Mostrando postagens com marcador História Oral. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História Oral. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de junho de 2026

Da timidez ao microfone: Quando encontrei minha voz





Quem imaginaria que uma estudante, antes quieta e retraída, se tornaria coordenadora de um projeto  de comunicação? Pois é. Nem mesmo eu acreditava.

 Sempre fui uma aluna assim. Sequer tirava dúvidas com o professor. Porém, tudo mudou a partir de um texto. Com a proposta de contos do Currículo da Cidade no final do meu ciclo interdisciplinar, participei de uma coletânea entre as turmas, o que me fez descobrir o deleite pela escrita. No mesmo ano, após anos, foi reaberta a Academia Estudantil de Letras Arnaldo Antunes. Lembro-me como se fosse ontem da professora indo até a minha sala anunciar o projeto pelo qual, a princípio, poucas pessoas apresentaram interesse. Todavia, esse foi meu primeiro ingresso nas ações acadêmicas da escola.


 Ao longo do tempo, comecei a participar dos Mediadores de Leitura. Todas essas iniciativas me fizeram sentir cada vez mais o desejo de me instruir.

 O convite para entrar no projeto Imprensa Jovem foi um tanto curioso. Uma estudante veio tão somente perguntar se eu gostaria de participar e, acostumada a me integrar em tantos programas, aceitei. Mal sabia eu que havia tomado uma decisão que mudaria minha vida.

Éramos uma pequena equipe com grandes sonhos. Não foi difícil adaptar-me às demandas de uma imprensa, visto que já aprendera criação de conteúdo audiovisual e escrita de notícias. Não muito tempo depois, tornei-me aluna coordenadora. Desde então, passei a trilhar caminhos que me proporcionaram oportunidades inimagináveis, levando-me a conhecer pessoas incríveis e lugares únicos.

Durante o período em que fui coordenadora, dediquei meus saberes e acolhi pessoas que também me acolheram. Nosso primeiro documento desenvolvido foi chamado de Documento Particular de Organização (DPO), onde se encontrava a organização do nosso projeto dentro da escola, servindo de guia para os jovens repórteres. Em dois anos consecutivos, tive o prazer de falar sobre comunicação e educomunicação com ênfase em Imprensa Jovem em um intercâmbio entre grêmios estudantis, organizado pelo Grêmio Marielle Franco. 

Na primeira oportunidade, reencontrei um professor que me dera aula anteriormente e, juntos, buscamos desenvolver o projeto em sua escola. No meu último ano, produzi um curso sobre edição de vídeo e notícia para que a equipe estivesse preparada para atuar na escola.

 Ainda posso dizer que isso é apenas uma parte de tudo que vivenciamos. Cada encontro, cada aprendizado e cada entrevista podem narrar um pouco da história. Olhando para trás, era muito difícil imaginar que alguém tão tímida como eu pudesse se encontrar num projeto de jornalismo, mas o Imprensa Jovem foi capaz de sanar meu retraimento e alegro-me muito por isso. Hoje vejo que meu esforço e minha dedicação trouxeram grandes resultados. 

A comunicação foi fundamental para eu me entender, me construir e encontrar espaço para minha própria voz. Certamente, o Imprensa Jovem tem o poder de mudar vidas — e a minha trajetória é uma prova disso.

Por: Kemilly Vitória Reyes de Almeida - Cursando o 1° ano do ensino médio da PEI Professora Luciane do Espírito Santo.

Imagens : Acervo pessoal da estudante 



sábado, 29 de março de 2025

Quando o Rio Levou Tudo - Uma História Oral a partir de um desastre ambiental



Era uma noite chuvosa em 1982, depois de um dia ensolarado em que passei a tarde com meu tio, soltando pipa e visitando uma represa perto da casa da minha avó. Voltamos ao entardecer para tomar banho, jantar e descansar.

Minha avó morava em um cortiço coletivo na Vila Jacuí, onde cinco casas dividiam o mesmo quintal. Atrás da parede dos quartos passava o Rio Jacu, um curso d’água sinuoso que vinha de São Mateus e seguia até desaguar no Tietê. A Vila Jacuí naquela época ainda tinha um ar bucólico, com sítios, áreas de mata, ruas de terra e casas simples. A viela onde ficava a casa da minha avó tinha acesso à Avenida Laranja da China e contava com cerca de dez residências, muitas delas também cortiços como o nosso.

As construções eram modestas, sem laje, erguidas com tijolos vindos das olarias da Vila União, região conhecida como Pantanal. O nome vinha das lagoas e do terreno alagadiço próximo ao Tietê. O Rio Jacu, que cortava nosso bairro, era mais um córrego do que um rio caudaloso, e eu costumava atravessá-lo a pé nas brincadeiras de infância.

Naquela noite, o céu se fechou de repente e a tempestade desabou. Minha avó havia acabado de chegar do trabalho no apartamento de um empresário norueguês no Centro da cidade. Sempre trazia alguma coisa gostosa que o patrão deixava levar. Eu adorava visitar minha avó. Gostava de soltar pipa, brincar na rua e dar "tibum" na represa nos dias de calor.

