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domingo, 10 de maio de 2026

Em 1989 já era Educomunicador e não sabia


Em 1989, pisei pela primeira vez na sede da Grupo Bandeirantes de Comunicação. Era justamente o dia do histórico debate presidencial entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali para fazer minha estreia voluntária em um programa voltado às jovens lideranças evangélicas. O programa falava de Cultura de Paz, música e histórias de vida — e foi exatamente pelas histórias que comecei minha trajetória na comunicação.

Naquele tempo, eu caminhava pelo centro de São Paulo carregando um gravador Panasonic e fitas BASF, reutilizadas inúmeras vezes para registrar vozes, relatos e memórias de pessoas em situação de rua. Gostava de ouvir histórias. Mais do que entrevistar, queria compreender as dores, os sonhos e as marcas que cada pessoa carregava.

Naquele dia, antes de seguir para a emissora, encontrei um senhor acompanhado de um cachorro vira-lata. Ele me pediu algo para comer. Entreguei o alimento que tinha nas mãos e começamos a conversar. Era um homem extremamente culto. Trazia consigo um livro grosso, embora eu não me lembre mais do título. Enquanto se alimentava, contou sua trajetória: vinha de uma família rica, tinha uma profissão respeitada, mas, após perder a esposa, mergulhou no alcoolismo e acabou abandonado pelos próprios filhos. Perguntei se poderia gravar sua fala. Ele aceitou.

Fiquei profundamente tocado por aquele relato.

Cheguei então à Bandeirantes e encontrei a emissora tomada por seguranças e movimentação intensa por conta do debate político. Caminhei pelos corredores impressionado com aquele universo da comunicação. Tudo parecia grandioso. Em determinado momento, vi saindo de um estúdio da rádio FM um DJ que eu admirava muito na época. Aquilo me marcou.

Quando finalmente cheguei ao estúdio da rádio AM, o programa já estava no ar. O locutor — um pastor moderno, comunicativo e cheio de energia — me apresentou para falar sobre o trabalho que realizávamos com os jovens da igreja. Desenvolvíamos ações de evangelização, escuta, acolhimento e diálogo com jovens em situação de risco, além de visitas a idosos internados, atividades culturais e momentos de estudo coletivo.



Chamávamos aquele movimento de “Força Jovem”. Não sei se o nome permaneceu por influência direta daquela experiência ou se tomou outros caminhos ao longo do tempo, mas o fato é que o movimento cresceu e segue potente até hoje.

Durante a entrevista, contei sobre o encontro que havia tido horas antes com aquele homem em situação de rua. A gravação foi colocada no ar. O estúdio silenciou. Muitos se emocionaram. Ao final do programa, recebi a missão de produzir novas entrevistas para a rádio.

Sem perceber, ali começava minha trajetória educomunicativa.

Passados mais de 35 anos, retorno à Grupo Bandeirantes de Comunicação. Desta vez, levado por um projeto nascido da escuta de jovens na educação pública. Tudo começou quando uma diretora me ouviu falar sobre Educomunicação em uma reunião da Ashoka. Ao final do encontro, pediu meu telefone e marcamos uma conversa.


Fui à emissora acompanhado do amigo Rogério Gonçalves. Fomos muito bem recebidos. Tivemos uma longa e inspiradora conversa sobre projetos, juventudes, educação e possibilidades de parceria. Depois, percorremos os corredores, estúdios e espaços da emissora.

Enquanto caminhava, veio um forte flashback.

Percebi que estava novamente no mesmo lugar onde tudo havia começado: os corredores das rádios. O espaço onde, décadas antes, um jovem com um gravador na mão descobria que comunicar também era escutar. E que a escuta, quando genuína, pode transformar vidas — inclusive a nossa própria.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 





quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O Papel e as Ações do Professor Educomunicador nas Escolas

 


A figura do professor educomunicador tem ganhado cada vez mais relevância na educação contemporânea, especialmente em um mundo permeado pelas mídias digitais e pela necessidade de uma educação midiática crítica. Este profissional desempenha um papel essencial ao mediar a relação entre os estudantes e as diversas linguagens midiáticas, promovendo a criação coletiva, a alfabetização midiática e a valorização do protagonismo juvenil.

Com mais de 20 anos de experiência na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, minha trajetória como professor educomunicador começou com projetos pioneiros, como Rádio Escolar e Agência de Notícias Imprensa Jovem. Durante esse período, construí uma prática que trouxe para o Núcleo Educomunicação da SME de São Paulo. Mas afinal, o que significa ser um professor educomunicador?

Quem é o Professor Educomunicador?

O professor educomunicador é mais que um educador tradicional: ele é um mediador, um facilitador e um projetista. Sua atuação vai além da sala de aula convencional, englobando a criação de espaços colaborativos onde os estudantes se tornam coautores do processo de aprendizagem, por meio da produção midiática.

Embora não seja necessário ser formado em comunicação, o professor educomunicador deve compreender os processos comunicacionais e saber articular as diversas linguagens midiáticas. Ele escuta ativamente os estudantes, dialoga e orienta para que as produções reflitam a identidade e os interesses do público-alvo, promovendo uma comunicação de jovem para jovem.

Quais as Ações do Professor Educomunicador?

  1. Mediação e Empatia
    A principal ação do professor educomunicador é a mediação. Ele ouve, questiona e compartilha informações, criando um ambiente dialógico e horizontal com os estudantes. Essa postura empática facilita a construção conjunta de projetos e fortalece as relações interpessoais.

  2. Facilitador de Projetos
    Além de conduzir os projetos em sala de aula, o professor educomunicador atua como representante do projeto na escola, articulando com a gestão escolar, outros professores e instâncias participativas, como Grêmios, APM e Conselhos Escolares. Ele também organiza e acompanha as atividades externas relacionadas ao projeto.

  3. Formação Contínua
    Para garantir o sucesso das iniciativas educomunicativas, o professor precisa participar de formações contínuas, acessar materiais didáticos específicos e integrar grupos de trabalho. Essa formação não apenas amplia sua expertise, mas também possibilita a troca de experiências e o aprimoramento das práticas.

  4. Criação de Projetos Pedagógicos
    O professor educomunicador é um projetista, desenvolvendo ações pedagógicas fundamentadas na pedagogia de projetos. Cada atividade é planejada para engajar os estudantes e produzir conteúdos que dialoguem com suas realidades e interesses.

  5. Educação Midiática e Combate à Desinformação
    Um dos papéis mais relevantes desse profissional é promover a educação midiática na escola, ajudando a combater a desinformação e a formar uma comunidade escolar crítica e consciente em relação ao consumo e à produção de informações.

Por que o Professor Educomunicador é Essencial?

O professor educomunicador é indispensável para fortalecer a alfabetização midiática nas escolas, especialmente em um cenário onde as fake news e o uso inadequado das mídias digitais são desafios constantes. Ele é o elo entre a escola e a comunicação contemporânea, promovendo práticas pedagógicas inovadoras que empoderam os estudantes e contribuem para a construção de uma sociedade mais crítica e informada.


Qualquer professor pode se tornar um educomunicador, independentemente da sua área de atuação. O fundamental é estar disposto a aprender, mediar e criar, tendo como base a pedagogia de projetos e o compromisso com uma educação mais participativa e dialógica. A Educomunicação não é apenas uma metodologia, mas uma filosofia que transforma a escola em um espaço de produção, escuta e expressão cidadã.

Por Carlos Lima - Educomunicador e Professor

Imagem : Acervo pessoal - Formação de professores da DRE Guaianases


Para saber mais sobre Educomunicação

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Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...