Cada vez mais, as escolas estão ampliando o tempo de permanência dos estudantes. A proposta pode representar uma oportunidade para ampliar experiências, conhecimentos e aprendizagens. Mas será que ampliar o tempo na escola significa, necessariamente, colocar ainda mais conteúdos e atividades na rotina dos estudantes?
E se, em vez de acrescentarmos mais uma carga de conhecimentos, acrescentássemos mais convivência?
Quando pensamos em educação em tempo ampliado, é comum associarmos automaticamente esse período ao reforço da aprendizagem, a novas aulas, projetos e conteúdos. Mas talvez seja necessário olhar para o estudante antes de olhar para a grade curricular. Afinal, estamos falando de um ser humano que precisa conversar, brincar, criar vínculos, experimentar, descansar, observar e, por que não, até mesmo não fazer nada por alguns momentos.
A escola nem sempre consegue calibrar suas intenções pedagógicas com aquilo que necessita o ser vivente que frequenta seus espaços: o estudante.
O brasileiro, de modo geral, é marcado pela sociabilidade, pelo encontro, pelo abraço, pela conversa e pela interação. Somos uma sociedade profundamente influenciada por culturas indígenas, africanas, europeias e latino-americanas. Nossa maneira de viver, aprender e estabelecer relações não é necessariamente a mesma de jovens de países do Hemisfério Norte.
Por isso, não podemos simplesmente importar modelos educacionais de países como Finlândia, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos ou Israel sem considerar as características culturais, sociais e históricas do nosso país. E mesmo dentro da América Latina somos diferentes de argentinos, chilenos ou uruguaios.
Educação não é um produto que pode ser simplesmente transplantado de uma cultura para outra.
Ampliar o tempo de permanência na escola é uma escolha de políticas públicas e de governos. Mas, muitas vezes, essa decisão chega ao estudante como mais horas de atividades, mais tarefas, mais conteúdos e mais cobranças.
Se a ampliação do tempo escolar é uma realidade que precisamos enfrentar, por que não pensar também em uma hora de conversação, escuta e interação?
Não necessariamente uma aula. Um encontro.
Um momento em que estudantes possam conversar, refletir, contar suas histórias, ouvir os colegas, discutir temas que fazem parte de suas vidas, brincar, criar, conviver e simplesmente estar juntos.
O melhor dos mundos seria que essa dimensão estivesse presente no cotidiano de todas as aulas. Mas, quando isso não é possível, um momento específico para a convivência pode ser uma alternativa. Entre sete e nove horas semanais, por exemplo, poderia existir um espaço planejado para encontros de interação e convivência.
O desenho desse momento pode assumir diferentes formatos. Rodas de conversa, jogos, música, produção cultural, podcasts, debates, atividades corporais, projetos colaborativos ou simplesmente uma boa conversa. O formato importa menos do que a intenção.
E existe um elemento fundamental: a pessoa mediadora e facilitadora desse processo.
Mais do que alguém que conduz uma atividade, esse profissional seria responsável por criar condições para que o encontro aconteça, acolhendo as diferentes vozes, estimulando a participação e ajudando a transformar a convivência em uma experiência educativa.
Podemos começar uma vez por semana e, gradualmente, ampliar esses encontros até que a conversa, a escuta e a interação façam parte do cotidiano escolar.
Talvez estejamos falando de algo aparentemente simples, mas profundamente transformador: empoderar a ambiência escolar.
Porque uma escola não é feita apenas de salas, conteúdos, horários e avaliações. Ela é feita de pessoas.
E pessoas precisam de tempo para aprender, mas também precisam de tempo para viver, conviver e se reconhecer no outro.
Por Carlos Lima – Professor Educomunicador






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