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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Como trabalhar o combate às fake news na Educação Infantil

 


Experiências reais, ideias práticas e caminhos da Educomunicação para fortalecer o pensamento crítico desde cedo

Em tempos de circulação acelerada de boatos, correntes e desinformação – inclusive nos grupos de família –, as escolas de Educação Infantil têm mostrado que é possível, sim, trabalhar o combate às fake news com crianças pequenas. E não só é possível: é potente, necessário e altamente educativo.

A inspiração deste texto vem do trabalho realizado pela professora da Rede Municipal de São Paulo. Jocely Roque (relato), professora do EMEI Capitão Alberto Mendes de Júnior. Ao perceber que fake news sobre vacinação infantil estavam impactando as famílias, ela decidiu transformar o problema em projeto pedagógico. E o resultado foi extraordinário: mais engajamento, mais diálogo, mais cuidado e, principalmente, crianças mais críticas e confiantes.

A seguir, organizo ideias práticas para professoras que desejam desenvolver projetos semelhantes em suas turmas.

Telejornal Criança - Combate a Fake News


🌱 1. Comece pela escuta das crianças

Antes de falar sobre fake news, ouça o que elas já sabem. Crianças pequenas têm repertório, observam tudo e são excelentes leitoras do mundo ao redor.

Uma boa pergunta inicial:
🗣️ "De onde vêm as informações que vocês ouvem ou veem?"

Essa escuta abre portas para trabalhar conceitos simples como:

  • notícia

  • boato

  • imaginação

  • verdade / mentira

  • história real / história inventada


💉 2. Use temas reais da comunidade (como vacinação)

No projeto da professora, o gatilho foi a circulação de boatos sobre a vacina.

A partir disso, as crianças:

  • analisaram frases como “a vacina não funciona”;

  • conversaram sobre quem sabe responder a essas dúvidas (médicos, enfermeiros, agentes de saúde);

  • brincaram de consultório para compreender o papel dos profissionais.

👉 A ideia aqui é mostrar que informações importantes devem ser confirmadas com quem realmente entende do assunto.


🎭 3. Brincar é metodologia

As crianças aprenderam sobre fontes confiáveis brincando:

  • teatro (fazendo o papel de médicos e repórteres);

  • encenações;

  • montagens de slides (como o famoso “Saci de duas pernas”, usado para trabalhar mentira e exagero nos boatos);

  • releituras de histórias clássicas.

Essa abordagem lúdica torna o conceito de fake news acessível e respeita a infância.


🎙️ 4. Produção de mídia com crianças pequenas? Sim!

Desde 2017, a escola da professora desenvolve projetos midiáticos:

  • reconto digital de histórias;

  • telejornal com crianças de 4 a 6 anos;

  • gravação de áudios e vídeos;

  • pequenas reportagens.

Crianças escolhem papéis: quem grava, quem narra, quem aparece, quem segura a câmera.
Isso gera:

  • protagonismo;

  • linguagem oral forte;

  • autonomia;

  • compreensão de que informação é construída.


👦👧 5. Misture turmas: crianças ensinam crianças

Um aspecto inspirador desse trabalho é o processo interturmas:

  • os maiores ajudam os menores;

  • os pequenos aprendem observando;

  • todo ano, quem aprendeu passa a ensinar.

Essa prática cria continuidade e mantém os projetos vivos, mesmo quando as professoras mudam de turma.


📚 6. Trabalhe gêneros textuais

A professora faz a ponte entre:

  • contos tradicionais

  • histórias recontadas

  • textos informativos

  • telejornais

Isso ajuda as crianças a perceberem que cada tipo de texto tem uma intenção — e que nem tudo que circula é confiável.


🕵️ 7. Desenvolva pequenas estratégias de verificação

Com crianças pequenas, verificação significa algo simples:

  • perguntar para alguém que entende

  • ver se a informação está na caderneta de vacinação

  • perguntar “quem falou?”

  • comparar diferentes fontes

A essência é:
🔎 “Antes de acreditar, vamos descobrir se faz sentido?”


💡 8. Ideias práticas para professoras

Aqui estão atividades que funcionam muito bem na Educação Infantil:

✔️ Atividade 1 – O que é verdade? O que é invenção?

Use figuras, histórias ou objetos e deixe as crianças classificarem.
Inclua intencionalmente brincadeiras absurdas (ex.: “Saci com duas pernas”).

✔️ Atividade 2 – Quem responde?

Crie cartões com perguntas reais das crianças e convide profissionais da saúde, limpeza, segurança ou outros para responderem.

✔️ Atividade 3 – Mini Telejornal da Turma

Com celular ou tablet:

  • uma criança narra

  • outra filma

  • outras mostram desenhos relacionados

O tema pode ser:
🌦️ tempo, 🎒 rotina da escola, 💉 cuidados com a saúde, 🗞️ boatos comuns.

✔️ Atividade 4 – Jogo da Checagem

Monte um painel com duas janelas: “Faz sentido / Não faz sentido”.
As crianças colocam cartões conforme conversam entre si.

