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domingo, 5 de abril de 2026

Quando a escola erra — segregrar em salas não resolveu o problema

 


Uma ideia, no mínimo questionável, foi apresentada em uma reunião de conselho no final de ano. Diante dos problemas de indisciplina, baixa aprendizagem e faltas excessivas, decidiu-se criar turmas específicas nos 1º e 3º anos do Ensino Médio com estudantes que apresentavam esses desafios.

Na prática, a decisão concentrou o problema: duas salas passaram a carregar, quase que exclusivamente, esses estudantes — o 1ºF no período da manhã e o 3ºG no noturno.

Como professor recém-chegado, fiquei com essas turmas.

Era 1998, naquele tempo, ainda não se discutia com a força de hoje a educação inclusiva. Minhas aulas de Português pela manhã e de Inglês à noite eram bem diferentes dos colegas que, digamos, tinham mais “sorte” na escolha das turmas. Mas isso eu conto mais adiante.

As salas eram verdadeiros barris de pólvora, prestes a explodir. Havia muitos estudantes com atitudes violentas. Parecia cena de filme sobre escolas em crise: pouco interesse em aprender.

Entre eles, também havia jovens em Liberdade Assistida — curiosamente, alguns dos mais tranquilos, justamente por não querer mais problemas.

Em duas ocasiões, estudantes de ambas salas, incendiaram o lixo da sala. Em outra, destruíram o banheiro da escola. Como resposta, a gestão decidiu isolar essas turmas no final do corredor, reforçando ainda mais a lógica da segregação.

Os professores que passavam por essas salas saíam exaustos, emocionalmente abalados, muitas vezes revoltados. Os demais colegas observavam, tentavam ser solidários, mas sem saber exatamente o que fazer.

Para quem estava começando, como eu, restava ser criativo.

Sem histórico de convivência com os estudantes, eu era visto com desconfiança. Não havia vínculo, não havia respeito. Foi então que pensei: talvez eu precise sair do lugar de conforto. Brinquei comigo mesmo: “vou ser um louco entre loucos — talvez assim haja algum reconhecimento”.

E arrisquei.

No 3ºG, entrei na sala e comecei a falar apenas em inglês. Sem parar. No início, vieram as risadas e deboche. Mas como eu não interrompi, algo mudou: quebrei o padrão. Desestabilizei o jogo de poder que eles já dominavam na sala.

Aos poucos, começaram a prestar atenção.

Até que um estudante, lá do fundo — conhecido por seu envolvimento com o tráfico e temido pelos colegas — gritou:

E aí, teacher, o que está escrito na minha camiseta?

Olhei para ele e respondi com calma:

— Você quer mesmo saber? Posso ir até aí e te contar.

Fui até ele e falei, em voz baixa, apenas para ele. Não era uma frase bacana. Era uma tradução de algo que ele nem esperava.

Ele ficou constrangido.

Mas, a partir dali, algo mudou. Criou-se uma relação de respeito. E, surpreendentemente, ele passou a ajudar a manter a ordem nas aulas.

As aulas começaram a fluir.

Mas eu sabia: aquilo não era uma solução estrutural. Foi uma combinação de ousadia, contexto e acaso.

Já no 1ºF, vivi minha primeira experiência como professor de Português. Minha formação era em Inglês, mas a necessidade falou mais alto. Foi ali que recorri ao que eu já dominava: a comunicação.

Decidi integrar linguagens.

O 1ºF era uma constelação de desafios. Sala cheia, estudantes com histórico de fracasso escolar, muitos aprovados automaticamente por conselho de classe, carregando defasagens significativas.

Mas também havia talento.

Comecei o ano apresentando a proposta:

  • 1º bimestre: Teatro

  • 2º bimestre: Poesia

  • 3º bimestre: Rádio escolar

  • 4º bimestre: “A gente decide”

Escrevi tudo na lousa e perguntei:

— Alguém quer comentar?

Um estudante, considerado “problemático”, mas extremamente inteligente, respondeu:

— Gostei do teatro e da poesia… já até escrevi uma para uma menina.

