quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O 3D da Educomunicação: um legado para salvar o planeta

Os 20 anos do Programa Imprensa Jovem representam muito mais do que uma trajetória de projetos e produções midiáticas. Representam a consolidação de um modo de fazer educação comprometido com a manutenção da democracia, a promoção do diálogo e a integração das diversidades. Em um mundo marcado por polarizações, discursos de ódio e crises socioambientais, a Educomunicação se afirma como uma resposta pedagógica urgente e necessária.

O século XXI — iniciado no ano 2000 — é, e continuará sendo, o século da Educomunicação. Um tempo histórico que exige da escola um olhar ampliado, crítico e sensível às complexidades do mundo. É nesse contexto que surge a proposta da Educação 3D com a Educomunicação.

O 3D não se refere à tecnologia em si, mas a um olhar tridimensional sobre a realidade. Um olhar que:

  • os fatos e acontecimentos;

  • Compreende os contextos, as relações e os interesses envolvidos;

  • Intervém de forma ética, coletiva e transformadora.

Esse olhar 3D é fundamental para a manutenção da democracia, pois forma sujeitos capazes de analisar informações, reconhecer diferentes pontos de vista, combater a desinformação e participar ativamente da vida pública. Ao produzir jornalismo estudantil, os jovens aprendem que a democracia se constrói com escuta, responsabilidade e autoria.

A Educomunicação 3D também é uma potente ferramenta de promoção do diálogo. Nos coletivos do Imprensa Jovem, o diálogo não é retórico: ele se materializa na produção colaborativa, na mediação de conflitos, na convivência entre diferentes gerações, territórios e culturas. Dialogar é aprender a discordar com respeito, a construir consensos possíveis e a reconhecer o outro como legítimo.

Integrar as diversidades é outro eixo estruturante do 3D da Educomunicação. Diversidade de vozes, de corpos, de gêneros, de culturas, de saberes e de territórios. Ao longo de sua história, o Imprensa Jovem consolidou espaços em que meninas e jovens mulheres assumem protagonismo, onde estudantes historicamente silenciados passam a narrar o mundo a partir de seus próprios olhares. Isso é democracia em prática.

O 3D da Educomunicação também aponta caminhos para a sustentabilidade do planeta. Ao engajar crianças e jovens em processos de leitura crítica da realidade, criamos condições para futuros mais justos, solidários e ambientalmente responsáveis. Não há futuro sustentável sem educação democrática, participativa e diversa.

20 anos do Imprensa Jovem

Celebrar os 20 anos do Imprensa Jovem é, acima de tudo, assumir um compromisso coletivo com o futuro. É um convite para:

  • Fortalecer a Educomunicação nas escolas como política pública permanente;

  • Garantir espaços de escuta e protagonismo juvenil;

  • Defender a democracia por meio da educação midiática e informacional;

  • Promover o diálogo em tempos de intolerância;

  • Valorizar as diversidades como riqueza social e pedagógica;

  • Agir localmente, a partir da escola e do território, com impacto global.

Os próximos anos exigem coragem, sensibilidade e ação. O Imprensa Jovem segue como um movimento educativo, uma rede viva de jovens comunicadores que acreditam que educar é comunicar, e comunicar é transformar.

Que os próximos 20 anos sejam ainda mais tridimensionais.
Mais democráticos.
Mais diversos.
Mais humanos.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

Imagem : TV Cultura Imprensa Jovem no Ar - Acervo pessoal 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Homenagem a José Armando Valente: estudantes do Imprensa Jovem entrevistam referência das Tecnologias para Aprendizagem


Durante a Mostra de Tecnologia - Ação Promovendo a Reflexão - 2024,  os estudantes do Imprensa Jovem tiveram a oportunidade de conversar com o professor e pesquisador Dr. José Armando Valente, uma das principais referências nacionais em tecnologia educacional. Junto com Seymour Papert apoiou na implantação dos laboratórios de informatica educativa nas escolas de municipais de São Paulo na década de 80. 


