Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, provocadora: aprender uma língua é uma trajetória. Começamos descobrindo, experimentando, ampliando o vocabulário, desenvolvendo autonomia e, pouco a pouco, tornando-nos capazes de compreender, produzir e interagir em situações cada vez mais complexas.
Naquele momento, uma pergunta me veio à cabeça:
E se pensássemos a Educomunicação da mesma maneira?
Não para transformar a Educomunicação em uma disciplina com provas e certificados, nem para criar uma escala rígida de “bons” e “maus” comunicadores. Mas para reconhecer que também desenvolvemos, ao longo da vida escolar, diferentes competências educomunicativas.
Uma criança pequena já é comunicadora. Antes mesmo de saber escrever, ela conta histórias, faz perguntas, desenha, brinca, fotografa, canta, gesticula, inventa personagens e interpreta o mundo ao seu redor.
Ela já está produzindo comunicação.
Talvez o nosso papel seja ajudá-la a perceber que essa capacidade pode crescer.
Na alfabetização, podemos trabalhar a descoberta: aprender a expressar ideias, ouvir o outro, reconhecer diferentes linguagens e perceber que uma imagem, uma história, uma música ou uma notícia também comunicam.
Nos anos seguintes, vem a exploração. A criança experimenta fotografia, áudio, vídeo, entrevista, desenho, texto e outras formas de narrativa. Aprende que comunicar não é simplesmente falar: é pensar no que queremos dizer, para quem estamos falando e como queremos ser compreendidos.
Depois chega a produção e a autoria.
O estudante começa a planejar uma pauta, pesquisar, entrevistar, produzir um podcast, uma reportagem, um vídeo ou uma campanha. Descobre que produzir comunicação envolve escolhas, responsabilidades e intencionalidade.
Mas há um momento decisivo nessa trajetória: quando o estudante deixa de perguntar apenas “como produzir?” e começa a perguntar:
“Posso confiar nessa informação?”
É aí que entra a leitura crítica da mídia.
Comparar fontes, identificar desinformação, perceber diferentes pontos de vista, compreender interesses, reconhecer estratégias de persuasão e questionar aquilo que circula nas redes tornam-se competências fundamentais.
E chegamos à adolescência.
Nesse momento, a Educomunicação pode avançar da produção para o protagonismo.
O estudante olha para sua escola, seu bairro, sua cidade e identifica questões que merecem ser comunicadas. Investiga, entrevista, coleta informações, produz narrativas e utiliza a comunicação para dialogar com a comunidade.
A pergunta muda novamente:
“O que posso fazer com a comunicação para transformar a realidade?”
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma progressão de competências educomunicativas.
Não se trata de saber usar mais ferramentas. Trata-se de desenvolver maior capacidade de expressão, autoria, pensamento crítico, participação, colaboração, ética e transformação social.
E, em tempos de inteligência artificial, surge uma nova camada nessa conversa.
Não basta saber utilizar a IA. Precisamos formar estudantes capazes de perguntar como ela funciona, de onde vêm as informações, quais são seus limites, seus impactos e quais decisões continuam sendo responsabilidade humana.
Por isso, talvez possamos imaginar uma trajetória:
Descobrir → Explorar → Produzir → Analisar → Protagonizar → Transformar.
Não seriam exatamente B1, B2, C1 ou C2.
Seriam níveis de desenvolvimento de uma competência que começa muito cedo e pode acompanhar toda a vida.
E aqui está a grande provocação:
Se ensinamos uma criança a ler, escrever, interpretar o mundo e aprender diferentes linguagens, por que não ajudá-la também a compreender e transformar o ecossistema de comunicação no qual ela vive?
Talvez uma Matriz de Competências Educomunicativas, da alfabetização ao 9º ano, possa ser um caminho.
Uma matriz que não pergunte apenas “o que o estudante sabe?”, mas também:
O que ele consegue comunicar?
O que consegue criar?
O que consegue questionar?
Em que consegue participar?
E, principalmente, o que consegue transformar?
No fundo, talvez a grande proficiência educomunicativa seja essa:
aprender a usar a comunicação não apenas para falar sobre o mundo, mas para participar da construção do mundo que queremos.
Por : Carlos Lima - Peofessor Educomunicador
Imagem : Roda Viva do Estudante

Eu acredito plenamente que a Educomunicação faz parte da nossa vida, e ela precisa ser provocada ao longo da vida, para se tornar uma habilidade única, ou melhor para aflorar
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