Sem hesitar, pedi que ele recitasse.

Ele abriu o caderno e leu.

A sala veio abaixo — gritos, aplausos, batidas nas carteiras. A movimentação foi tanta que a direção apareceu, preocupada.

— Professor, aconteceu algo?

— Não. Estamos em aula de poesia.

Saíram sem entender.

Ali, percebi algo essencial: aquela turma, apesar de todos os rótulos, era cheia de potência.

No bimestre de rádio, todas as turmas produziram programas sobre literatura brasileira. As melhores produções vieram justamente do 1ºF.

Aulas menos convencionais ajudaram a construir respeito. Mais do que isso: ajudaram a construir pertencimento.

Não conto essa história para romantizar contextos difíceis.

Conto para afirmar que uma boa sala de aula se constrói na convivência — e quanto mais diversa, melhor.

Segregar não resolve. Isolar não educa.

Estudantes com histórico de fracasso precisam de mais atenção, mais escuta, mais oportunidades de reconstrução de trajetória — não de confinamento em “salas-problema”.

E, acima de tudo, é fundamental investir na formação dos professores.

Porque quando há intencionalidade pedagógica, escuta e construção coletiva, os resultados aparecem.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Foto: Wikipedia 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Não há boa convivência sem diálogo

 


Não existe boa convivência onde não há comunicação dialógica. Diálogo não é apenas a conversa entre duas pessoas. A escola precisa promover o diálogo em múltiplas dimensões: entre professor e estudante, entre estudantes, entre gestão e comunidade, entre currículo e realidade.

Podemos começar pelo mais simples: a conversa de ponta a ponta. Em um bom diálogo, um fala e o outro escuta. Depois, os papéis se invertem. Não se fala ao mesmo tempo. Também não há silêncio absoluto de ambos. E, sobretudo, não é conversa quando apenas um fala. Isso é discurso.

Historicamente, a escola tem sido mais lugar de discurso do que de diálogo. O adulto fala; a criança e o adolescente do Ensino Fundamental escutam. Recebem conteúdos, normas, orientações, expectativas. E quando falamos em “deveres”, não nos referimos apenas às matérias, mas a como devem se comportar, o que não devem fazer, quais resultados precisam alcançar. Talvez seja nesse excesso de emissão e na ausência de escuta que muitos conflitos encontrem terreno fértil. Quando não há conversa, não há exercício de diálogo — e o relacionamento não “dá match”.

E é justamente o relacionamento que deve estar no centro de uma ambiência de paz. Relacionar-se é, inclusive, saber abrir mão de algo para preservar o vínculo. Ao longo de 5, 7 ou até 8 horas diárias na escola, é fundamental perguntar: estamos promovendo uma ambiência que se aproxima do horizonte dos estudantes?

Na perspectiva da Educomunicação, trabalhamos com o conceito de Ecossistema Comunicativo. Assim como na ecologia, quando o meio ambiente está em desequilíbrio, todo o território sofre. O mesmo ocorre na comunicação. Um ecossistema comunicativo saudável depende do diálogo, da circulação de vozes, da possibilidade de resposta. Ele se estrutura como um sistema aberto e criativo.

Uma forma simbólica de analisar esse ecossistema é observar as “flechas” da comunicação. Quando as flechas vão e voltam — de um para outro, alcançando diferentes pessoas e formando uma teia — temos indícios de diálogo. A conversa se expande, gera problematizações coletivas, constrói sentido compartilhado. Mas quando a flecha segue em apenas uma direção e nunca retorna, a comunicação se verticaliza. E, em algum momento, ela se rompe. Surge a apatia, o desinteresse, o distanciamento.

O que tudo isso tem a ver com convivência? Tudo.

Não há convivência sem participação. Não há convivência sem correção de fluxos pela escuta. Não há convivência sem diversidade de vozes e inclusão de opiniões. A escola precisa se abrir aos grandes temas de interesse dos estudantes — especialmente àqueles sobre os quais eles desejam dizer o que não lhes agrada.

