sábado, 23 de maio de 2026

Como potencializar a avaliação de processos educomunicativos com a avaliação da criatividade do PISA

 


A avaliação em projetos educomunicativos precisa ir além da análise do produto final. Em experiências que envolvem podcast, rádio escolar, jornal, vídeo, redes sociais, fotografia, campanhas ou agências de notícias estudantis, avaliar apenas o resultado não revela toda a riqueza do processo vivido pelos estudantes.

Nesse contexto, a avaliação da criatividade desenvolvida pelo Programme for International Student Assessment surge como uma importante referência para ampliar os instrumentos de avaliação da Educomunicação, especialmente por valorizar competências como autoria, resolução de problemas, pensamento crítico, colaboração e inovação.

Mais do que medir desempenho, a proposta pode contribuir para tornar a avaliação mais formativa, participativa e conectada às práticas de criação coletiva presentes nos projetos educomunicativos.

Criatividade como processo e não apenas talento

Uma das grandes contribuições do PISA Criatividade é compreender que criatividade não está relacionada apenas a habilidades artísticas ou talentos individuais. Ela envolve a capacidade de gerar ideias, experimentar soluções, adaptar estratégias e construir respostas originais para situações reais.

Nos processos educomunicativos, isso acontece constantemente. Um grupo de estudantes que reorganiza uma pauta jornalística após ouvir a comunidade escolar está exercendo criatividade. Jovens que transformam um conflito da escola em campanha de conscientização também demonstram pensamento criativo, participação e leitura crítica da realidade.

Por isso, os instrumentos avaliativos podem observar aspectos que normalmente ficam invisíveis em avaliações tradicionais:

  • como as ideias surgiram;

  • como o grupo lidou com desafios;

  • como ocorreu a construção coletiva;

  • quais experimentações foram realizadas;

  • como os estudantes ressignificaram problemas sociais em narrativas midiáticas.

Novos indicadores para avaliação educomunicativa

Ao dialogar com a perspectiva do PISA, a avaliação dos projetos educomunicativos pode incorporar dimensões relacionadas à criatividade, tais como:

  • expressão criativa por meio de múltiplas linguagens;

  • originalidade das propostas;

  • colaboração criativa entre os participantes;

  • capacidade de escuta e sensibilidade ao território;

  • experimentação de formatos e tecnologias;

  • inovação social;

  • pensamento crítico e responsabilidade comunicativa.

Esses indicadores ajudam a fortalecer uma avaliação mais coerente com os princípios da Educação Midiática e da Educomunicação.

Avaliar o percurso e não apenas a entrega

Muitas vezes, um produto final tecnicamente simples pode revelar um processo profundamente transformador. Um podcast gravado com poucos recursos, mas construído com escuta ativa, pesquisa, protagonismo e participação coletiva, pode ter enorme valor pedagógico.

Nesse sentido, a avaliação precisa considerar:

  • o envolvimento dos estudantes;

  • a qualidade das interações;

  • o desenvolvimento da autonomia;

  • a participação nas decisões;

  • a construção da autoria;

  • a capacidade de resolver problemas em grupo.

A criatividade passa a ser compreendida como prática social e coletiva.

Situações-problema e desafios abertos

Outra inspiração importante da avaliação do PISA é a utilização de desafios com múltiplas possibilidades de resposta. Em vez de buscar apenas respostas corretas, a proposta valoriza diferentes caminhos de criação.

Nos projetos educomunicativos, isso pode acontecer por meio de perguntas mobilizadoras:

  • Como comunicar determinado tema para diferentes públicos?

  • Como ampliar a participação dos estudantes?

  • Como transformar uma pauta em experiência interativa?

  • Que linguagem aproxima mais a comunidade escolar?

  • Como combater desinformação utilizando mídias escolares?

Questões como essas estimulam pensamento divergente, imaginação e protagonismo estudantil.

Autoavaliação e reflexão crítica

A Educomunicação também pode se fortalecer ao incorporar práticas de metacognição presentes nas abordagens contemporâneas de criatividade. Isso significa incentivar os estudantes a refletirem sobre seus próprios processos de criação.

Ferramentas como:

  • diários de bordo;

  • portfólios digitais;

  • rodas de conversa;

  • registros de bastidores;

  • podcasts reflexivos;

  • autoavaliações narrativas;

podem ajudar os estudantes a compreender:

  • como aprenderam;

  • como criaram;

  • como superaram desafios;

  • como colaboraram;

  • quais impactos geraram no território.

