Uma ideia, no mínimo questionável, foi apresentada em uma reunião de conselho no final de ano. Diante dos problemas de indisciplina, baixa aprendizagem e faltas excessivas, decidiu-se criar turmas específicas nos 1º e 3º anos do Ensino Médio com estudantes que apresentavam esses desafios.
Na prática, a decisão concentrou o problema: duas salas passaram a carregar, quase que exclusivamente, esses estudantes — o 1ºF no período da manhã e o 3ºG no noturno.
Como professor recém-chegado, fiquei com essas turmas.
Era 1998, naquele tempo, ainda não se discutia com a força de hoje a educação inclusiva. Minhas aulas de Português pela manhã e de Inglês à noite eram bem diferentes dos colegas que, digamos, tinham mais “sorte” na escolha das turmas. Mas isso eu conto mais adiante.
As salas eram verdadeiros barris de pólvora, prestes a explodir. Havia muitos estudantes com atitudes violentas. Parecia cena de filme sobre escolas em crise: pouco interesse em aprender.
Entre eles, também havia jovens em Liberdade Assistida — curiosamente, alguns dos mais tranquilos, justamente por não querer mais problemas.
Em duas ocasiões, estudantes de ambas salas, incendiaram o lixo da sala. Em outra, destruíram o banheiro da escola. Como resposta, a gestão decidiu isolar essas turmas no final do corredor, reforçando ainda mais a lógica da segregação.
Os professores que passavam por essas salas saíam exaustos, emocionalmente abalados, muitas vezes revoltados. Os demais colegas observavam, tentavam ser solidários, mas sem saber exatamente o que fazer.
Para quem estava começando, como eu, restava ser criativo.
Sem histórico de convivência com os estudantes, eu era visto com desconfiança. Não havia vínculo, não havia respeito. Foi então que pensei: talvez eu precise sair do lugar de conforto. Brinquei comigo mesmo: “vou ser um louco entre loucos — talvez assim haja algum reconhecimento”.
E arrisquei.
No 3ºG, entrei na sala e comecei a falar apenas em inglês. Sem parar. No início, vieram as risadas e deboche. Mas como eu não interrompi, algo mudou: quebrei o padrão. Desestabilizei o jogo de poder que eles já dominavam na sala.
Aos poucos, começaram a prestar atenção.
Até que um estudante, lá do fundo — conhecido por seu envolvimento com o tráfico e temido pelos colegas — gritou:
— E aí, teacher, o que está escrito na minha camiseta?
Olhei para ele e respondi com calma:
— Você quer mesmo saber? Posso ir até aí e te contar.
Fui até ele e falei, em voz baixa, apenas para ele. Não era uma frase bacana. Era uma tradução de algo que ele nem esperava.
Ele ficou constrangido.
Mas, a partir dali, algo mudou. Criou-se uma relação de respeito. E, surpreendentemente, ele passou a ajudar a manter a ordem nas aulas.
As aulas começaram a fluir.
Mas eu sabia: aquilo não era uma solução estrutural. Foi uma combinação de ousadia, contexto e acaso.
Já no 1ºF, vivi minha primeira experiência como professor de Português. Minha formação era em Inglês, mas a necessidade falou mais alto. Foi ali que recorri ao que eu já dominava: a comunicação.
Decidi integrar linguagens.
O 1ºF era uma constelação de desafios. Sala cheia, estudantes com histórico de fracasso escolar, muitos aprovados automaticamente por conselho de classe, carregando defasagens significativas.
Mas também havia talento.
Comecei o ano apresentando a proposta:
1º bimestre: Teatro
2º bimestre: Poesia
3º bimestre: Rádio escolar
4º bimestre: “A gente decide”
Escrevi tudo na lousa e perguntei:
— Alguém quer comentar?
Um estudante, considerado “problemático”, mas extremamente inteligente, respondeu:
— Gostei do teatro e da poesia… já até escrevi uma para uma menina.
Sem hesitar, pedi que ele recitasse.
Ele abriu o caderno e leu.
A sala veio abaixo — gritos, aplausos, batidas nas carteiras. A movimentação foi tanta que a direção apareceu, preocupada.
— Professor, aconteceu algo?
— Não. Estamos em aula de poesia.
Saíram sem entender.
Ali, percebi algo essencial: aquela turma, apesar de todos os rótulos, era cheia de potência.
No bimestre de rádio, todas as turmas produziram programas sobre literatura brasileira. As melhores produções vieram justamente do 1ºF.
Aulas menos convencionais ajudaram a construir respeito. Mais do que isso: ajudaram a construir pertencimento.
Não conto essa história para romantizar contextos difíceis.
Conto para afirmar que uma boa sala de aula se constrói na convivência — e quanto mais diversa, melhor.
Segregar não resolve. Isolar não educa.
Estudantes com histórico de fracasso precisam de mais atenção, mais escuta, mais oportunidades de reconstrução de trajetória — não de confinamento em “salas-problema”.
E, acima de tudo, é fundamental investir na formação dos professores.
Porque quando há intencionalidade pedagógica, escuta e construção coletiva, os resultados aparecem.
Por Carlos Lima - Professor Educomunicador
Foto: Wikipedia

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