A instância primeira de escuta da escola precisa ser a sala de aula. Ali é o locus privilegiado para gerar diálogos que ultrapassem o conteúdo formal e alcancem a vida, o território, as experiências. Trabalhar na perspectiva de projetos não é simples, mas é um caminho potente para desconstruir a lógica de que apenas um fala.

Por fim, é preciso reafirmar: o estudante tem voz. E nossa tarefa não é apenas oferecer espaço para que ela se expresse, mas garantir ouvidos atentos para acolher suas ideias, inquietações e propostas. Porque onde há diálogo, há relação. E onde há relação, há possibilidade real de convivência e paz.

Por Carlos Lima :  Professor Educomunicador

Foto : Praça John Lennon - Havana - Cuba 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Convivência Escolar: Como a Educomunicação pode transformar a raiva, a violência e a agressão em diálogo e pertencimento


A escola é um dos principais espaços de formação humana e social. É ali que crianças, adolescentes e jovens experimentam, diariamente, o desafio da convivência com o outro – com suas diferenças, limites, histórias e afetos. No entanto, é também nesse território que emergem conflitos, tensões e, muitas vezes, expressões de raiva, violência e agressão.

Esses sentimentos, quando não compreendidos e mediados, podem romper vínculos, gerar exclusões e comprometer a saúde emocional da comunidade escolar. Por isso, pensar a Convivência Escolar vai muito além da disciplina: trata-se de construir, de forma intencional e coletiva, um ambiente de escuta, acolhimento e respeito.

É nesse cenário que a Educomunicação se apresenta como uma aliada estratégica. Ao promover práticas de diálogo, escuta ativa e expressão criativa, a Educomunicação oferece caminhos para ressignificar emoções intensas e promover relações mais saudáveis.

Raiva não é inimiga – é um pedido de cuidado

A raiva, por exemplo, é uma emoção legítima. Ela sinaliza que algo nos fere, nos inquieta ou nos ameaça. O problema não está em senti-la, mas em como lidamos com ela. A escola precisa ser um espaço que ensine – por meio de projetos, mediações e vivências – que sentir raiva não precisa culminar em violência ou agressão. E a Educomunicação pode ser essa ponte.

Com oficinas de rádio, programas de podcast, produção de vídeos, criação de jornais comunitários e jornal mural, participação de agencias de notícias Imprensa Jovem, os estudantes encontram linguagens e meios para expressar o que sentem, refletir sobre seus conflitos e propor alternativas. Falar sobre o que incomoda, dramatizar situações do cotidiano, escrever cartas abertas ou criar campanhas de convivência são práticas que fortalecem vínculos e criam repertório emocional e social.

Escuta, expressão e empatia: bases para uma cultura de paz

Projetos educomunicativos também ajudam a identificar situações de bullying, preconceito, discriminação e violência simbólica. Ao escutar a voz dos estudantes, suas dores e narrativas, a escola amplia sua capacidade de acolhimento e intervenção.

Um exemplo disso é o uso de dramatizações ou podcasts em que os próprios alunos contam histórias de superação de conflitos, propondo caminhos de reconciliação. Esses relatos têm um forte potencial de empatia, pois falam com a linguagem dos pares e ativam sentidos de pertencimento e solidariedade.

Educomunicação para transformar relações

Integrar Educomunicação à pauta da Convivência Escolar é reconhecer que os conflitos fazem parte da vida em comum, mas que eles podem ser enfrentados com diálogo, criatividade e participação.

Ao estimular a produção midiática como ferramenta pedagógica e relacional, a escola passa a não apenas ensinar conteúdos, mas também a mediar afetos, formar cidadãos críticos e construir um ambiente onde a paz seja um projeto coletivo.

Em tempos de tantas polarizações e expressões de intolerância, transformar a escola em um espaço de escuta e expressão genuína é, mais do que nunca, um ato de resistência e de esperança.

