sábado, 23 de maio de 2026

Como potencializar a avaliação de processos educomunicativos com a avaliação da criatividade do PISA

 


A avaliação em projetos educomunicativos precisa ir além da análise do produto final. Em experiências que envolvem podcast, rádio escolar, jornal, vídeo, redes sociais, fotografia, campanhas ou agências de notícias estudantis, avaliar apenas o resultado não revela toda a riqueza do processo vivido pelos estudantes.

Nesse contexto, a avaliação da criatividade desenvolvida pelo Programme for International Student Assessment surge como uma importante referência para ampliar os instrumentos de avaliação da Educomunicação, especialmente por valorizar competências como autoria, resolução de problemas, pensamento crítico, colaboração e inovação.

Mais do que medir desempenho, a proposta pode contribuir para tornar a avaliação mais formativa, participativa e conectada às práticas de criação coletiva presentes nos projetos educomunicativos.

Criatividade como processo e não apenas talento

Uma das grandes contribuições do PISA Criatividade é compreender que criatividade não está relacionada apenas a habilidades artísticas ou talentos individuais. Ela envolve a capacidade de gerar ideias, experimentar soluções, adaptar estratégias e construir respostas originais para situações reais.

Nos processos educomunicativos, isso acontece constantemente. Um grupo de estudantes que reorganiza uma pauta jornalística após ouvir a comunidade escolar está exercendo criatividade. Jovens que transformam um conflito da escola em campanha de conscientização também demonstram pensamento criativo, participação e leitura crítica da realidade.

Por isso, os instrumentos avaliativos podem observar aspectos que normalmente ficam invisíveis em avaliações tradicionais:

  • como as ideias surgiram;

  • como o grupo lidou com desafios;

  • como ocorreu a construção coletiva;

  • quais experimentações foram realizadas;

  • como os estudantes ressignificaram problemas sociais em narrativas midiáticas.

Novos indicadores para avaliação educomunicativa

Ao dialogar com a perspectiva do PISA, a avaliação dos projetos educomunicativos pode incorporar dimensões relacionadas à criatividade, tais como:

  • expressão criativa por meio de múltiplas linguagens;

  • originalidade das propostas;

  • colaboração criativa entre os participantes;

  • capacidade de escuta e sensibilidade ao território;

  • experimentação de formatos e tecnologias;

  • inovação social;

  • pensamento crítico e responsabilidade comunicativa.

Esses indicadores ajudam a fortalecer uma avaliação mais coerente com os princípios da Educação Midiática e da Educomunicação.

Avaliar o percurso e não apenas a entrega

Muitas vezes, um produto final tecnicamente simples pode revelar um processo profundamente transformador. Um podcast gravado com poucos recursos, mas construído com escuta ativa, pesquisa, protagonismo e participação coletiva, pode ter enorme valor pedagógico.

Nesse sentido, a avaliação precisa considerar:

  • o envolvimento dos estudantes;

  • a qualidade das interações;

  • o desenvolvimento da autonomia;

  • a participação nas decisões;

  • a construção da autoria;

  • a capacidade de resolver problemas em grupo.

A criatividade passa a ser compreendida como prática social e coletiva.

Situações-problema e desafios abertos

Outra inspiração importante da avaliação do PISA é a utilização de desafios com múltiplas possibilidades de resposta. Em vez de buscar apenas respostas corretas, a proposta valoriza diferentes caminhos de criação.

Nos projetos educomunicativos, isso pode acontecer por meio de perguntas mobilizadoras:

  • Como comunicar determinado tema para diferentes públicos?

  • Como ampliar a participação dos estudantes?

  • Como transformar uma pauta em experiência interativa?

  • Que linguagem aproxima mais a comunidade escolar?

  • Como combater desinformação utilizando mídias escolares?

Questões como essas estimulam pensamento divergente, imaginação e protagonismo estudantil.

Autoavaliação e reflexão crítica

A Educomunicação também pode se fortalecer ao incorporar práticas de metacognição presentes nas abordagens contemporâneas de criatividade. Isso significa incentivar os estudantes a refletirem sobre seus próprios processos de criação.

Ferramentas como:

  • diários de bordo;

  • portfólios digitais;

  • rodas de conversa;

  • registros de bastidores;

  • podcasts reflexivos;

  • autoavaliações narrativas;

podem ajudar os estudantes a compreender:

  • como aprenderam;

  • como criaram;

  • como superaram desafios;

  • como colaboraram;

  • quais impactos geraram no território.

Criatividade conectada à cidadania

Na Educomunicação, criatividade não é apenas inovação estética. Ela está diretamente ligada à participação democrática, à ética da comunicação e à transformação social.

Projetos criativos podem:

  • ampliar vozes historicamente silenciadas;

  • fortalecer a cultura de paz;

  • promover os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável;

  • estimular o combate às fake news;

  • incentivar a leitura crítica da mídia;

  • fortalecer vínculos comunitários.

Assim, avaliar criatividade em processos educomunicativos também significa observar a capacidade de produzir sentidos, mobilizar pessoas e transformar realidades.

Caminhos possíveis para escolas e projetos

Uma proposta interessante é organizar a avaliação em quatro grandes etapas:

  1. Ideação — investigação, escuta e construção das propostas;

  2. Criação — experimentação, produção e resolução de problemas;

  3. Circulação — compartilhamento e diálogo com os públicos;

  4. Reflexão — análise crítica das aprendizagens e impactos.

Essa perspectiva ajuda a consolidar uma avaliação mais humana, processual e conectada à educação integral.