Criatividade conectada à cidadania

Na Educomunicação, criatividade não é apenas inovação estética. Ela está diretamente ligada à participação democrática, à ética da comunicação e à transformação social.

Projetos criativos podem:

  • ampliar vozes historicamente silenciadas;

  • fortalecer a cultura de paz;

  • promover os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável;

  • estimular o combate às fake news;

  • incentivar a leitura crítica da mídia;

  • fortalecer vínculos comunitários.

Assim, avaliar criatividade em processos educomunicativos também significa observar a capacidade de produzir sentidos, mobilizar pessoas e transformar realidades.

Caminhos possíveis para escolas e projetos

Uma proposta interessante é organizar a avaliação em quatro grandes etapas:

  1. Ideação — investigação, escuta e construção das propostas;

  2. Criação — experimentação, produção e resolução de problemas;

  3. Circulação — compartilhamento e diálogo com os públicos;

  4. Reflexão — análise crítica das aprendizagens e impactos.

Essa perspectiva ajuda a consolidar uma avaliação mais humana, processual e conectada à educação integral.


Integrar referências da avaliação de criatividade do PISA aos instrumentos de avaliação educomunicativa pode contribuir para transformar a maneira como observamos as aprendizagens dos estudantes.

A avaliação deixa de focar apenas no produto final e passa a reconhecer:

  • autoria;

  • colaboração;

  • criatividade;

  • pensamento crítico;

  • participação;

  • inovação social;

  • protagonismo juvenil.

Mais do que medir resultados, a avaliação passa a valorizar experiências, percursos e transformações. E isso aproxima ainda mais a Educomunicação de uma educação democrática, criativa, participativa e comprometida com a formação integral dos estudantes.


Por Carlos Lima - Professor  Educomunicador 

Imagem : Arquivo pessoal


domingo, 17 de maio de 2026

Aulões de Educomunicação - 20 aulas disponíveis

Os Aulões de Educomunicação surgiram durante a pandemia do coronavírus, a partir da escuta atenta das necessidades, interesses e inquietações dos estudantes. A iniciativa transformou o período de distanciamento social em uma oportunidade de formação, diálogo e participação, fortalecendo o protagonismo juvenil por meio da comunicação.

Realizados em formato de workshops on-line, os encontros reúnem convidados especialistas em Educação Midiática, Educomunicação, Comunicação Social e temas contemporâneos relacionados à cultura digital, produção de conteúdo, cidadania e participação estudantil.

Nesta série, os Aulões apresentam conteúdos alinhados às propostas e práticas do Programa Imprensa Jovem, ampliando repertórios, inspirando projetos e fortalecendo o uso crítico, criativo e ético das mídias na escola e na sociedade.

Assista à primeira temporada no canal:


Playlist Aulões de Educomunicação – 1ª Temporada

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

domingo, 10 de maio de 2026

Em 1989 já era Educomunicador e não sabia


Em 1989, pisei pela primeira vez na sede da Grupo Bandeirantes de Comunicação. Era justamente o dia do histórico debate presidencial entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali para fazer minha estreia voluntária em um programa voltado às jovens lideranças evangélicas. O programa falava de Cultura de Paz, música e histórias de vida — e foi exatamente pelas histórias que comecei minha trajetória na comunicação.

Naquele tempo, eu caminhava pelo centro de São Paulo carregando um gravador Panasonic e fitas BASF, reutilizadas inúmeras vezes para registrar vozes, relatos e memórias de pessoas em situação de rua. Gostava de ouvir histórias. Mais do que entrevistar, queria compreender as dores, os sonhos e as marcas que cada pessoa carregava.

Naquele dia, antes de seguir para a emissora, encontrei um senhor acompanhado de um cachorro vira-lata. Ele me pediu algo para comer. Entreguei o alimento que tinha nas mãos e começamos a conversar. Era um homem extremamente culto. Trazia consigo um livro grosso, embora eu não me lembre mais do título. Enquanto se alimentava, contou sua trajetória: vinha de uma família rica, tinha uma profissão respeitada, mas, após perder a esposa, mergulhou no alcoolismo e acabou abandonado pelos próprios filhos. Perguntei se poderia gravar sua fala. Ele aceitou.

