Ao completar 20 anos de Educomunicação na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, estávamos saindo de um dos períodos mais desafiadores da história recente: a pandemia de coronavírus. Ainda vivíamos uma transição cautelosa para o retorno ao convívio presencial e interativo, seguindo protocolos e acreditando na ciência, sem espaço para o negacionismo. Mesmo diante das incertezas, decidimos não parar. Seguimos em frente, reafirmando a Educomunicação como prática de resistência, expressão e reconstrução.
Foi nesse contexto que realizamos o EducomSP 2021, durante a Global MIL Week (Semana Global de Alfabetização Midiática e Informacional). Durante uma semana, promovemos dez encontros online reunindo nosso time de formadores, professores, estudantes e ex-estudantes para dialogar sobre linguagens, metodologias e projetos capazes de expandir a jornada escolar e enriquecer as aulas. Tratou-se de um esforço coletivo para traçar os caminhos de uma Educomunicação possível e necessária no cotidiano das escolas.
A inspiração para essa iniciativa veio do EducomSP presencial de 2017, realizado na DRE Capela do Socorro no formato TEDx. Naquele evento, estudantes e professores apresentaram seus projetos e participaram de talkshows mediados por jovens educomunicadores. Um modelo potente de escuta ativa, protagonismo e troca de saberes que plantou a semente para o que viria a ser o EducomSP 2021.
Agora, em 2025, celebramos os 20 anos do Programa Imprensa Jovem. E o nosso desejo é fazer dessa comemoração um momento ainda mais coletivo, potente e conectado. Surge então o Festival Imprensa Jovem Digital, um novo formato do EducomSP — com ainda mais protagonismo estudantil e diálogo com o Brasil e o mundo.
A proposta do festival é celebrar a Educomunicação como política pública e movimento vivo nas escolas. Vamos ampliar as vozes dos estudantes e destacar o papel transformador de suas produções midiáticas. Dentro do festival, queremos também valorizar o movimento #EstudanteEmVoz, que foi essencial para a construção do Currículo da Cidade e agora retorna com força para promover reflexões sobre o presente e o futuro da escola.
Confira a playlist com os encontros do EducomSP 2021:
A obra Retirantes (1944), de Candido Portinari, nos confronta com a dor da desigualdade e do abandono, retratando famílias que fogem da seca e da miséria em busca de sobrevivência. Aquela imagem de corpos magros, olhos fundos e pés calejados fala diretamente ao tema das emergências climáticas de hoje. Assim como os retirantes do passado, milhões de pessoas nas periferias urbanas e zonas rurais do Brasil continuam sendo as mais atingidas pelas mudanças no clima. São os que menos contribuem para a degradação ambiental, mas que mais sofrem com enchentes, secas e ondas de calor. Portinari pintou a realidade de seu tempo, mas sua obra segue atual — pois a injustiça climática é, antes de tudo, uma injustiça social. Educar para a emergência climática é, portanto, também educar para a justiça e para o cuidado com os que, historicamente, têm sido deixados para trás.
Apesar de enfrentarmos diariamente os efeitos das mudanças no clima, 9% da população brasileira ainda não acredita na existência das mudanças climáticas — muito menos na emergência climática que vivemos. É um dado alarmante, revelado por pesquisa do Datafolha. Em 2024, esse índice era de 5%, o que mostra um crescimento preocupante da desinformação ou da negação desse fenômeno. Acesse
Lembro-me de quando era criança e as estações do ano seguiam seu curso natural. Verão, outono, inverno e primavera vinham em sua ordem, com clima e características bem definidas. Preparávamo-nos para cada uma delas. Hoje, tudo parece fora de lugar. Assim como os animais, as estações também estão em extinção. A desorganização climática é evidente, mas não para todos.
Por que tanta gente não vê o óbvio? Muitas vezes, essa negação é alimentada por discursos ideológicos que classificam o debate climático como “coisa de comunista” ou pauta “progressista”. Triste é perceber que essas ideias ganham força justamente entre aqueles que mais sofrem com as consequências do desequilíbrio climático: as populações periféricas, as regiões vulneráveis, os pobres. Para alguns, tudo isso pode parecer castigo divino. Afinal, dizem que o apocalipse virá com fogo, já que o primeiro foi com água — o dilúvio.
Mas o problema é real e visível. A ciência mostra isso com dados, estudos, alertas. O mundo, criado com perfeição, não está sendo destruído por Deus, mas pelas ações humanas. Está nas mãos da humanidade reverter esse quadro — ou agravá-lo. E aqui entra um ponto essencial: precisamos educar para a compreensão da emergência climática. Trata-se de um desafio cultural, não apenas ambiental.
Os adolescentes podem — e devem — estar na linha de frente desse processo. Eles têm capacidade de análise, criatividade e vontade de transformar a realidade. Contudo, nem sempre são levados a sério, nem mesmo por adultos conscientes da crise ambiental. E se perguntássemos aos jovens sobre mudanças climáticas? Será que o índice de negação seria o mesmo entre eles? Quantos adolescentes de 12 a 18 anos vivem no Brasil? Quantos estão na escola? Quantos votam? Talvez estivéssemos diante de outro cenário de entendimento.