Integrar referências da avaliação de criatividade do PISA aos instrumentos de avaliação educomunicativa pode contribuir para transformar a maneira como observamos as aprendizagens dos estudantes.

A avaliação deixa de focar apenas no produto final e passa a reconhecer:

  • autoria;

  • colaboração;

  • criatividade;

  • pensamento crítico;

  • participação;

  • inovação social;

  • protagonismo juvenil.

Mais do que medir resultados, a avaliação passa a valorizar experiências, percursos e transformações. E isso aproxima ainda mais a Educomunicação de uma educação democrática, criativa, participativa e comprometida com a formação integral dos estudantes.


Por Carlos Lima - Professor  Educomunicador 

Imagem : Arquivo pessoal


domingo, 17 de maio de 2026

Aulões de Educomunicação - 20 aulas disponíveis

Os Aulões de Educomunicação surgiram durante a pandemia do coronavírus, a partir da escuta atenta das necessidades, interesses e inquietações dos estudantes. A iniciativa transformou o período de distanciamento social em uma oportunidade de formação, diálogo e participação, fortalecendo o protagonismo juvenil por meio da comunicação.

Realizados em formato de workshops on-line, os encontros reúnem convidados especialistas em Educação Midiática, Educomunicação, Comunicação Social e temas contemporâneos relacionados à cultura digital, produção de conteúdo, cidadania e participação estudantil.

Nesta série, os Aulões apresentam conteúdos alinhados às propostas e práticas do Programa Imprensa Jovem, ampliando repertórios, inspirando projetos e fortalecendo o uso crítico, criativo e ético das mídias na escola e na sociedade.

Assista à primeira temporada no canal:


Playlist Aulões de Educomunicação – 1ª Temporada

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

domingo, 10 de maio de 2026

Em 1989 já era Educomunicador e não sabia


Em 1989, pisei pela primeira vez na sede da Grupo Bandeirantes de Comunicação. Era justamente o dia do histórico debate presidencial entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali para fazer minha estreia voluntária em um programa voltado às jovens lideranças evangélicas. O programa falava de Cultura de Paz, música e histórias de vida — e foi exatamente pelas histórias que comecei minha trajetória na comunicação.

Naquele tempo, eu caminhava pelo centro de São Paulo carregando um gravador Panasonic e fitas BASF, reutilizadas inúmeras vezes para registrar vozes, relatos e memórias de pessoas em situação de rua. Gostava de ouvir histórias. Mais do que entrevistar, queria compreender as dores, os sonhos e as marcas que cada pessoa carregava.

Naquele dia, antes de seguir para a emissora, encontrei um senhor acompanhado de um cachorro vira-lata. Ele me pediu algo para comer. Entreguei o alimento que tinha nas mãos e começamos a conversar. Era um homem extremamente culto. Trazia consigo um livro grosso, embora eu não me lembre mais do título. Enquanto se alimentava, contou sua trajetória: vinha de uma família rica, tinha uma profissão respeitada, mas, após perder a esposa, mergulhou no alcoolismo e acabou abandonado pelos próprios filhos. Perguntei se poderia gravar sua fala. Ele aceitou.

Fiquei profundamente tocado por aquele relato.

Cheguei então à Bandeirantes e encontrei a emissora tomada por seguranças e movimentação intensa por conta do debate político. Caminhei pelos corredores impressionado com aquele universo da comunicação. Tudo parecia grandioso. Em determinado momento, vi saindo de um estúdio da rádio FM um DJ que eu admirava muito na época. Aquilo me marcou.

Quando finalmente cheguei ao estúdio da rádio AM, o programa já estava no ar. O locutor — um pastor moderno, comunicativo e cheio de energia — me apresentou para falar sobre o trabalho que realizávamos com os jovens da igreja. Desenvolvíamos ações de evangelização, escuta, acolhimento e diálogo com jovens em situação de risco, além de visitas a idosos internados, atividades culturais e momentos de estudo coletivo.



Chamávamos aquele movimento de “Força Jovem”. Não sei se o nome permaneceu por influência direta daquela experiência ou se tomou outros caminhos ao longo do tempo, mas o fato é que o movimento cresceu e segue potente até hoje.

Durante a entrevista, contei sobre o encontro que havia tido horas antes com aquele homem em situação de rua. A gravação foi colocada no ar. O estúdio silenciou. Muitos se emocionaram. Ao final do programa, recebi a missão de produzir novas entrevistas para a rádio.

Sem perceber, ali começava minha trajetória educomunicativa.

Passados mais de 35 anos, retorno à Grupo Bandeirantes de Comunicação. Desta vez, levado por um projeto nascido da escuta de jovens na educação pública. Tudo começou quando uma diretora me ouviu falar sobre Educomunicação em uma reunião da Ashoka. Ao final do encontro, pediu meu telefone e marcamos uma conversa.


Fui à emissora acompanhado do amigo Rogério Gonçalves. Fomos muito bem recebidos. Tivemos uma longa e inspiradora conversa sobre projetos, juventudes, educação e possibilidades de parceria. Depois, percorremos os corredores, estúdios e espaços da emissora.

Enquanto caminhava, veio um forte flashback.

Percebi que estava novamente no mesmo lugar onde tudo havia começado: os corredores das rádios. O espaço onde, décadas antes, um jovem com um gravador na mão descobria que comunicar também era escutar. E que a escuta, quando genuína, pode transformar vidas — inclusive a nossa própria.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 





Da timidez ao microfone: Quando encontrei minha voz

Quem imaginaria que uma estudante, antes quieta e retraída, se tornaria coordenadora de um projeto  de comunicação? Pois é. Nem mesmo eu acr...