização de uso de imagem (PDF com assinatura digital e-gov) com o nome:
    AUTORIZACAO_ESCOLA_NOME COMPLETO.

📥 [Clique aqui para acessar o formulário de envio]
📅 Prazo para envio: até 21 de maio de 2025


🎥 2. “Minha história com o Imprensa Jovem...” – Um Relato em Vídeo

Você também pode contar a sua história no projeto. Grave um vídeo de até 3 minutos iniciando com a frase:

👉 “Minha história com o Imprensa Jovem...”

Esse material será utilizado em outros documentários, ações de memória e no nosso e-book comemorativo.

📝 Dicas para a gravação:

  • Enquadramento horizontal, em plano médio;

  • Qualidade HD (18:9), com som limpo;

  • Grave em ambiente representativo da sua trajetória no projeto;

  • Mencione sua escola, o que você fez ou faz no projeto e compartilhe uma história marcante;

  • Inicie e finalize com 5 segundos de silêncio;

  • Termine com um sorriso de 3 segundos;

  • Nomeie o vídeo:
    MINHA HISTORIA IMPRENSA JOVEM_ESCOLA_NOME COMPLETO;

  • Anexe a autorização de uso de imagem (PDF com e-gov).

📥 [Clique aqui para acessar o formulário de envio]

📅 Prazo para envio: até 23 de maio de 2025


📚 Um Legado que se Constrói com Vozes Reais

O Programa Imprensa Jovem é uma referência internacional em educação midiática e educomunicação, reconhecido por promover a participação cidadã e o protagonismo infantojuvenil. Queremos que essa história seja contada por quem viveu cada momento, cada entrevista, cada cobertura, cada descoberta.

Contamos com você para construir esse documentário vivo, cheio de vozes, memórias e sonhos.

📢 Participe. Compartilhe. Celebre conosco.

#ImprensaJovem20Anos
#Educomunicação
#DireitoÀComunicação
#ProtagonismoJuvenil


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Avaliação nos Projetos Educomunicativos: Processo, Intencionalidade e Impactos


A avaliação educomunicativa é um processo formativo e participativo que busca compreender o desenvolvimento dos estudantes a partir das experiências midiáticas e comunicacionais promovidas em projetos educacionais. Diferentemente de avaliações tradicionais, esse processo valoriza a construção coletiva do conhecimento, a autoria estudantil e o uso ético e criativo das tecnologias da informação e comunicação.

Nos projetos de Educomunicação, a avaliação acontece de forma contínua e reflexiva, e está organizada em torno de indicadores específicos, como a educação para a comunicação, a mediação tecnológica na educação, e o protagonismo juvenil. Cada um desses indicadores é avaliado por meio de critérios qualitativos que permitem identificar níveis de desenvolvimento (não satisfatório, satisfatório e plenamente satisfatório), promovendo uma leitura abrangente dos avanços individuais e coletivos.

Entre os aspectos observados, destacam-se:

  • A capacidade crítica dos estudantes na análise das mensagens midiáticas, com atenção à identificação de fake news, propósitos comunicacionais e construção de argumentos bem fundamentados;

  • O uso consciente e criativo das tecnologias, tanto como meio de expressão quanto como ferramenta para a participação democrática e produção colaborativa;

  • A elaboração e aplicação de critérios para seleção e organização de informações, demonstrando autonomia intelectual e coerência comunicacional;

  • A atuação dos estudantes como protagonistas, com participação ativa nas decisões do projeto, em atividades de mediação e em práticas de escuta e cooperação entre os pares.

Esse tipo de avaliação também contempla a intencionalidade docente, pois permite ao educador refletir sobre suas práticas pedagógicas, os caminhos metodológicos adotados e os impactos formativos gerados. Ao mesmo tempo, a avaliação não se limita aos resultados finais, mas valoriza os processos vivenciados, os desafios enfrentados e os aprendizados construídos ao longo do projeto.

Momentos marcantes na aplicação dessa metodologia incluem as produções midiáticas dos estudantes (como podcasts, vídeos, reportagens e entrevistas), as apresentações públicas, a participação em eventos e as dinâmicas de roda de conversa que promovem o diálogo entre todos os envolvidos.

A proposta é, portanto, promover uma avaliação mais humanizada, inclusiva e integrada à prática educomunicativa, fortalecendo o papel da escola como espaço de escuta, produção e transformação social.