Fiquei profundamente tocado por aquele relato.

Cheguei então à Bandeirantes e encontrei a emissora tomada por seguranças e movimentação intensa por conta do debate político. Caminhei pelos corredores impressionado com aquele universo da comunicação. Tudo parecia grandioso. Em determinado momento, vi saindo de um estúdio da rádio FM um DJ que eu admirava muito na época. Aquilo me marcou.

Quando finalmente cheguei ao estúdio da rádio AM, o programa já estava no ar. O locutor — um pastor moderno, comunicativo e cheio de energia — me apresentou para falar sobre o trabalho que realizávamos com os jovens da igreja. Desenvolvíamos ações de evangelização, escuta, acolhimento e diálogo com jovens em situação de risco, além de visitas a idosos internados, atividades culturais e momentos de estudo coletivo.



Chamávamos aquele movimento de “Força Jovem”. Não sei se o nome permaneceu por influência direta daquela experiência ou se tomou outros caminhos ao longo do tempo, mas o fato é que o movimento cresceu e segue potente até hoje.

Durante a entrevista, contei sobre o encontro que havia tido horas antes com aquele homem em situação de rua. A gravação foi colocada no ar. O estúdio silenciou. Muitos se emocionaram. Ao final do programa, recebi a missão de produzir novas entrevistas para a rádio.

Sem perceber, ali começava minha trajetória educomunicativa.

Passados mais de 35 anos, retorno à Grupo Bandeirantes de Comunicação. Desta vez, levado por um projeto nascido da escuta de jovens na educação pública. Tudo começou quando uma diretora me ouviu falar sobre Educomunicação em uma reunião da Ashoka. Ao final do encontro, pediu meu telefone e marcamos uma conversa.


Fui à emissora acompanhado do amigo Rogério Gonçalves. Fomos muito bem recebidos. Tivemos uma longa e inspiradora conversa sobre projetos, juventudes, educação e possibilidades de parceria. Depois, percorremos os corredores, estúdios e espaços da emissora.

Enquanto caminhava, veio um forte flashback.

Percebi que estava novamente no mesmo lugar onde tudo havia começado: os corredores das rádios. O espaço onde, décadas antes, um jovem com um gravador na mão descobria que comunicar também era escutar. E que a escuta, quando genuína, pode transformar vidas — inclusive a nossa própria.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 





segunda-feira, 27 de abril de 2026

Educomunicação em Rede: todas escolas com e-mail institucionais em São Paulo


Hoje celebramos um marco histórico para a Educomunicação paulistana: demos mais um passo na institucionalização das práticas educomunicativas em toda a rede. A partir de agora, todas as escolas passam a contar com uma conta institucional educom — como, por exemplo, emefpaulofreireeducom@edu.com.br.

Essa conquista fortalece a criação de um ecossistema comunicativo potente, integrado e alinhado ao tripé da Educomunicação na rede: projetos, comunicação e formação. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, abre-se um campo fértil para que Educomunicação em Rede: um salto histórico que conecta todas as escolas e transforma a aprendizagem e educandos ampliem suas vozes, produzam conteúdos e desenvolvam aprendizagens significativas por meio das linguagens midiáticas.

O investimento também potencializa o trabalho pedagógico, apoiando desde aulas regulares até projetos de ampliação da jornada escolar. Com a integração de diversas ferramentas do Google, será possível criar, colaborar e compartilhar com mais autonomia e qualidade, fortalecendo práticas inovadoras no cotidiano dos projetos.

No campo da gestão, surgem novas possibilidades de acompanhamento, organização e criação de estratégias — com soluções que dialogam com os níveis escolar, territorial e de rede municipal. Trata-se de um avanço estruturante, que qualifica processos e amplia o alcance das ações educomunicativas.

Após duas décadas e meia de construção, vemos se consolidar um movimento potente de viabilização da Educomunicação em todas as escolas — uma política pública que reafirma o protagonismo de estudantes, o papel formativo dos educadores e o compromisso com uma educação mais democrática, crítica e conectada com o nosso tempo.

Para acessar o e-mail o POED (Professor Orientador de Educação Digital) deverá acessar a area administrativa da sua conta Google @edu. Lá será possivel acessar a conta nomeada como educom. Só alterar a senha. 


Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Dia histórico para a Educomunicação na celebração dos 25 anos em SP

 

No dia 13 de abril de 2026, vivenciamos um encontro marcante que reuniu estudantes da Licenciatura em Educomunicação e formadores das Divisões dos Centros de Educação Unificado e Educação Integral (DRE/DICEU). A articulação entre o curso Gestão de Projetos Educomunicativos (COCEU/DIGP/Educomunicação) e o Programa de Iniciação à Docência da Universidade de São Paulo revela um cenário promissor para o fortalecimento e a expansão das práticas educomunicativas na educação pública, com impactos diretos nos territórios, nas escolas e nos CEUs.

O encontro contou com uma aula magna do professor Ismar de Oliveira Soares (ECA/USP), que apresentou um panorama histórico do projeto Educom.Rádio, destacando sua relevância na consolidação da Educomunicação como política pública. Na sequência, os estudantes da Licenciatura conduziram uma oficina prática de produção audiovisual com celular, evidenciando o protagonismo juvenil e a potência das linguagens contemporâneas.


Também foi apresentado o PROIAD pelo professor Richard Romancini, que detalhou os objetivos e a proposta do programa, voltado à integração entre formação acadêmica e atuação pedagógica nos territórios.

A iniciativa conta com o apoio da Divisão de Gestão Democrática e Programas Intersecretariais e da COCEU, representada pela professora Daniela (DIGP), reafirmando o compromisso institucional com a formação e o fortalecimento da Educomunicação na rede.

Sobre a formação
A proposta tem como objetivo formar facilitadores de Educomunicação nas 13 Diretorias Regionais de Educação, potencializando o acompanhamento e a qualificação dos projetos nas unidades escolares.

Os encontros estão sendo realizados em espaços de grande relevância simbólica e formativa, como a Casa Sérgio Buarque de Holanda, a Escola de Comunicações e Artes da USP e a Fundação Padre Anchieta, fortalecendo a conexão entre educação, cultura e comunicação.

Agradecimentos
Nossos agradecimentos especiais a Thaís Brianezi, Richard Romancini, Clayton Scarcella, Julio Colabardini, aos colegas da DIGP e DICEU, ao professor Ismar de Oliveira Soares e aos estudantes de Educomunicação participantes do PROIAD, que tornaram este momento possível e significativo.


Por Carlos Lima : Professor e educomunicador


domingo, 5 de abril de 2026

Quando a escola erra — segregrar em salas não resolveu o problema

 


Uma ideia, no mínimo questionável, foi apresentada em uma reunião de conselho no final de ano. Diante dos problemas de indisciplina, baixa aprendizagem e faltas excessivas, decidiu-se criar turmas específicas nos 1º e 3º anos do Ensino Médio com estudantes que apresentavam esses desafios.

Na prática, a decisão concentrou o problema: duas salas passaram a carregar, quase que exclusivamente, esses estudantes — o 1ºF no período da manhã e o 3ºG no noturno.

Como professor recém-chegado, fiquei com essas turmas.

Era 1998, naquele tempo, ainda não se discutia com a força de hoje a educação inclusiva. Minhas aulas de Português pela manhã e de Inglês à noite eram bem diferentes dos colegas que, digamos, tinham mais “sorte” na escolha das turmas. Mas isso eu conto mais adiante.

As salas eram verdadeiros barris de pólvora, prestes a explodir. Havia muitos estudantes com atitudes violentas. Parecia cena de filme sobre escolas em crise: pouco interesse em aprender.

Entre eles, também havia jovens em Liberdade Assistida — curiosamente, alguns dos mais tranquilos, justamente por não querer mais problemas.

Em duas ocasiões, estudantes de ambas salas, incendiaram o lixo da sala. Em outra, destruíram o banheiro da escola. Como resposta, a gestão decidiu isolar essas turmas no final do corredor, reforçando ainda mais a lógica da segregação.

Os professores que passavam por essas salas saíam exaustos, emocionalmente abalados, muitas vezes revoltados. Os demais colegas observavam, tentavam ser solidários, mas sem saber exatamente o que fazer.

Para quem estava começando, como eu, restava ser criativo.

Sem histórico de convivência com os estudantes, eu era visto com desconfiança. Não havia vínculo, não havia respeito. Foi então que pensei: talvez eu precise sair do lugar de conforto. Brinquei comigo mesmo: “vou ser um louco entre loucos — talvez assim haja algum reconhecimento”.