Por Carlos Lima - Educomunicador e professor 

Imagem: Reprodução G1

quinta-feira, 27 de março de 2025

Reflexões sobre a série Adolescência: um olhar educomunicativo

No Ponto de Encontro - Imprensa Jovem, tivemos uma discussão intensa sobre a série Adolescência, uma produção que retrata os desafios, dilemas e descobertas dessa fase da vida. Como educadores e educomunicadores, percebemos o potencial desse conteúdo para ampliar diálogos fundamentais com nossos estudantes e suas famílias. 

A série Adolescência mergulha no universo dos jovens em uma fase de intensas transformações. A trama acompanha um grupo de adolescentes em sua jornada de autoconhecimento, explorando temas como identidade, amizades, pressão social, saúde mental e o impacto das redes sociais em suas vidas. Com uma narrativa envolvente e realista, a série evidencia os desafios enfrentados pelos jovens dentro e fora da escola, destacando a importância do apoio familiar, da escuta ativa e do respeito às diferenças. A série foi discutida em um bate-papo virtual entre professores.

O papel da família e a aproximação da escola

Um dos pontos mais debatidos foi a importância da família nesse processo. A adolescência é um período de transição, e os jovens precisam do suporte não apenas da escola, mas também do ambiente familiar. Muitas vezes, os responsáveis encontram dificuldades para dialogar sobre os temas abordados na série, como bullying, redes sociais, saúde mental e relações interpessoais.

Diante disso,  a necessidade de a escola criar espaços de escuta e formação para as famílias, promovendo diálogos intergeracionais. Algumas iniciativas:

  • Círculos de Conversa: encontros entre estudantes, professores e famílias para refletirem sobre os episódios da série e suas conexões com a realidade dos jovens.

  • Cine-Debate: exibições de trechos da série seguidas de discussões mediadas por professores.

  • Oficinas de Comunicação Não Violenta: formações voltadas para famílias e professores sobre como dialogar com os adolescentes de forma empática e acolhedora.

  • Podcasts e Fanzines Criados pelos Estudantes: produções midiáticas que estimulem os jovens a expressarem suas vivências e convidem os responsáveis a participarem dessa construção.

Combate ao bullying e promoção do respeito

Outro tema que gerou forte engajamento no debate foi o bullying e suas consequências. A série mostra como as experiências escolares podem ser marcantes e, em alguns casos, traumáticas para os adolescentes. A escola tem um papel essencial na criação de uma cultura de respeito e acolhimento.

Entre as iniciativas para prevenir e combater o bullying, destacam-se:

  • Campanhas de Conscientização Produzidas pelos Estudantes: vídeos, podcasts e cartazes criados pelos próprios jovens para sensibilizar a comunidade escolar.

  • Monitoria Estudantil: criação de grupos de estudantes mediadores, treinados para identificar e intervir em situações de bullying.

  • Espaços de Escuta Ativa: disponibilização de canais (presenciais e online) para que os estudantes possam relatar casos de violência sem medo de represálias.

  • Projetos de Teatro e Expressão Corporal: atividades artísticas que permitam aos estudantes refletirem sobre empatia e respeito ao próximo.

A série Adolescência nos convida a pensar sobre essas questões e a buscar formas de integrar esse tipo de conteúdo às práticas pedagógicas e ao diálogo com as famílias. A partir dela, podemos fortalecer a parceria entre escola e comunidade, garantindo que os jovens tenham o suporte necessário para enfrentar os desafios dessa fase.


Por Carlos Lima - Educomunicador e professor

Reprodução: Netflix  


Colaboradores participantes do debate:

Stefhany Fonseca Abrahão 

Djanira de Souza Correia

Maria de Lourdes de Oliveira Silva 

Edijane Maria dos Santos Gonçalves 

Francisco A.C. Mendes


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Educação de Jovens e Adultos: um espaço de aprendizagem e centro de convivência dos 60+


Enquanto esperava no ponto de ônibus, observei uma conversa inspiradora entre duas senhoras. Uma parecia ter cerca de 60 anos e a outra, 80. Elas falavam sobre o quanto era bom estudar, sobre como as aulas da EJA (Educação de Jovens e Adultos) eram tão interessantes que elas não perdiam sequer um dia. No tom das palavras, percebi o prazer de aprender, mesmo em uma fase da vida em que muitas pessoas acreditam ser tarde demais.