Por Carlos Lima : Educomunicador e professor

Imagem: Cobertura Imprensa Jovem |Entrevista com Heloisa Shurmman 

Fonte:  Educomunicação na escola: construindo um modelo de avaliação

Silene de Araujo Gomes Lourenço - Pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE-ECA-USP)

clique aqui


terça-feira, 13 de maio de 2025

A gramática para entender a criança e o adolescente




Entender crianças e adolescentes é, antes de tudo, um exercício de escuta, presença e empatia. Não se trata apenas de observá-los de fora, mas de mergulhar em seus mundos, decifrar seus silêncios, suas linguagens, seus sonhos e inquietações. É como aprender uma nova língua: exige atenção aos códigos, aos contextos e às entrelinhas.

O que são crianças e adolescentes?

Mais do que faixas etárias, crianças e adolescentes são sujeitos em formação, com direitos garantidos e vozes próprias. A infância e a adolescência são tempos de descobertas, conflitos e afirmações. São fases em que o ser humano experimenta intensamente o mundo, constrói significados e busca pertencimento.

Frequentemente, o adulto se aproxima desses sujeitos tentando ensinar, conduzir, corrigir. Mas talvez a primeira lição seja aprender com eles. As crianças ensinam sobre o encanto, a curiosidade e a liberdade de imaginar. Os adolescentes, sobre a coragem de se questionar e reinventar.

O que esperam da vida?

Crianças esperam afeto, segurança, espaço para brincar e se expressar. Desejam ser vistas, acolhidas, compreendidas. Adolescentes esperam oportunidades, liberdade com responsabilidade, respeito à sua identidade e lugar de fala. Querem participar do mundo, não apenas assisti-lo.

Ambos esperam que os adultos não sejam barreiras, mas pontes. Que saibam acolher seus sentimentos sem minimizar suas dores. Que reconheçam suas potências, e não apenas suas faltas.

O que esperam do adulto?

Esperam escuta genuína. Não apenas alguém que ouça com os ouvidos, mas que compreenda com o coração. Esperam presença — não no controle, mas no cuidado. Esperam coerência, exemplo, sensibilidade. O adulto, para eles, é referência de mundo. E quando esse mundo é aberto, sensível e justo, a confiança se fortalece.


Ayla Santos questiona a pesquisa Sonia Livingstone da London School no Instituto Alana

Qual a gramática para entendê-los?

A gramática que nos permite entender crianças e adolescentes vai além da linguagem verbal. É uma gramática da escuta, da observação, da sensibilidade. Envolve:

  • Escutar com atenção: o que dizem e o que não dizem.

  • Observar contextos: o ambiente, os vínculos, as referências.

  • Reconhecer linguagens: o corpo, os gestos, os símbolos, os silêncios.

  • Dialogar com respeito: construindo pontes, não muros.

  • Valorizar a expressão: oferecer meios para que se manifestem, criem, participem.

Educomunicação como meio potente

A Educomunicação surge como uma ponte poderosa nessa relação. Ao valorizar a comunicação como processo educativo e a educação como ato comunicativo, ela cria espaços para que crianças e adolescentes expressem suas ideias, sentimentos e visões de mundo.

Projetos de rádio escolar, podcasts, jornal estudantil, produções audiovisuais, rodas de conversa e blogs são estratégias educomunicativas que revelam o que muitas vezes não é dito em sala de aula. Quando uma criança entrevista um colega, quando um adolescente edita um vídeo sobre sua comunidade, estão não apenas aprendendo técnicas — estão traduzindo seu mundo com suas próprias gramáticas.

A Educomunicação reconhece que toda criança é autora de sentidos, e todo adolescente é produtor de narrativas. Escutar essas narrativas é fundamental para uma educação mais humanizada, mais justa, mais significativa.

Aprender a gramática da infância e da adolescência é um desafio contínuo — exige do adulto mais humildade do que autoridade. E talvez esse seja o maior aprendizado: não impor fórmulas, mas descobrir caminhos juntos.

A comunicação, quando feita com afeto, liberdade e escuta, se torna a linguagem comum entre gerações. E é nessa linguagem que podemos construir relações verdadeiramente educativas, transformadoras e inclusivas.

Por Carlos Lima : Educomunicador e professor

Imagem : Imprensa Jovem Josué de Castro



Seu projeto de Educomunicação está saudável?

Assim como o corpo humano, um projeto de Educomunicação pode apresentar sinais de saúde — ou algumas patologias. Um projeto saudável promove...