Diálogo histórico de Seymour Paper e Paulo Freire com tradução de José Valente

A entrevista foi conduzida por Heloísa Gama Martins e Thomas Nascimento de Lima, da agência de notícias Imprensa Jovem da EMEF Prof. Roberto Plinio Colacioppo , que dialogaram com o pesquisador sobre trajetória profissional, desafios da educação digital e perspectivas para o futuro da aprendizagem.

Da engenharia à educação

Ao iniciar a conversa, os estudantes perguntaram ao professor como começou sua carreira e o que o motivou a seguir o caminho da educação. José Valente contou que sua formação inicial foi na engenharia mecânica, atuando com projetos de programação. No entanto, o interesse pela docência o levou a dar aulas de Ciência da Computação ainda no início da década de 1970.

Em 1976, mudou-se para os Estados Unidos para realizar o doutorado com pesquisador Seymour Papert. Foi lá que conheceu projetos inovadores que defendiam uma ideia revolucionária para a época: não ensinar apenas tecnologia ao aluno, mas permitir que a criança “ensine” o computador, por meio da programação. Esse contato transformou sua trajetória. Valente passou a se dedicar à interface entre tecnologia e educação, deixando a engenharia em segundo plano e assumindo-se, hoje, muito mais como educador do que como engenheiro.

Estudantes do Imprensa Jovem entrevistam o professor José Valente


Tecnologia e cultura digital na escola

Questionado sobre a relevância da tecnologia na atualidade e seu impacto no ensino e na aprendizagem, o professor destacou que inserir tecnologia na escola é, antes de tudo, colocar o estudante em contato com a realidade da cultura digital.

Segundo ele, praticamente todos os setores da sociedade — produção, comércio, entretenimento — já estão profundamente integrados às tecnologias digitais. A educação, no entanto, ainda enfrenta dificuldades para acompanhar esse movimento. Para Valente, essa mudança não será impulsionada apenas pelos professores, mas principalmente pelos estudantes, que já vivem intensamente a cultura digital e acabam “puxando” a escola para essa transformação.

Desafios para integrar tecnologia à educação

Ao falar sobre os principais desafios para uma integração efetiva da tecnologia nas escolas, José Valente foi direto: infraestrutura e formação docente.

A falta de acesso à internet e de equipamentos como computadores e tablets ainda é um obstáculo significativo. No entanto, ele enfatizou que o maior desafio é a formação dos professores, para que saibam integrar as tecnologias digitais de forma pedagógica e significativa ao currículo tradicional.

Tecnologia, desigualdade e periferias

Outro ponto importante da entrevista foi a discussão sobre como a falta de internet e de infraestrutura tecnológica impacta a educação de jovens, especialmente nas periferias e áreas rurais. Para o pesquisador, essa é uma questão diretamente ligada a decisões políticas e prioridades públicas.

Ele citou o exemplo do Uruguai, que iniciou a implementação de tecnologias digitais justamente pelas áreas rurais, ampliando o acesso antes de chegar aos grandes centros urbanos. Para Valente, democratizar o acesso à tecnologia é uma escolha política essencial para garantir equidade educacional.

José Valente UNICAMP, Regina Gavassa TPA/SME,  Ann Berger  Valente MIT e Carlos Lima EDUCOM /SME no Seminário Mostra de Tecnologia 2023

O futuro da educação e a inteligência artificial

Encerrando a entrevista, os estudantes perguntaram sobre as expectativas para o futuro da educação tecnológica. José Valente demonstrou entusiasmo ao falar da chegada da inteligência artificial como recurso educacional.

Em sua visão, a educação caminha para um momento em que o estudante será cada vez mais ativo, protagonista do próprio aprendizado, utilizando metodologias ativas, enfrentando desafios e fazendo uso crítico das tecnologias. Nesse cenário, o papel do professor deixa de ser o de transmissor de conhecimento e passa a ser o de mediador e orientador.

