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quarta-feira, 23 de abril de 2025

HQs na Educação: Muito Além do Entretenimento

As histórias em quadrinhos (HQs) sempre fizeram parte do imaginário de crianças e jovens. No entanto, o uso dessas narrativas visuais vem ganhando um novo espaço dentro da sala de aula, ampliando o repertório cultural e crítico dos estudantes. A professora Juliana de Oliveira Silva, conhecida como Juh, trouxe em um dos nossos encontros do Aulão de Educomunicação uma verdadeira aula sobre como os quadrinhos podem ser ferramentas potentes para a mediação pedagógica, cultural e emocional.

Juh destacou que a HQ vai muito além do consumo e do entretenimento. Ela pode ser um recurso formativo, informativo e instrucional. Desde materiais sobre saúde pública, como os quadrinhos do CGI.br e Safernet sobre internet segura, até produções que tratam de identidade, racismo, gênero e negritude, como “Jeremias - Pele” ou “Cabelos para Coroar”, o quadrinho se mostra um meio acessível e afetivo de diálogo com os estudantes.

Outro ponto importante trazido pela professora é o papel do educador como mediador. Não basta entregar um quadrinho: é preciso ler junto, interpretar contextos, discutir temas sensíveis e possibilitar que os estudantes também criem suas próprias histórias. Quadrinhos como Aprendendo a Cair (sobre neurodivergência), Angola Janga, Kauira Dorme, e as webcomics do coletivo @pontosilustrados mostram como a diversidade de vozes pode ser representada nas narrativas gráficas.

Além disso, Juh apresentou práticas incríveis, como disponibilizar HQs no recreio, promover rodas de leitura com fanzines feitos em folha sulfite, utilizar plataformas digitais como o Canva para criar tirinhas, e até cruzar o uso dos quadrinhos com temas de robótica e RPG.

Seja em projetos do Mais Educação, como suporte para os TCAs, ou em eventos como a Perifacon e Educa HQ, as HQs têm se mostrado aliadas poderosas para promover o letramento crítico, a escuta sensível e o fortalecimento da identidade dos estudantes.

Assista o Aulão HQ na Escola na íntegra 

Faça o download do pdf da apresentação do Aulão clique aqui


Explore o acervo da sua sala de leitura, busque quadrinhos com temáticas sociais, leve seus alunos a eventos culturais ou comece um fanzine coletivo. As possibilidades são infinitas!

Convidada do Aulão

Juliana de Oliveira Silva, historiadora, Socióloga, Mestranda na USP e pesquisadora de cultura geek

Mais informações

Acesse o site do Núcleo de Educomunicação para criar projetos de HQs e Fanzine pelo Programa Mais Educação clique aqui


Por Carlos Lima - Educomunicador e professor

Imagem: Reprodução Pixabay

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

História de escola: Este menino só fica desenhando nas aulas


Lembro bem de quando era professor no Ensino Médio e via, todos os dias, um aluno calado, sempre na dele, sentado no fundão da sala. Poucos conversavam com ele, e ele quase nunca entregava atividades. Sempre com o capuz da blusa sobre a cabeça, carregava um caderno volumoso que parecia conter um mundo à parte.

Pensava comigo: "Ele não gosta de inglês, deve preferir outras matérias". A sala onde estudava era complicada—muita indisciplina, e às sextas-feiras, quase ninguém aparecia. Eu tentava administrar os desafios da turma e, sinceramente, o garoto do fundão não era um problema.

Certa sexta-feira, uma daquelas em que a sala costumava estar vazia, entrei e, como esperado, não vi ninguém. Já me preparava para voltar à sala dos professores quando a inspetora disse:

— Você tem um aluno na sala.

— Quem?

— O desenhista.

— Desenhista?!

Curioso, entrei novamente e lá estava ele, sentado no fundo, como sempre. Dei um "boa noite", mas ele não respondeu. Sentei em minha carteira e, antes de iniciar o que seria praticamente uma aula particular, fiquei observando.

Ele rabiscava intensamente em seu caderno, que mais parecia uma bíblia de tão grosso. Sua caneta deslizava freneticamente pelo papel. Resolvi me aproximar. No instante em que percebeu minha presença, fechou o caderno rapidamente. Foi aí que notei: ele vestia uma camisa do Dead Kennedys, uma banda icônica do punk rock.

Naquele momento, me conectei com uma lembrança da minha juventude. Fui animador cultural e frequentava shows de bandas de garagem. Lembrei dos punks que vendiam fanzines—revistinhas artesanais com desenhos e textos feitos à mão, xerocados e vendidos a preços simbólicos para financiar novas edições.

Resolvi puxar assunto:

— Cara, lembro da época em que curtia Dead Kennedys!

Ele levantou os olhos, surpreso:

Teacher, você curte punk rock?!

A deixa perfeita para iniciar uma conversa. Contei sobre o movimento underground no bairro, sobre os fanzines e como os punks usavam a arte para expressar suas ideias sobre o mundo. Ele me ouviu atento e, depois de um instante, disse:

Teacher, deixa eu te mostrar uma coisa.

Abriu o caderno e revelou uma verdadeira obra de arte. Não eram simples rabiscos—era um portfólio incrível de desenhos em preto e branco. Criaturas urbanas, personagens marginalizados, ambientes da periferia. Havia dezenas deles.

— Você desenha isso todos os dias? — perguntei.

— Eu só olho o mundo e desenho.

Seus desenhos não retratavam apenas destruição e caos, mas também jovens como ele, curtindo a vida, vivendo suas próprias histórias. Me perguntei se, de alguma forma, ele se via em suas criações. Não deu tempo de perguntar. Os 55 minutos da aula passaram voando.

Meses depois, já no final do ano letivo, o reencontrei na rua, perto da escola. Dessa vez, ele me chamou com um sorriso no rosto:

Teacher, meus desenhos foram aceitos por uma produtora! Acho que vou fazer o que realmente gosto na vida!

Nunca mais o vi. Mas até hoje me lembro dele. E da grande lição que aprendi naquela sexta-feira.

Por Carlos Lima : Educomunicador e professor 

Imagem : 


Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...