As duas ressaltaram o papel essencial dos professores, que, com atenção e empatia, as motivavam a continuar, mesmo quando pensavam em desistir. “Desistam, não! Falta pouco para vocês se formarem”, lembravam os docentes, mostrando o quanto acreditavam na capacidade de seus alunos.

Porém, uma das senhoras estava preocupada: a EJA próxima de sua casa iria fechar, e a alternativa mais próxima era em outro bairro, dificultando o acesso. “Ainda bem que terminei o 9º ano”, disse a senhora mais velha, mas confessou que ainda tinha vontade de continuar estudando. Sua amiga a encorajou a fazer o Ensino Médio, mas a distância era uma barreira.

Essa conversa reflete algo que muitos já sabem: para os mais velhos, estudar não é apenas uma oportunidade de aprendizado, mas também de realizar um sonho que foi negado na juventude. A escola, sobretudo na EJA, vai além do ensino. É um espaço de convivência, de amizade, de acolhimento e de valorização da experiência de vida.

Com o aumento da expectativa de vida, é essencial que a sociedade veja a escola, em especial a EJA, como um lugar estratégico para a formação contínua dessa geração. Enquanto muitos asilos crescem como resposta ao envelhecimento populacional, a escola pública resiste como um espaço que acolhe as potências dessa geração. Diferentemente de outras instituições que, muitas vezes, marginalizam os idosos, a EJA mantém suas portas abertas para a Geração 60+.

Investir em mais escolas com turmas de EJA e transformá-las em pontos de encontro intergeracionais pode trazer ganhos inestimáveis. Além de promover a inclusão, fortalece a qualidade de vida de jovens e adultos. Há público para isso e há um desejo genuíno por aprendizado e convivência.

A Educação de Jovens e Adultos não é apenas um programa, mas uma política pública que precisa de fortalecimento. Garantir que essas escolas continuem ativas e acessíveis é fundamental para proporcionar mais oportunidades e sonhos realizados, mostrando que nunca é tarde para aprender.

Por Carlos Lima - Educomunicador e professor 

Imagem : Oficina de Educomunicação no CIEJA Guaianases

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

O mundo não será o mesmo. E a Educomunicação?

Em um curto espaço de tempo, o mundo parece ter dado um giro de 180 graus. Domesticamente e mundialmente, os modos de vida estão sendo desafiados e transformados. No Brasil, novas legislações afetam a maneira como os jovens deverão interagir  com  a cultura construida com eles,  entre os quais os usos sociais de ambientes virtuais e sistemas tecnologizados.  Redes, antes projetadas para construir conexões e disseminar conhecimento, têm sido usadas para manipular conceitos de certo e errado, verdade e mentira, a ponto de influenciar decisões de governos e moldar a opinião pública. Lá fora, assistimos ao surgimento de uma nova ordem internacional que ignora os direitos humanos e impõe uma lógica de dominação.

Nesse contexto, cumprir as agendas do Bem Viver tornou-se um desafio imenso. Mais do que nunca, o Bem Viver precisa ser revolucionário. A imposição da “verdade” de poucos sobre a vida de muitos, alimentada por um clube das grandes tecnologias, ameaça as bases de uma convivência ética e plural. O Sul Global — América Latina, África, Ásia e Oriente — precisa resistir, unir forças e reimaginar um futuro que não seja dominado pelo poder do dinheiro. Caso contrário, corremos o risco de sucumbir ao "império do money, money, money".

E a Educomunicação diante desse cenário?

A Educomunicação não pode ser espectadora passiva dessas mudanças. Não há mais lugar para a postura de quem olha o mundo pela janelinha de um avião, sem agir. É preciso atenção, reflexão e, sobretudo, ação. O papel da Educomunicação é lançar luz sobre o que está acontecendo nas escolas, espaços onde as mudanças globais inevitavelmente se refletem. São as escolas que acolhem vozes e pensamentos moldados por essa nova atmosfera ideológica, muitas vezes desafiadora para as ideias do Bem Viver.