✔️ Atividade 5 – Reconto Digital

As crianças recontam histórias gravando suas vozes e criando cenários.
Isso fortalece linguagem e amplia o repertório.


🌟 Por que tudo isso importa?

Porque crianças que aprendem a perguntar “por quê?” e “de onde veio?” se tornam jovens e adultos mais críticos, mais cuidadosos e menos vulneráveis à desinformação.

A Educomunicação mostra:
➡️ produção + reflexão + ludicidade = educação para o século 21

O trabalho da professora demonstra que combater fake news não é só assunto para adolescentes.
É cultura, cidadania e cuidado — e começa na Educação Infantil.


Por Carlos Lima - Educomunicador e professor
Imagem : Onezio Cruz

domingo, 24 de agosto de 2025

Sobre oferecer aulas de Educomunicação na escola como componente da Educação Integral

Ontem concluímos mais uma etapa de nossa experiência de imersão com educadores da Rede Municipal de Ensino. Foi um sábado inteiro de trabalho intenso, dedicado ao desenvolvimento de aulas práticas de Educomunicação voltadas para a implementação do Programa Imprensa Jovem.

Diferente do encontro anterior, em que o foco esteve nos projetos de ampliação da jornada escolar, desta vez nos debruçamos sobre a criação de propostas de aulas. O desafio foi entender como os professores receberiam essa novidade. Sempre acreditei que é possível. Em 1997, realizei minha primeira experiência nesse sentido: utilizei a produção de programas de rádio para ensinar literatura no Ensino Médio e conseguimos ocupar um bimestre inteiro. Aquele ensaio serviu como base para perceber como os docentes se posicionariam diante de uma proposta formativa inovadora.

Nesta edição, contamos com a presença de 21 professores de diferentes escolas da cidade. A formação foi marcada por diálogos intensos, atividades práticas e, principalmente, pelo uso do RAE – Roteiro de Atividade Educomunicativa, ferramenta que orientou a criação de diversas produções ao longo do dia. O resultado foi muito positivo: os participantes saíram satisfeitos e motivados, e a expressão de felicidade durante as atividades ajudou a fortalecer a conexão entre todos.

Também tivemos três paradas estratégicas para conversas informais: dois cafés coletivos e um almoço compartilhado. Esses momentos, somados à arquitetura da sala com mesas integradas, favoreceram a troca de experiências entre os professores. Nosso time de condução também regulou bem os tempos de fala, garantindo espaço para participação ativa dos educadores.





A potência desse encontro fica ainda mais clara nas palavras das professoras participantes:

“Oi, sou a Allana Felix, Professora de Apoio Pedagógico na EMEF Chiquinha Rodrigues. Venho fazer um breve relato após participar da formação de Imprensa Jovem - imersão, ministrada pelos professores Carlos e Clayton. Foi um curso prático e muito enriquecedor de educomunicação, onde pudemos vivenciar na prática tudo que aprendemos do começo ao fim da formação. Agora, saio me sentindo mais repertoriada e segura para implementar e apoiar o desenvolvimento da Imprensa Jovem na escola em que atuo, junto aos meus pares. Espero que haja mais formações como a de hoje e que os projetos de Educomunicação se tornem realidade em todas as escolas da rede.”

“Carlos, Clayton, muito obrigada pela oportunidade de poder participar desse dia tão rico em aprendizado e conhecimento. É muito raro termos formações que oportunizem conhecimentos práticos e de real utilidade na nossa prática com os estudantes no cotidiano escolar. Essa imersão que tivemos hoje, com certeza, nos trouxe repertório para realizarmos um trabalho com o Imprensa Jovem de muito significado e potência. Agradeço de coração.”
Camila, EMEF Rodrigo Mello Franco de Andrade – DRE São Mateus

O mais importante é que o encontro formativo não termina aqui. Saímos com a possibilidade de uso de uma plataforma pronta (Curso Autoinstrucional  Imprensa Jovem) para aprimorar e desenvolver novas aulas junto aos estudantes. Quando falamos em aulas de Educomunicação dentro da Educação Integral, não usamos a ideia de "disciplina" — até porque não é a linguagem da Rede —, mas acreditamos firmemente que essa proposta pode ganhar corpo e transformar a prática pedagógica.

Realizei a formação em parceria com o professor Clayton Scarcella ambos da COCEU I DIGP - Educomunicação.

Por Carlos Lima: Educomunicador e professor 

Fotos: Carlos Lima e Clayton Scarcella

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Imprensa Mirim: Educomunicação para Crianças

 



O Imprensa Mirim é um projeto pioneiro de Educomunicação, voltado para crianças da Educação Infantil e do ciclo de alfabetização do Ensino Fundamental. Inspirado no programa Imprensa Jovem, a iniciativa busca introduzir as crianças ao universo jornalístico por meio de atividades lúdicas e práticas em mídias como podcast, vídeo e fotografia. Esse formato promove a exploração criativa das linguagens midiáticas, em um ambiente que valoriza o brincar e a imaginação, fortalecendo habilidades de comunicação e expressão desde cedo.