E arrisquei.

No 3ºG, entrei na sala e comecei a falar apenas em inglês. Sem parar. No início, vieram as risadas e deboche. Mas como eu não interrompi, algo mudou: quebrei o padrão. Desestabilizei o jogo de poder que eles já dominavam na sala.

Aos poucos, começaram a prestar atenção.

Até que um estudante, lá do fundo — conhecido por seu envolvimento com o tráfico e temido pelos colegas — gritou:

E aí, teacher, o que está escrito na minha camiseta?

Olhei para ele e respondi com calma:

— Você quer mesmo saber? Posso ir até aí e te contar.

Fui até ele e falei, em voz baixa, apenas para ele. Não era uma frase bacana. Era uma tradução de algo que ele nem esperava.

Ele ficou constrangido.

Mas, a partir dali, algo mudou. Criou-se uma relação de respeito. E, surpreendentemente, ele passou a ajudar a manter a ordem nas aulas.

As aulas começaram a fluir.

Mas eu sabia: aquilo não era uma solução estrutural. Foi uma combinação de ousadia, contexto e acaso.

Já no 1ºF, vivi minha primeira experiência como professor de Português. Minha formação era em Inglês, mas a necessidade falou mais alto. Foi ali que recorri ao que eu já dominava: a comunicação.

Decidi integrar linguagens.

O 1ºF era uma constelação de desafios. Sala cheia, estudantes com histórico de fracasso escolar, muitos aprovados automaticamente por conselho de classe, carregando defasagens significativas.

Mas também havia talento.

Comecei o ano apresentando a proposta:

  • 1º bimestre: Teatro

  • 2º bimestre: Poesia

  • 3º bimestre: Rádio escolar

  • 4º bimestre: “A gente decide”

Escrevi tudo na lousa e perguntei:

— Alguém quer comentar?

Um estudante, considerado “problemático”, mas extremamente inteligente, respondeu:

— Gostei do teatro e da poesia… já até escrevi uma para uma menina.

Sem hesitar, pedi que ele recitasse.

Ele abriu o caderno e leu.

A sala veio abaixo — gritos, aplausos, batidas nas carteiras. A movimentação foi tanta que a direção apareceu, preocupada.

— Professor, aconteceu algo?

— Não. Estamos em aula de poesia.

Saíram sem entender.

Ali, percebi algo essencial: aquela turma, apesar de todos os rótulos, era cheia de potência.

No bimestre de rádio, todas as turmas produziram programas sobre literatura brasileira. As melhores produções vieram justamente do 1ºF.

Aulas menos convencionais ajudaram a construir respeito. Mais do que isso: ajudaram a construir pertencimento.

Não conto essa história para romantizar contextos difíceis.

Conto para afirmar que uma boa sala de aula se constrói na convivência — e quanto mais diversa, melhor.

Segregar não resolve. Isolar não educa.

Estudantes com histórico de fracasso precisam de mais atenção, mais escuta, mais oportunidades de reconstrução de trajetória — não de confinamento em “salas-problema”.

E, acima de tudo, é fundamental investir na formação dos professores.

Porque quando há intencionalidade pedagógica, escuta e construção coletiva, os resultados aparecem.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Foto: Wikipedia 

sábado, 4 de abril de 2026

Comunicação Institucional nas Agências Imprensa Jovem


A comunicação na escola vai muito além de informar — ela educa, aproxima e transforma a relação escola e comunidade. No contexto da Educomunicação, os canais criados pelas Agências de Notícias Imprensa Jovem assumem um papel estratégico: são espaços institucionais de diálogo, aprendizagem e participação.

Mas o que isso significa, na prática?

Significa compreender que todo canal de comunicação de um projeto educomunicativo — seja um jornal, podcast, rede social ou canal de vídeo — representa a escola e sua comunidade. Por isso, precisa ser pensado com intencionalidade pedagógica, responsabilidade social e compromisso com a formação dos estudantes.

Comunicação é direito — e também responsabilidade

A base da Educomunicação está no direito à comunicação. Todos e todas têm o direito de se expressar, produzir conteúdos e participar do debate público. No ambiente escolar, esse direito ganha ainda mais força, pois se conecta diretamente com o processo de aprendizagem.