Aqui, não precisamos de mais combates, mas de convívio. Um convívio que respeite a pluralidade de pensamentos, promova o diálogo e valorize a escuta ativa. Mediar nunca foi tão importante. As escolas, como microcosmos da sociedade, precisam de ações pedagógicas que promovam a reflexão, a expressão e a comunicação. Mais do que atender metas institucionais, é essencial colocar o bem-estar e a autonomia dos frequentadores da escola no centro das prioridades.

O diálogo como ferramenta transformadora

A Educomunicação tem em suas mãos o poder de lançar o diálogo como ferramenta de empoderamento escolar. Projetos, intervenções sociais, reflexões e criações são meios de tornar a aula um espaço vivo, conectando o microcosmo da escola ao mundo. É preciso formar cidadãos críticos, capazes de questionar, criar e propor soluções para os desafios que enfrentamos.

O mundo mudou e continuará mudando. A Educomunicação precisa ser protagonista nesse cenário, ajudando a construir uma sociedade que, apesar das diferenças, promova o respeito mútuo, a convivência ética e o Bem Viver. Mais do que nunca, a escola e a Educomunicação precisam estar em estado interventivo, para o mundo e por um mundo melhor.

Por Carlos Lima: Educomunicador e professor 

Imagem Pixabay 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Educomunicação: Convivência pela Paz e Aprendizagens

 

Desde sua implementação em 2001, a Educomunicação tem se mostrado uma ferramenta poderosa para fomentar a cultura de paz em territórios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Consolidada pela Lei 13.941, conhecida como Educomunicação pelas Ondas do Rádio, a proposta promove ambientes mais humanos e éticos ao integrar a comunicação aos processos pedagógicos. Além de fortalecer a convivência escolar, essa abordagem potencializa aprendizagens em leitura, escrita e tecnologias, ampliando as possibilidades educacionais.

A integração da Educomunicação à Educação Integral conecta o aprendizado às vivências escolares e comunitárias. Projetos interdisciplinares, como os desenvolvidos no programa Mais Educação, promovem aprendizagens que vão além da sala de aula, utilizando linguagens midiáticas como rádio, vídeo, audiovisual, cinema, fotografia, hq, jornal e midiaa sociais. A criação de espaços para o protagonismo estudantil é um ponto central: grupos de estudantes são incentivados a liderar ações que promovam cidadania e diálogo social, fortalecendo a conexão entre escola e comunidade.

Imagem gerada por IA que conecta Diversidade, Paz e Arte - por Carlos Lima

Um dos maiores exemplos de sucesso é o Imprensa Jovem, onde estudantes criam agências de notícias que incentivam a produção jornalística e a leitura crítica. Atividades práticas como a criação de podcasts, blogs, jornais escolares, mídias sociais conectam a escrita ao uso ético de tecnologias, estimulando o pensamento crítico e a criatividade. A leitura e a escrita, dessa forma, deixam de ser apenas componentes curriculares e passam a ser ferramentas de expressão e transformação social.

A Educomunicação também se destaca ao criar canais de diálogo entre escola e comunidade, como rádios escolares, blogs e redes sociais. Essas iniciativas não apenas ampliam a transparência e a participação, mas também promovem eventos colaborativos que fortalecem o senso de pertencimento e envolvem as famílias nas dinâmicas escolares. A educação midiática, por sua vez, ensina o uso responsável de dispositivos digitais, prepara os estudantes para identificar fake news e explora o potencial criativo das tecnologias.

Com a Educomunicação, as escolas se tornam espaços dinâmicos e colaborativos, capazes de transformar a convivência e promover aprendizagens significativas.

Por Carlos Lima - Educomunicador e professor

ImagemImagem gerada por IA que conecta Diversidade, Paz e Arte - por Carlos Lima



Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...