Para viver plenamente na cultura digital, Valente destacou dois elementos fundamentais: repertório e diálogo. Segundo ele, essas competências serão essenciais para que os jovens utilizem as tecnologias de forma crítica, criativa e ética.

Ao final, o professor agradeceu a entrevista e reforçou que o futuro da educação está nas mãos dos próprios estudantes — como os jovens do Imprensa Jovem, que já exercitam, na prática, a comunicação, o pensamento crítico e o protagonismo juvenil.


Por Carlos Lima : Professor  Educomunicador

Fotos : Acervo Carlos Lima

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O audiovisual e o cinema na escola: educação, diálogo e transformação social


O cinema e o audiovisual ocupam hoje um lugar estratégico na escola contemporânea. Mais do que recursos didáticos ou instrumentos de apoio às aulas, eles se consolidam como linguagens formativas, capazes de promover diálogo, empatia, pensamento crítico e protagonismo estudantil. Quando trabalhados a partir da perspectiva da Educomunicação, tornam-se potentes ferramentas de transformação social e de enfrentamento às desigualdades e aos preconceitos.

A escola é, por excelência, um espaço de escuta, de fala e de construção coletiva de sentidos. O audiovisual possibilita que temas complexos — como racismo, direitos humanos, meio ambiente, diversidade cultural e justiça social — sejam abordados de forma sensível, contextualizada e conectada às vivências dos estudantes. O cinema cria pontes entre o currículo, o território e as experiências de vida, ampliando o repertório cultural e fortalecendo a aprendizagem interdisciplinar.

Nesse contexto, o cineclube escolar se apresenta como uma estratégia pedagógica fundamental. Diferente da simples exibição de filmes, o cineclube pressupõe curadoria intencional, planejamento e mediação pedagógica. Os filmes selecionados dialogam com documentos orientadores da Rede, como as Diretrizes de Educação Antirracista, e provocam debates que valorizam a diversidade de olhares. Quando os estudantes se reconhecem nas narrativas exibidas, suas vozes emergem, seus pontos de vista se expressam e o espaço escolar se torna mais democrático e participativo.

O audiovisual, enquanto prática educomunicativa, não se limita ao ato de assistir. Ele envolve também a produção de conteúdos pelos próprios estudantes. Aprender a fazer cinema é um processo colaborativo que desenvolve competências técnicas, comunicativas, sociais e emocionais. Na criação de roteiros, os estudantes exercitam a empatia ao pensar no público; na produção, aprendem a cooperar, dividir tarefas e reconhecer diferentes potencialidades; na edição, vivenciam o diálogo, a escuta e a tomada coletiva de decisões. Nesse percurso, o processo formativo é mais importante do que o produto final.

Trabalhar com cinema e audiovisual na escola também significa investir em alfabetização midiática e informacional. Ao analisar enquadramentos, narrativas, escolhas estéticas e recortes temáticos, os estudantes desenvolvem uma leitura crítica da mídia, tornando-se capazes de identificar intenções, discursos e vieses presentes nas produções audiovisuais. Essa competência é tão essencial quanto as alfabetizações da leitura, da escrita, da matemática, das ciências ou das artes, especialmente em um mundo atravessado pelas telas e pelas redes digitais.

Ao longo de mais de duas décadas de experiências na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, iniciativas como o Programa Imprensa Jovem, os projetos de cineclube, as formações docentes e as produções audiovisuais estudantis têm demonstrado que a Educomunicação emancipa, empodera e transforma vidas. O audiovisual cria espaços de protagonismo juvenil, fortalece a cultura de paz e amplia as possibilidades de participação cidadã.

Levar o cinema para a escola — e, sobretudo, para territórios historicamente marginalizados — é garantir o direito à comunicação e à expressão. É possibilitar que narrativas locais ganhem visibilidade, que vozes silenciadas sejam ouvidas e que novas formas de enxergar o mundo sejam construídas coletivamente. Quando estudantes produzem e compartilham suas histórias, a escola se torna um espaço de criação, pertencimento e transformação.