A proposta do Imprensa Mirim é permitir que as crianças sejam protagonistas de suas histórias, exercitando o papel de narradoras ativas em seu processo de aprendizagem. Por meio de produções jornalísticas adaptadas ao universo infantil, o projeto não apenas desenvolve competências comunicativas, mas também amplia o senso crítico, a curiosidade e a colaboração. Essa abordagem ajuda a criar uma base sólida para a alfabetização midiática, integrando as vozes das crianças às dinâmicas escolares de forma significativa e divertida.

A experiência de rádio na Educação Infantil, inaugurada com a Rádio Jacaré em 2009, marca o início da trajetória da Educomunicação nesse segmento. Criada pela professora Ana Paula Escudeiro, na EMEI Antônio Bonilha, a Rádio Jacaré foi a primeira Radioescola brasileira voltada para crianças pequenas, e abriu caminho para outros projetos como o Imprensa Mirim da EMEI Cartola. Este último, implementado após a portaria 7991/2016 do programa "Nas Ondas do Rádio", institucionalizou a Educomunicação na Educação Infantil da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, ampliando o uso de mídias diversas, como vídeo, fotografia e redes sociais.

Com uma abordagem única que combina jornalismo infantil e linguagens midiáticas, o Imprensa Mirim fortalece o vínculo entre crianças, escola e comunidade. O projeto demonstra como a Educomunicação pode ser uma ferramenta poderosa para transformar o processo de aprendizado em algo mais interativo, criativo e participativo, respeitando o tempo e o universo infantil enquanto promove a expressão e a escuta ativa.

Por Carlos Lima - Professor e Educomunicador

Foto: Arquivo Imprensa Jovem


 

domingo, 2 de junho de 2024

Imprensa Mirim: Educação Midiática na 1a infância

O projeto Imprensa Mirim destaca-se como uma agência de expressão e comunicação infantil, inaugurando o processo de alfabetização midiática desde a infância. Sua abordagem, que envolve explorar, criar, interagir, questionar e expressar pensamentos, contribui significativamente para a formação humana. No âmbito educativo, a participação proporciona uma compreensão ampliada da mídia, promovendo seu uso saudável e responsável, apesar das preocupações com o uso excessivo de telas.

Ao incorporar o lúdico no uso das linguagens de comunicação desde a infância, o projeto busca identificar os desejos das crianças, intervindo pedagogicamente para construir uma consciência crítica. A diversidade cultural e a experiência de vida do público infantil são respeitadas ao integrar projetos de Mídias na Educação Infantil. A concepção e execução do Imprensa Mirim emerge como um caminho promissor para criar uma atmosfera pedagógica encantadora, adaptada às potencialidades individuais das crianças.

O projeto oferece diversas experiências aos participantes, permitindo que cada criança assuma papéis como repórter, fotógrafo, videomaker ou apresentador, promovendo inclusão e compartilhamento de experiências na agência Mirim. Ao recordar as brincadeiras da infância, nota-se como a expressão criativa e comunicativa se manifesta a partir do espelhamento das atitudes dos mais velhos. O Imprensa Mirim, como projeto educomunicativo, enfatiza a autonomia das crianças, encorajando-as a decidir, trazer suas pautas e questionar assuntos de interesse, promovendo relações amistosas e coletivas.

Ao explorar tecnologias digitais e low-techs, as crianças inventam, perguntam e se permitem errar, enriquecendo a experiência educativa. A produção de mídia pelas crianças não apenas desenha ideias e insights, mas também traz inovações, destacando a importância do rádio, vídeo e fotografia na integração desses projetos.

As produções realizadas pelos participantes, semelhantes ao Imprensa Jovem, incluem entrevistas, captação de imagens e vídeos, construindo reportagens em eventos da cidade, na unidade educacional, na comunidade e no bairro. A variedade de ferramentas, desde máquinas fotográficas até celulares, é utilizada com orientação e discussão nas rodas de conversa conduzidas pelas professoras. A veiculação nos canais de mídias sociais, podcast e YouTube do projeto fortalece a credibilidade das produções infantis, que se destacam por serem sinceras, envolventes e carinhosas.

A participação das crianças no Imprensa Mirim potencializa sua autoestima, gerando alegria, despertando interesse pela escola e cultivando um clima de amizade, colaboração e autonomia no ambiente educativo. Este projeto, ao incentivar a expressão autêntica das crianças, destaca-se como uma valiosa ferramenta na formação integral dos futuros cidadãos.

Por Carlos Lima - Professor, educomunicador e radialista

Imagem : Onézio Cruz

Quando a Educomunicação também pode ter níveis de aprendizagem?

  Outro dia, durante uma aula de língua estrangeira, ouvi o professor apresentar os níveis de proficiência: B1, B2, C1, C2. A ideia é simple...