Projeto Juntos pelo Clima - Apresentado no curso Esudante Mediador dos ODS
Preparar essa nova geração para lidar com o presente e pensar o futuro é missão da escola. E temos ferramentas para isso. Um exemplo é o projeto Estudante Mediador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), desenvolvido pela UNESCO em parceria com o Programa Imprensa Jovem, que formou grupos de adolescentes em cerca de 300 escolas entre 2020 e 2024 para criarem ações de intervenção social em suas comunidades.
Já em seu primeiro ano, o projeto foi reconhecido mundialmente com o prêmio da Aliança Global para Mídia e Informação da UNESCO, durante a pandemia da Covid-19. Hoje, o foco é mobilizar os estudantes para atuar na mitigação das emergências climáticas.
O curso Imprensa Jovem – Estudante Mediador dos ODS, promovido pelo Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, contempla várias ações que valorizam a voz e as ideias dos estudantes:
Cápsula do Futuro: campanha audiovisual para redes sociais, produzida por estudantes das agências de notícias escolares;
Conexão Estudante Mediador dos ODS: superaulão com participação de 400 estudantes, especialistas e organizações no CEU;
Cursos para professores: como “Educomunicação Socioambiental – Precisamos conversar sobre as emergências climáticas”;
Programa “Imprensa Jovem no Ar”: veiculado na TV Cultura, com produção estudantil sobre o ODS 13;
Podcast “PodConversar”: com temas como hortas e sustentabilidade, em diálogo com especialistas;
COM-VIDA: encontros de gremistas e educomunicadores para debater ações climáticas nas escolas.
Comissão do Futuro: encontro que promove a troca de propostas desenvolvido pela EMEF Paulo Duarte. Projeto foi apresentado no Summit of Future em Nova Iorque em 2024
Agência de notícias do Clima: Produção de conteúdos pelos estudantes por meio de reportagens sobre problemas relacioanado as emergências climáticas no território. O projeto é desenvolvido pela EMEFM Rubens Paiva
É papel da escola — e da educação como um todo — criar espaços reais de escuta, diálogo e ação para crianças e adolescentes. A Educomunicação mostra que é possível construir um movimento potente e transformador, como foi o caso do projeto #estudantemvoz, que envolveu estudantes na construção do Currículo da Cidade de São Paulo.
Se queremos um futuro melhor, precisamos confiar, formar e dialogar com quem vai estar à frente dele. E já estão prontos para isso.
A força das vozes dos estudantes não pode ser ignorada em uma escola pública de qualidade. Foi com essa convicção que o secretário Alexandre Schneider me confiou uma missão: desenvolver uma estratégia para ouvir os estudantes sobre o que eles pensam sobre educação. O que seria uma educação ideal para eles? O que a escola deveria oferecer? Como eles deveriam se comportar em uma "escola dos sonhos"? Assim nasceu o "Estudant4e Tem Voz", um marco na participação dos estudantes na educação e um exemplo de educomunicação em ação, com o apoio das equipes do Imprensa Jovem da cidade.
A essência do projeto, "jovens ouvindo jovens", está no DNA dos processos educomunicativos, promovendo a participação e o protagonismo dos estudantes na criação de novas visões de mundo. O primeiro desafio foi definir as perguntas a serem feitas aos estudantes. O Núcleo de Currículo sugeriu algumas questões, mas se a missão era realmente ouvir a opinião dos estudantes, era crucial que as perguntas e respostas partissem deles.
Estratégia de escuta dos estudantes para criação da pesquisa #Estudantemvoz
Organizamos três formas de escuta: oficinas de criação de conteúdos, coletivas de imprensa entre jovens e educadores, e encontros "Estudante Tem Voz". Visitamos 32 escolas em toda a cidade, levantando diversas preocupações dos estudantes. Em seguida, formamos um grupo de jovens de diferentes agências de notícias do Imprensa Jovem para definir os assuntos mais relevantes. Após uma oficina de criação de perguntas – uma prática comum na formação do Imprensa Jovem – as questões foram elaboradas pelos próprios jovens.
Coletiva Imprensa Jovem com Secretário Alexandre Schineider
Outra ideia inovadora surgiu dos estudantes: por que não usar o aplicativo do Imprensa Jovem para facilitar a participação dos estudantes nas escolas? O aplicativo, criado para apoiar os jovens repórteres na cobertura de eventos, se mostrou uma ferramenta prática para alcançar os estudantes do Ensino Fundamental. Com o apoio dos estudantes do Imprensa Jovem, a pesquisa ganhou escala. Nos Laboratórios de Informática, os estudantes, junto com seus professores (POIE), lideraram o processo de escuta.
Pesquisa Imprensa Jovem Estudante tem Voz
A participação dos estudantes começou tímida, mas com o apoio do secretário, o movimento cresceu. Ao final, 43.655 estudantes responderam ao questionário (matéria Folha de São Paulo), tornando-se a maior pesquisa de educação já realizada no Brasil. As informações coletadas foram fundamentais para a construção da matriz de saberes do Currículo da Cidade de São Paulo. A iniciativa se consolidou como o Movimento Estudante Tem Voz, e alguns de seus métodos de escuta apoiaram também a construção do Currículo da Educação de Jovens e Adultos e do Ensino Médio.
Carlos Lima - Explica como foi a organização da pesquisa Estudante Tem Voz
O "Estudante Tem Voz" tem uma razão de ser: não podemos dar voz a quem já a tem. Precisamos criar e potencializar espaços onde essas vozes, ideias e desejos sejam acolhidos e ouvidos.