Quando a chuva começou a engrossar, minha avó e meu tio espalharam bacias e panelas pelos cômodos para aparar os pingos que caíam do telhado. Casas antigas sempre tinham goteiras, e o madeiramento, desgastado pelo tempo, fazia com que as telhas se deslocassem. Logo, todos adormeceram ao som da chuva.

O sono pesado de todos impediu que percebêssemos a tragédia iminente. Enquanto dormíamos, o rio avançava com força contra a parede do quarto. De repente, um estrondo. A parede desmoronou, e a água invadiu tudo. Só percebi o que estava acontecendo quando senti o colchão encharcado. Acordei assustado, confuso, vendo um rio nervoso diante dos meus olhos. Por um instante, achei que era um pesadelo. Mas era real.

Minha avó e meu tio gritavam desesperados:
— Carlinhos! Sai rápido!

Corremos para a frente da casa e ficamos ilhados, até que vizinhos conseguiram nos resgatar. Foi por pouco. Minutos depois, vimos toda a casa ser levada pela correnteza. Perdemos tudo, mas saímos vivos. Com o amanhecer e o recuo das águas, o cenário era desolador. Toda a pequena vila de moradores havia sido destruída pela enchente. Minha avó, embora triste pela perda de tudo, agradeceu a Deus por ninguém da família ter morrido.

Jornal Mural criado pelos professores no curso Educomunicação Socioambiental


Anos depois, já morando em outra parte da Vila Jacuí, mais alta e aparentemente mais segura, uma grande obra foi realizada para ligar o ABC a São Paulo: a Estrada Jacu Pêssego. A construção da via transformou a paisagem, retificando o curso do Rio Jacu e melhorando a mobilidade urbana. Quando foi finalmente interligada à Rodovia dos Imigrantes, tornou-se um importante eixo de escoamento da produção para Guarulhos e o Porto de Santos. A canalização do rio ajudou a revitalizar os bairros cortados pela estrada.

Mas o progresso trouxe suas contradições. Com o crescimento urbano, as ruas foram asfaltadas, os quintais cimentados, e a "esponja natural" da região — antes formada por plantações e lagoas — perdeu sua função. A sinuosidade do rio, que antes ajudava a desacelerar a água, deu lugar a um canal reto, aumentando a força das correntezas e agravando os riscos de enchentes.

Minha avó participou de um movimento de luta por moradia e conseguiu um terreno exatamente do outro lado do rio, perto do local onde quase sofremos a tragédia anos antes. Quase vinte anos depois, uma nova tempestade atingiu a região. O Rio Jacu, com sua capacidade reduzida, não suportou o volume de água, e a Avenida Jacu Pêssego ficou completamente alagada. Como morávamos no final da avenida, fomos novamente atingidos. Mais uma vez, minha avó perdeu tudo.

As enchentes continuaram. No ano passado, outro grande alagamento atingiu moradores que vivem a 500 metros da avenida. A água subiu um metro e meio dentro das casas, deixando dezenas de famílias desabrigadas.

O que essa história nos ensina? Que o poder público ainda falha em pensar em todas as nuances do impacto de grandes projetos. O histórico da canalização do Rio Tamanduateí é um exemplo disso: a obra criou uma alternativa de mobilidade, mas, até hoje, a população sofre com enchentes. O progresso não pode ser apenas concreto e asfalto. Ele precisa considerar a vida das pessoas e o equilíbrio ambiental. Afinal, de que vale uma cidade moderna se ela continua alagada toda vez que chove?

Professoras produzem o Jornal Mural a partir da minha História Oral

Rachel Trajber realiza aula para professores da Rede Municipal de Ensino de SP

Esta crônica foi inspirada na atividade promovida pelos pesquisadores da CEMADEN Rachel Trajber e Felipe Santos,  no curso Educomunicação Socioambiental: Precisamos falar de emergência climática na escola. Durante a atividade, criamos um roteiro para entender o problema que vivi e realizamos uma entrevista onde pude contar minha história. O grupo produziu um jornal mural para ilustrar a situação que enfrentei.

Carlos Lima, Rachel Trajber e Felipe Santos Educomunicação e CEMADEN juntos

Essa é uma estratégia chamada História Oral, que consiste no relato de uma pessoa que sofreu um desastre ambiental. Esse relato pode se transformar em minidocumentário, podcast, jornal mural, texto para blog ou até mesmo uma história em quadrinhos. A proposta é utilizar a educomunicação para socializar as histórias das pessoas da comunidade e suas experiências de vida. Essas narrativas criam conexões emotivas e fazem as pessoas refletirem sobre os problemas ambientais e sociais que enfrentamos.

Por Carlos Lima - Professor e Educomunicador 

Imagem: Reprodução Wikipedia

Conheça mais sobre História Oral acesse

Baixe a publicação Educação em clima de risco de desastres - Programa  CEMADEN EDUCAÇÃO

Acesse



Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...