Diz-se que a vida segue a lei do retorno: quem recebe o bem, devolve o bem. Em tempos em que grande parte da nossa vida está concentrada em um celular, perder esse objeto é quase como sentir que uma parte de nós desapareceu.
Perder um celular é, sem dúvida, uma experiência desesperadora. Vivi isso recentemente, no aeroporto do Panamá, durante a conexão para Havana. Ao organizar meus documentos, deixei o aparelho sobre um banco. Entrei no avião e, ao procurar o celular nos bolsos, veio o susto: ele não estava ali. A sensação foi imediata, como se o chão tivesse se aberto sob meus pés.
Faltavam apenas cinco minutos para o fechamento da porta da aeronave quando uma senhora cubana, percebendo minha aflição, comentou: “Encontraram um celular perdido no portão de embarque”. Outros passageiros reforçaram o aviso: “Corre lá!”. Pouco antes, havia sido feito um anúncio no sistema de som informando que um celular havia sido encontrado.
Hoje, sabemos o quanto depositamos nossas vidas nesses aparelhos: contatos, registros, trabalho, memórias. Quem já passou por isso conhece a angústia. Felizmente, um casal de artistas colombianos havia encontrado o celular. Tentaram localizar o dono pelo aeroporto e, sem sucesso, entregaram o aparelho no portão de embarque da Copa Airlines, que utilizou o serviço de alto-falantes para avisar os passageiros. O casal estava no mesmo voo que eu. Agradeci profundamente quando nos reencontramos em Havana. Dessa situação inesperada, nasceu uma amizade, e pude seguir tranquilamente para minha missão em Cuba.
No dia 27 de janeiro de 2026, a história se repetiu — mas desta vez, de forma invertida. Quem encontrou um celular perdido fui eu. O aparelho estava no meio da rua, em frente a um hipermercado na Vila Curuçá, próximo à plataforma do trem. Ao acender a tela, vi a imagem de uma família: uma mãe e três crianças.
Enquanto seguia para o trabalho, tentei de várias formas encontrar informações que permitissem contato com o proprietário. Em um cartão, havia um número de telefone, mas as tentativas de ligação não tiveram sucesso. Passei a imaginar o desespero de quem havia perdido o celular.
Já no Terminal Engenheiro Goulart, o telefone tocou. Era a irmã da dona do aparelho. A alegria que senti foi imensa — como se eu mesmo tivesse perdido algo precioso e alguém tivesse me devolvido. Por coincidência, a família estava a apenas uma estação de distância, no Tatuapé. Talvez estivessem a caminho de um passeio em família, aproveitando as férias escolares das crianças.
O reencontro foi emocionante. Fui recebido com um abraço apertado, daqueles que lembram a chegada de um parente querido após anos de distância. Todos aguardavam ansiosos. Foi uma experiência simples, mas profundamente significativa.
Claro que não desejo que ninguém passe pelo transtorno de perder um celular. Mas viver a preocupação com o outro, exercitar a empatia e a honestidade, é um poderoso lembrete do tipo de sociedade que queremos construir. Se o casal colombiano não tivesse encontrado meu telefone, minha viagem poderia ter sido comprometida. Da mesma forma, se aquele celular não tivesse sido devolvido, o dia daquela família poderia ter se transformado em frustração.
A honestidade é um bem valioso. E não podemos, em hipótese alguma, deixar de cultivá-la.
Por Carlos Lima : Professor Educomunicador