Diante de sua potência educativa, o audiovisual precisa ser reconhecido como política pública de educação. Festivais estudantis, mostras de cinema escolar, cineclubes e projetos de produção audiovisual são estratégias fundamentais para consolidar uma educação dialógica, democrática e criativa. O cinema, quando aliado à Educomunicação, não apenas forma espectadores, mas forma sujeitos críticos, autores de suas próprias narrativas e protagonistas de suas trajetórias.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Imagem : Pixabay

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Criar um site para o seu projeto de Educomunicação


Todo projeto de Educomunicação nasce com uma missão central: comunicar. Se essa dimensão não estiver presente, o espaço digital perde o sentido. Criar um site, portanto, não é apenas uma escolha estética ou técnica, mas uma estratégia pedagógica e comunicativa. A pergunta inicial que precisa orientar esse processo é simples e profunda: o que comunicar?

Quando falamos de um projeto de Educomunicação, falamos de autoria, protagonismo e participação. É natural, portanto, que o site seja um espaço para dar visibilidade às produções midiáticas criadas pelos próprios participantes — especialmente estudantes. Publicar essas produções não é apenas divulgar conteúdo, mas valorizar processos educativos, fortalecer vínculos com a comunidade escolar e reafirmar o direito à voz.

O que deve ser comunicado no site?

Um site de Educomunicação deve priorizar as produções autorais do projeto, que podem estar em diferentes linguagens: textos, podcasts, vídeos, fotografias, programas de rádio, reportagens multimídia ou posts digitais. Essas produções precisam ter destaque e boa visibilidade, pois representam o coração do projeto.

No entanto, antes de apresentar os conteúdos, é preciso cuidar de um aspecto essencial: o acolhimento do visitante. O site não pode parecer estranho ou confuso para quem acessa pela primeira vez. Ele deve deixar claro, desde o início, quem somos, o que fazemos e por que existimos.

As “cabeças” do site: estrutura básica

Alguns elementos são fundamentais para a identidade e a compreensão do site:

  • Endereço ou URL
    O endereço do site deve dar pistas claras sobre o projeto. Evite nomes genéricos. Um bom URL ajuda o visitante a entender rapidamente do que se trata o espaço virtual.

  • Descrição do site
    Apresente, de forma objetiva, as motivações do projeto, sua proposta educomunicativa e o público envolvido. Esse texto funciona como um convite ao internauta.

  • Conteúdo informativo
    Reúna informações institucionais e pedagógicas sobre o projeto. Esse conteúdo pode (e deve) ser atualizado conforme a relevância para o público.

Esses três elementos formam a base do site e ajudam a construir confiança, identidade e clareza.

A segunda camada de relevância: serviços e participação

Para tornar o site mais funcional e efetivo como fonte de informação, é importante incluir conteúdos relacionados aos serviços e ações do projeto, como:

  • Como participar do projeto

  • Atividades desenvolvidas

  • Orientações pedagógicas

  • Identificação dos participantes(nome e sobrenome)

  • Equipe gestora e educadores envolvidos

Essas informações fortalecem a transparência do projeto e ampliam o engajamento da comunidade.

Integração com redes sociais

Outro ponto essencial é a articulação do site com as redes sociais do projeto. Links para Instagram, YouTube, podcasts ou outras plataformas ampliam o alcance das produções e permitem que o site funcione como um hub central de comunicação, reunindo tudo em um único lugar.

Orientações para escrever os textos do site

Para garantir acessibilidade, clareza e boa experiência de leitura, recomenda-se adotar uma linguagem simples e direta, seguindo algumas orientações práticas:

  1. Utilize fonte Arial ou similar, evitando o uso excessivo de caixa alta

  2. Prefira texto em voz ativa, frases objetivas, parágrafos curtos e visualmente organizados

  3. Opte por fundo clean (preferencialmente claro ou escuro neutro)

  4. Use imagens horizontais, no máximo uma por seção

  5. Insira hiperlinks sempre que possível

  6. Mantenha o site atualizado com informações e produções recentes

  7. Crie títulos de links e URLs com, no máximo, duas palavras

Plataformas gratuitas para criar seu site

Hoje é possível criar sites de forma gratuita e acessível utilizando plataformas como:

  • Google Sites

  • Wix

  • WordPress

Essas ferramentas permitem que estudantes e educadores participem ativamente da construção do site, fortalecendo ainda mais o caráter colaborativo e autoral da Educomunicação.

