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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A lei do retorno



Diz-se que a vida segue a lei do retorno: quem recebe o bem, devolve o bem. Em tempos em que grande parte da nossa vida está concentrada em um celular, perder esse objeto é quase como sentir que uma parte de nós desapareceu.

Perder um celular é, sem dúvida, uma experiência desesperadora. Vivi isso recentemente, no aeroporto do Panamá, durante a conexão para Havana. Ao organizar meus documentos, deixei o aparelho sobre um banco. Entrei no avião e, ao procurar o celular nos bolsos, veio o susto: ele não estava ali. A sensação foi imediata, como se o chão tivesse se aberto sob meus pés.

Faltavam apenas cinco minutos para o fechamento da porta da aeronave quando uma senhora cubana, percebendo minha aflição, comentou: “Encontraram um celular perdido no portão de embarque”. Outros passageiros reforçaram o aviso: “Corre lá!”. Pouco antes, havia sido feito um anúncio no sistema de som informando que um celular havia sido encontrado.

Hoje, sabemos o quanto depositamos nossas vidas nesses aparelhos: contatos, registros, trabalho, memórias. Quem já passou por isso conhece a angústia. Felizmente, um casal de artistas colombianos havia encontrado o celular. Tentaram localizar o dono pelo aeroporto e, sem sucesso, entregaram o aparelho no portão de embarque da Copa Airlines, que utilizou o serviço de alto-falantes para avisar os passageiros. O casal estava no mesmo voo que eu. Agradeci profundamente quando nos reencontramos em Havana. Dessa situação inesperada, nasceu uma amizade, e pude seguir tranquilamente para minha missão em Cuba.

No dia 27 de janeiro de 2026, a história se repetiu — mas desta vez, de forma invertida. Quem encontrou um celular perdido fui eu. O aparelho estava no meio da rua, em frente a um hipermercado na Vila Curuçá, próximo à plataforma do trem. Ao acender a tela, vi a imagem de uma família: uma mãe e três crianças.

Enquanto seguia para o trabalho, tentei de várias formas encontrar informações que permitissem contato com o proprietário. Em um cartão, havia um número de telefone, mas as tentativas de ligação não tiveram sucesso. Passei a imaginar o desespero de quem havia perdido o celular.

Já no Terminal Engenheiro Goulart, o telefone tocou. Era a irmã da dona do aparelho. A alegria que senti foi imensa — como se eu mesmo tivesse perdido algo precioso e alguém tivesse me devolvido. Por coincidência, a família estava a apenas uma estação de distância, no Tatuapé. Talvez estivessem a caminho de um passeio em família, aproveitando as férias escolares das crianças.

O reencontro foi emocionante. Fui recebido com um abraço apertado, daqueles que lembram a chegada de um parente querido após anos de distância. Todos aguardavam ansiosos. Foi uma experiência simples, mas profundamente significativa.

Claro que não desejo que ninguém passe pelo transtorno de perder um celular. Mas viver a preocupação com o outro, exercitar a empatia e a honestidade, é um poderoso lembrete do tipo de sociedade que queremos construir. Se o casal colombiano não tivesse encontrado meu telefone, minha viagem poderia ter sido comprometida. Da mesma forma, se aquele celular não tivesse sido devolvido, o dia daquela família poderia ter se transformado em frustração.

A honestidade é um bem valioso. E não podemos, em hipótese alguma, deixar de cultivá-la.

Por Carlos Lima : Professor Educomunicador

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Mudanças na relação comunitária, onde as relações humanas se perderam ?

Recordo os aniversários da infância, que mais se assemelhavam a encontros comunitários. Naquela época, não nos importávamos com os presentes, mas com a possibilidade de saborear uma Coca-Cola – algo raro, mesmo aos domingos durante o almoço em família. As crianças da rua eram sempre convidadas a participar daquele momento festivo.

Hoje, no playground do condomínio, uma criança perguntou à mãe se poderia ir à festa realizada no salão de festas, logo ao lado – a celebração da família de um de seus amiguinhos. A mãe respondeu que ele não poderia ir, pois não havia sido convidado, e logo acrescentou: "Vamos subir, vamos à praça aqui do lado."

Assim, a criança passou em frente à festa e ao pula-pula, quando seus coleguinhas o chamaram: "Vem para a minha festa!" Ele, então, replicou: "Minha mãe vai me levar à praça."

