sábado, 15 de agosto de 2026

Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

 


Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, provocadora: aprender uma língua é uma trajetória. Começamos descobrindo, experimentando, ampliando o vocabulário, desenvolvendo autonomia e, pouco a pouco, tornando-nos capazes de compreender, produzir e interagir em situações cada vez mais complexas.

Naquele momento, uma pergunta me veio à cabeça:

E se pensássemos a Educomunicação da mesma maneira?

Não para transformar a Educomunicação em uma disciplina com provas e certificados, nem para criar uma escala rígida de “bons” e “maus” comunicadores. Mas para reconhecer que também desenvolvemos, ao longo da vida escolar, diferentes competências educomunicativas.

Uma criança pequena já é comunicadora. Antes mesmo de saber escrever, ela conta histórias, faz perguntas, desenha, brinca, fotografa, canta, gesticula, inventa personagens e interpreta o mundo ao seu redor.

Ela já está produzindo comunicação.

Talvez o nosso papel seja ajudá-la a perceber que essa capacidade pode crescer.

Na alfabetização, podemos trabalhar a descoberta: aprender a expressar ideias, ouvir o outro, reconhecer diferentes linguagens e perceber que uma imagem, uma história, uma música ou uma notícia também comunicam.

Nos anos seguintes, vem a exploração. A criança experimenta fotografia, áudio, vídeo, entrevista, desenho, texto e outras formas de narrativa. Aprende que comunicar não é simplesmente falar: é pensar no que queremos dizer, para quem estamos falando e como queremos ser compreendidos.

Depois chega a produção e a autoria.

O estudante começa a planejar uma pauta, pesquisar, entrevistar, produzir um podcast, uma reportagem, um vídeo ou uma campanha. Descobre que produzir comunicação envolve escolhas, responsabilidades e intencionalidade.

Mas há um momento decisivo nessa trajetória: quando o estudante deixa de perguntar apenas “como produzir?” e começa a perguntar:

“Posso confiar nessa informação?”

É aí que entra a leitura crítica da mídia.

Comparar fontes, identificar desinformação, perceber diferentes pontos de vista, compreender interesses, reconhecer estratégias de persuasão e questionar aquilo que circula nas redes tornam-se competências fundamentais.

E chegamos à adolescência.

Nesse momento, a Educomunicação pode avançar da produção para o protagonismo.

O estudante olha para sua escola, seu bairro, sua cidade e identifica questões que merecem ser comunicadas. Investiga, entrevista, coleta informações, produz narrativas e utiliza a comunicação para dialogar com a comunidade.

A pergunta muda novamente:

“O que posso fazer com a comunicação para transformar a realidade?”

Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma progressão de competências educomunicativas.

Não se trata de saber usar mais ferramentas. Trata-se de desenvolver maior capacidade de expressão, autoria, pensamento crítico, participação, colaboração, ética e transformação social.

E, em tempos de inteligência artificial, surge uma nova camada nessa conversa.

Não basta saber utilizar a IA. Precisamos formar estudantes capazes de perguntar como ela funciona, de onde vêm as informações, quais são seus limites, seus impactos e quais decisões continuam sendo responsabilidade humana.

Por isso, talvez possamos imaginar uma trajetória:

Descobrir → Explorar → Produzir → Analisar → Protagonizar → Transformar.

Não seriam exatamente B1, B2, C1 ou C2.

Seriam níveis de desenvolvimento de uma competência que começa muito cedo e pode acompanhar toda a vida.

E aqui está a grande provocação:

Se ensinamos uma criança a ler, escrever, interpretar o mundo e aprender diferentes linguagens, por que não ajudá-la também a compreender e transformar o ecossistema de comunicação no qual ela vive?

Talvez uma Matriz de Competências Educomunicativas, da alfabetização ao 9º ano, possa ser um caminho.

Uma matriz que não pergunte apenas “o que o estudante sabe?”, mas também:

O que ele consegue comunicar?
O que consegue criar?
O que consegue questionar?
Em que consegue participar?
E, principalmente, o que consegue transformar?

No fundo, talvez a grande proficiência educomunicativa seja essa:

aprender a usar a comunicação não apenas para falar sobre o mundo, mas para participar da construção do mundo que queremos.

Por : Carlos Lima - Peofessor Educomunicador

Imagem : Roda Viva do Estudante  

Um comentário:

  1. Eu acredito plenamente que a Educomunicação faz parte da nossa vida, e ela precisa ser provocada ao longo da vida, para se tornar uma habilidade única, ou melhor para aflorar

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