Criar um site para o seu projeto não é apenas uma tarefa técnica: é uma ação pedagógica.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Do medo do futuro ao protagonismo: como a Imprensa Jovem mudou a minha vida

 


Sempre tive medo do futuro. Até hoje, me pego pensando no que seguirei como profissão, mas o que mais me assustava era o sentimento de incapacidade sobre a minha própria vida: não saber se conseguiria um bom emprego, bons estudos e a realização dos meus sonhos. Sonhador eu sempre fui e, como não conquistamos nada nesta vida sem projetar nossos objetivos, continuo firme nesse meu propósito.

Graças a esse desejo potente de trilhar um futuro do qual eu me orgulhasse, procurei meios que me ajudassem. Foi assim que me inscrevi em diversos projetos durante os meus anos no Paulo Duarte. Entre tantos, a Imprensa Jovem foi um dos que mais transformaram a minha vida. Posso dizer que, graças a ele, encontrei não só algo que amo fazer, mas também propósito e oportunidade.

Missão Action Days - Summit Of Future  ONU - 2024

Desde pequeno, sempre fui muito tímido. Quando se tratava de falar com outras pessoas, não importava a idade, eu não tinha coragem. Mas, em 2023, adentrei o mundo das entrevistas. Comecei a falar com as câmeras, conhecer pessoas novas e perder a timidez. Confesso que não foi fácil, mas acredito firmemente que o projeto Imprensa Jovem foi o motor do meu desenvolvimento na comunicação. A capacidade de um projeto dar tanto protagonismo e voz aos estudantes é um dos principais fatores para o desenvolvimento da educação como um todo. Graças a essa força do projeto, hoje consigo falar sem medo, sem gaguejar e com muito mais confiança.

Depois de 2023, repleto de experiências incríveis, como: conhecer de perto a TV Cultura. O ano de 2024 foi o ano que me deu o propósito que mencionei anteriormente. Participamos do G20 (o maior fórum de economia do mundo), onde entrevistei personalidades como o ministro da fazenda Fernando Haddad. Também fui ao Rio de Janeiro para participar do evento LED (Luz na Educação), pela Ashoka e pelo Imprensa Jovem. Além disso, participamos mais uma vez da revista Imprensa Jovem e conhecemos a Renata Juliotti, que foi nossa tutora na escrita da matéria e também em duas viagens: ao Chile, durante o Fórum da Juventude, e ao Fórum do Desenvolvimento Sustentável da ONU. É uma experiência que me faltam palavras para descrever, e só tive a oportunidade de ir ao Chile por conta do projeto.

Com a ida ao Chile, as pontes se interligaram e nos levaram a Nova York, para participarmos dos Action Days e da Cúpula do Futuro da ONU. Se o meu "eu" do passado olhasse para tudo o que ocorreu nestes dois anos, tenho certeza de que ficaria muito aliviado. O Imprensa Jovem abriu portas que eu nunca imaginei serem possíveis para mim, que sou um jovem negro, estudante de escola pública e morador de periferia. Desenvolvi habilidades e superei minhas dificuldades de comunicação. Foram dois anos que mudaram a minha vida e, por isso, digo que todos os jovens deveriam participar desse projeto.

Acredito que a minha história possa parecer loucura; às vezes eu mesmo penso isso. Mas compartilho esse relato para mostrar que essa realidade não está tão distante de você.

Termino dizendo que a educação é, definitivamente, uma desbravadora de mares e de futuros. O projeto Imprensa Jovem foi revolucionário em minha vida e me levou a caminhos que eu sequer conseguia imaginar antes de percorrê-los. Hoje, estudo no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), cursando o Ensino Médio Técnico, e acredito que o projeto me ajudou a chegar onde estou hoje, aos meus 16 anos. Meu nome é Pedro Murilo e espero que, assim como a minha, a vida de muitos outros jovens passe por essa transformação.