Fico imaginando como, hoje em dia, a cultura dos condomínios se tornou tão privativa que, mesmo morando no mesmo prédio, muitos sequer conhecem os vizinhos imediatos. Na nossa infância, até mesmo quando um parente falecia, nos reuníamos em casa e pessoas de todas as ruas se juntavam para se despedir daquele que um dia fez parte do nosso cotidiano. As mães preparayvam café e bolo para receber a todos, e acompanhávamos, em cortejo, o sepultamento dos entes queridos até o cemitério.


Crônica inspirada no post de Antônio Silwa da obra: 
Festa de Aniversário de 6 anos de Renatinha de Afonso Pimenta (na @pinacotecasp)

O mundo vem mudando consideravelmente, e as relações humanas parecem se restringir a círculos cada vez mais reduzidos.


Por Carlos Lima: Educomunicador e professor

Foto: Afonso Pimenta, 1988

domingo, 26 de janeiro de 2025

História de escola: A Toalha Branca


Lembro como se fosse ontem a história do Robert. Ele era um adolescente negro, morador de uma comunidade simples ao lado de um shopping que simbolizava o consumo da nova classe média alta. Toda vez que tentava entrar no shopping, os seguranças o barravam. Era como se aquelas portas automáticas se fechassem só para ele. Na escola, era o tipo de aluno que intimidava professores e colegas. Dava trabalho, falava alto, tinha aquele olhar que desafiava o mundo.

Um dia, ao sair da escola, viu um grupo de estudantes subindo no ônibus em frente ao portão. Era uma turma do Imprensa Jovem que ia para uma cobertura em um bairro nobre. Robert não fazia parte do projeto, mas decidiu que queria ir. Quando os professores tentaram explicar que ele não estava autorizado, ele foi enfático:
— Se eu não puder ir, ninguém vai.

A turma olhou para a professora, que hesitou por um momento. Um dos alunos comentou:
— Traz o Robert, tem lugar aqui.
Outro rebateu:
— Mas ele vai dar trabalho.

A professora respirou fundo e disse:
— Está na minha responsabilidade. Vamos, Robert.

E assim, lá foi ele. No ônibus, estava quieto, observando tudo. Quando chegaram ao local do evento, era como outro mundo. O espaço era sofisticado, cheio de pessoas que pareciam ter vindo de outros países, discutindo sobre conectividade e educação. Era o tipo de lugar que fazia Robert pensar nas portas do shopping que nunca se abriram para ele.

Mas, naquele dia, ele foi recebido como convidado. Um colega emprestou uma camiseta laranja do projeto e disse:
— Você vai cobrir o evento comigo. Vamos conversar com essas pessoas.

Robert mergulhou na experiência. Entrevistou gente que ele jamais imaginou conhecer, viu os flashes das câmeras, anotou tudo num caderninho. E, quando chegou a hora do almoço, foi convidado a se sentar com todos os outros. Olhou para os lados, meio desconfiado, mas se serviu.

Depois de comer, levantou-se e foi ao banheiro. Lá, ao lavar as mãos, ficou parado diante do espelho, observando a torneira automática. Então, um homem se aproximou, provavelmente um dos palestrantes ou organizadores. Robert olhou para ele e perguntou:
— Como seca as mãos aqui?

O homem, com um sorriso simpático, mostrou como usar a máquina. Robert colocou as mãos molhadas embaixo do dispensador, que liberou automaticamente uma toalha branca, macia. Ele ficou ali, parado, olhando para a toalha como se fosse algo mágico. A toalha branca desceu para ele, sem julgamento, sem barreiras, sem desconfiança.

Quando voltou para o grupo, estava pensativo. A professora percebeu e perguntou:
— Está tudo bem, Robert? Você está tão quieto.
— Nada não — respondeu ele.

A atividade foi um sucesso. A organização do evento elogiou o comportamento e a dedicação do grupo. Dias depois, algo mudou em Robert. Ele passou a participar mais das aulas, ajudava a resolver conflitos e até se tornou uma referência para os colegas.

Num momento de conversa, confessou à professora:
— Nunca tive uma experiência como essa. Fui tratado como gente. Ninguém me olhou torto. Todos me trataram com educação. Nunca vou esquecer da toalha branca. Foi incrível. Aquele homem... parecia importante, e ele me mostrou como usar a máquina.

A toalha branca que desceu nas mãos de Robert foi mais do que um gesto simples. Foi um símbolo de acolhimento, respeito e dignidade. E, naquele dia, algo se abriu para ele. Não as portas do shopping, mas as portas de um mundo onde ele finalmente sentiu que tinha lugar.

Por Carlos Lima: Educomunicador e professor

Baseado em fatos reais (2009)

Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...