No entanto, comunicar também exige  responsabilidade. Isso significa respeitar as pessoas, evitar a disseminação de desinformação e compreender o impacto que cada conteúdo pode gerar.

Produzir conteúdo também é aprender

Na Imprensa Jovem, os estudantes não são apenas consumidores de informação — são autores. E essa autoria precisa estar alinhada à perspectiva pedagógica, ou seja, deve promover aprendizagens significativas.

Produzir uma reportagem, realizar uma entrevista ou cobrir um evento escolar são experiências que desenvolvem competências essenciais, como pensamento crítico, expressão, escuta e investigação.

Além disso, os canais de comunicação ajudam a aproximar a escola da comunidade, dando visibilidade às ações pedagógicas e fortalecendo o sentimento de pertencimento.

Comunicação com responsabilidade e linguagem acessível

Para garantir que a comunicação cumpra seu papel social, alguns princípios são fundamentais:

  • Uso de linguagem simples e clara

  • Acessibilidade nos conteúdos (legendas, descrição de imagens, qualidade de áudio)

  • Respeito à diversidade e à convivência

  • Verificação das informações antes da publicação

A liberdade de expressão é um direito — mas deve caminhar junto com o respeito e a ética.

Atenção ao uso de imagem e à apuração

Outro ponto essencial é o cuidado com o uso de imagem. Para publicar fotos ou vídeos com pessoas, especialmente menores de idade, é necessário ter autorização dos responsáveis.

Além disso, toda produção deve ser baseada em fontes confiáveis. A apuração correta é o que diferencia a informação de qualidade das fake news.

Comunicação em rede: conectar para fortalecer

Um dos grandes diferenciais da Imprensa Jovem é a construção de uma rede de comunicação educomunicativa.

Essa rede funciona de forma descentralizada — cada escola produz seus conteúdos — mas também integrada, permitindo o compartilhamento, a circulação de informações e o acompanhamento das ações.

O fluxo de comunicação geralmente envolve:

  1. Produção nas escolas

  2. Validação pedagógica

  3. Publicação nos canais institucionais

  4. Compartilhamento em rede

  5. Acompanhamento e curadoria

Esse processo fortalece a identidade do programa e amplia o alcance das produções estudantis.

O papel dos territórios: mediação e apoio

Nos territórios, a articulação entre escolas e áreas de Educomunicação é fundamental. Essa mediação atua como ponte, apoiando os projetos, orientando as equipes e garantindo que as ações estejam conectadas.

Dessa forma, nenhuma escola atua de forma isolada — todas fazem parte de um ecossistema colaborativo de aprendizagem e comunicação.

Marcos legais que fortalecem a Imprensa Jovem

A atuação das Agências Imprensa Jovem é sustentada por importantes legislações e documentos orientadores, que consolidam a comunicação como prática educativa e direito social.

A Lei de Educomunicação reconhece o uso das mídias como estratégia pedagógica e incentiva o protagonismo dos estudantes. A Portaria Imprensa Jovem organiza o funcionamento do programa nas escolas, garantindo diretrizes e acompanhamento institucional.

Já a Lei Imprensa Jovem fortalece o programa como política pública, reconhecendo os estudantes como produtores de informação e ampliando a participação da comunidade escolar.

Além disso, o Guia Imprensa Jovem — conhecido como “Copi Cola” — oferece orientações práticas para estudantes e professores, apoiando a produção de conteúdos com criatividade e responsabilidade.

Educomunicação que transforma o ecossistema comunicativo da escola

Ao integrar comunicação, educação e participação, a Imprensa Jovem transforma a escola em um espaço vivo de expressão e construção coletiva.

Mais do que produzir notícias, os estudantes aprendem a ler o mundo, a dialogar com sua comunidade e a exercer sua cidadania.

E é nesse movimento que a comunicação deixa de ser apenas um canal — e se torna uma poderosa ferramenta de transformação social.


Por Carlos Lima - Professor Educomunicador
Imagem: Criação de conteudo para Rede Municipal de Ensino de São Paulo do programa EntreNós produzido pelos estudantes do Imprensa Jovem 

Como potencializar a avaliação de processos educomunicativos com a avaliação da criatividade do PISA

  A avaliação em projetos educomunicativos precisa ir além da análise do produto final. Em experiências que envolvem podcast, rádio escolar,...