Por Pedro Murilo  - Estudante do Instituto Federal de São Paulo 

sábado, 20 de dezembro de 2025

O estudante fez a cobertura, mas a matéria não foi publicada. E agora?


Isso é mais comum do que parece — mais comum do que gostaríamos de admitir.

O entusiasmo da turma ao participar de um evento para viver a experiência da cobertura costuma ser grande: gravar vídeos, tirar fotos, conversar com pessoas interessantes, registrar falas, circular pelo espaço, descobrir coisas novas. Tudo isso desperta nos estudantes sensações de revelação, curiosidade, pertencimento e exploração.

Muitas vezes, o processo de planejamento e preparação é executado com bastante interesse — em parte porque os estudantes estão motivados para “curtir” o evento. O desafio aparece na etapa final da experiência: finalizar a produção do conteúdo e publicá-lo no canal do projeto ou da escola.

Da captação à publicação: um desafio antigo, ainda atual

Há alguns anos, o processo de captação audiovisual dependia de equipamentos analógicos, o que dificultava descarregar os registros, selecionar materiais, editar e finalizar as produções. Hoje, com celulares e recursos digitais, tudo isso ficou mais acessível. Além disso, a colaboração entre os integrantes da equipe — troca de arquivos, pastas compartilhadas, edição coletiva — tornou-se muito mais simples.

Mesmo assim, os mesmos problemas do passado ainda acontecem.

Essa constatação levou à construção de uma orientação fundamental para as equipes de Educomunicação:

Se você entrevistou alguém para sua reportagem, precisa publicar essa entrevista.

Publicar é uma questão de respeito ao entrevistado, que dedicou tempo, compartilhou informações, ideias, opiniões e reflexões de forma voluntária. Não colocar no ar esse conteúdo fragiliza o direito à comunicação de quem colaborou com a produção.

Imagine a expectativa do entrevistado ao aguardar para assistir ou ler uma reportagem da qual participou.


Mas por que o estudante não finaliza a matéria?

Quando o estudante não se dedica à finalização do conteúdo, precisamos perguntar: o que está acontecendo no processo?

Uma das possibilidades é que o encantamento vivido durante o evento não se sustente no momento em que o estudante precisa aparecer para sua comunidade, assumir autoria, editar, publicar e se responsabilizar pelo produto final.

Outro ponto recorrente é a ausência de uma organização clara de papéis dentro da equipe de reportagem, especialmente da função de produtor.


A importância do estudante produtor na equipe de reportagem

Cada equipe de reportagem precisa contar com um estudante produtor. Esse papel é estratégico para garantir organização, foco e celeridade na publicação do conteúdo.

O produtor não é “chefe” da equipe, mas o estudante que:

  • Ajuda a organizar a pauta e o plano de reportagem;

  • Acompanha se as entrevistas e registros previstos estão sendo realizados;

  • Cuida da organização dos arquivos (fotos, vídeos, áudios);

  • Articula a comunicação entre repórter, fotógrafo e editor;

  • Apoia a finalização da produção para que ela seja publicada com rapidez no canal do projeto.

A presença do produtor fortalece o trabalho coletivo e evita que a reportagem se perca entre a captação e a publicação. É ele quem ajuda a transformar a experiência vivida no evento em conteúdo efetivamente divulgado.


Equipe básica de reportagem: quem faz o quê?

Para que a produção flua e seja concluída, é importante que os estudantes compreendam e experimentem diferentes funções. Uma equipe básica de reportagem pode ser organizada da seguinte forma:

🧩 Produtor

  • Organiza a pauta e o plano de reportagem;

  • Garante que a proposta da matéria seja seguida;

  • Cuida do fluxo de produção e da organização dos arquivos;

  • Apoia a finalização e a publicação do conteúdo.

🎤 Repórter

  • Conduz as entrevistas;

  • Apresenta o evento e os entrevistados;

  • Realiza passagens, aberturas e encerramentos;

  • Dá voz aos diferentes participantes, garantindo pluralidade.

📸 Fotógrafo

  • Registra imagens que contextualizam o evento;

  • Produz fotos pensadas para a reportagem e para redes sociais;

  • Evita registros aleatórios, focando no que será utilizado.

🎬 Editor de imagem e vídeo

  • Seleciona os melhores registros;

  • Realiza cortes, ajustes simples e montagem do material;

  • Prepara o conteúdo para publicação no canal do projeto.

Essas funções podem ser rotativas, permitindo que todos os estudantes experimentem diferentes linguagens e responsabilidades ao longo do projeto.


Planejamento com foco evita produção sem conclusão

É muito comum as equipes irem aos eventos apenas com um “kit de perguntas”. Não há problema algum nisso. O problema é sair sem uma proposta clara de reportagem.

Quando existe uma proposta definida, os registros produzidos pelos estudantes se complementam: podem virar uma série de entrevistas, uma reportagem audiovisual, um conjunto de depoimentos ou conteúdos pensados para diferentes plataformas.

Série de entrevistas

  • Depoimentos curtos, com no máximo duas perguntas;

  • Ideais para redes sociais;

  • O repórter apresenta o evento e o entrevistado logo no início.

Reportagem

  • Parte de um roteiro ou plano de reportagem;

  • Define previamente:

    • O que precisa ser captado;

    • Quem será entrevistado;

    • Quais imagens de apoio são necessárias;

  • Inclui abertura, passagens, entrevistas e encerramento.


Orientações práticas para garantir eficiência na captação

  • Não registre sem propósito.
    Excesso de registros dificulta a edição e atrasa a publicação.

  • Cuide da entrevista desde o início.
    Enquadramento, som e organização prévia economizam tempo depois.

  • Divida entrevistas longas.
    Gravar em blocos torna o material mais leve e ágil para editar.

  • Seleção ainda no evento.
    Elimine conteúdos que não ficaram bons antes de voltar para a escola.

  • Aproveite o clima do evento.
    Se possível, avance na pré-produção ainda no local.


O canal de comunicação como motivador

O canal de comunicação da escola ou do projeto precisa estar sempre ativo. Quando o canal é conhecido, os estudantes também passam a ser reconhecidos.

Eles se veem, são vistos, comentados e valorizados. Isso fortalece a autoestima, o senso de autoria e o desejo de finalizar e divulgar rapidamente suas produções.


O professor como mediador, não como editor

O professor não deve assumir sozinho a edição das reportagens. Isso gera sobrecarga e impede sua atuação pedagógica.

  • Forme estudantes para editar;

  • Distribua responsabilidades;

  • Organize o material em pastas digitais compartilhadas.


Tempo, atualidade e estratégia de pauta

Quando a produção demora, perde-se o timing. Uma alternativa é trabalhar com matérias frias, que podem ser publicadas mesmo após o evento.

Exemplo – FLISAMPA

Pergunta quente:

O que teremos na FLISAMPA nesta edição?

Pergunta fria:

O que é a FLISAMPA e qual sua importância?

A escolha das perguntas define o tempo de publicação. Por isso, planejar a pauta é essencial.


Avaliar o processo também é aprender

Toda experiência de reportagem promove aprendizagem. Mas avançar na qualidade do produto final exige refletir sobre como organizamos a gestão da produção.

Quando a equipe se organiza, assume papéis claros e valoriza o estudante produtor, o entusiasmo do evento se transforma em conteúdo publicado, aprendizagem significativa e direito à comunicação garantido.

Se quiser, posso adaptar este texto para:

  • Capítulo de manual do Imprensa Jovem/Mirim

  • Material de formação para professores

  • Versão resumida para newsletter ou redes sociais

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

Isnpiração do tema : Professora Andréia Pinheiro

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Aspirante a jornalista esportiva: a coragem de perguntar e os caminhos que a comunicação abriu na minha vida


Eu sempre gostei de falar. Falar bastante. Falar com o mundo. Desde criança, a comunicação já me habitava. Eu era curiosa, expansiva, dessas que observam demais. Cresci apaixonada pelos universos do futebol, do automobilismo e da cultura nerd. Cada um deles me ensinou a prestar atenção, a interpretar gestos, silêncios, histórias. Eu aprendia sem perceber.

Com o crescimento, inevitável para todos nós, veio a pergunta que muda tudo: o que eu quero ser no futuro? A resposta surgiu de forma simples, sentada diante da televisão. Eu adorava assistir a entrevistas. Me encantava com perguntas bem construídas, inteligentes, daquelas que abrem caminhos em vez de fechá-los. Eu pensava: que pergunta genial. Foi ali que compreendi: eu queria estar do outro lado da câmera. Queria comunicar. Queria ouvir, perguntar, traduzir. Queria ser jornalista, especialmente jornalista esportiva.

Em 2022, eu ainda caminhava meio sozinha. Poucos amigos, muitos sonhos guardados. Foi quando, por meio de um amigo que já participava do Imprensa Jovem, recebi um convite para acompanhar um evento. Eu fui. E, sem saber, atravessei um limite invisível. Algo se acendeu ali. Eu me apaixonei pelo projeto, pela potência que ele carregava, pela forma como ele nos dizia, sem palavras, que aquele espaço também era nosso. Decidi que, em 2023, entraria oficialmente. E entrei. Foi o ano em que tudo mudou.

No Imprensa Jovem, eu encontrei pessoas, vozes, caminhos. Fiz amigos. Circulei por lugares que antes pareciam distantes demais da minha realidade. Fui a eventos, participei de coberturas, vivi experiências que ampliaram meu mundo. Minha fala ganhou corpo, meu vocabulário ganhou precisão, minha comunicação ganhou coragem. Ali, eu não me formei apenas como comunicadora, eu me formei como pessoa.

Existem momentos que parecem reorganizar a gente por dentro. Dois deles ficaram marcados em mim. A Fórmula E, com seus carros elétricos cortando o espaço e o futuro passando diante dos meus olhos. E a Comic Con Experience, onde universos inteiros cabiam dentro de um pavilhão. Em ambos, eu parei, respirei e pensei: que oportunidade maravilhosa. Pensei também no quanto eu era feliz por estudar na EMEF Paulo Duarte. Aquele lugar me acolheu, me impulsionou, me abriu portas que eu nem sabia que existiam.

Por causa do Imprensa Jovem, conheci a TV Cultura, encontrei Mauricio de Sousa, entrevistei um ministro de Portugal no G20 (fórum de economia). Experiências que ainda hoje parecem improváveis. E talvez sejam mesmo. Principalmente quando lembramos que eu era, e sou, uma estudante de escola pública, da periferia. Mas foi justamente isso que deu sentido a tudo. Cada vivência carregava a prova de que o mundo pode, sim, alcançar quem ousa sonhar.

Sou profundamente grata por tudo o que vivi e aprendi. Esse projeto me ensinou técnica, responsabilidade e escuta. Mas, acima de tudo, me ensinou pertencimento. Hoje, sigo meu caminho na Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, cursando Marketing, com o mesmo propósito vivo: continuar na comunicação, estudar, insistir, tentar jornalismo na Fundação Cásper Líbero e trabalhar com aquilo que amo. Sempre com a memória atenta, sem apagar minhas origens, sem esquecer quem eu sou. Eu sou Luísa Bava. A menina da Imprensa Jovem da EMEF Paulo Duarte. E alguém que aprendeu cedo que perguntar pode abrir mundos inteiros.

Por Luisa Bava - Estudante e aspirante a jornalista esportiva  

O 3D da Educomunicação: um legado para salvar o planeta

Os 20 anos do Programa Imprensa Jovem representam muito mais do que uma trajetória de projetos e produções midiáticas. Representam a consol...