quinta-feira, 4 de junho de 2026

Educomunicação em cursinhos preparatórios para vestibular

Sempre acreditamos que a Educomunicação tem espaço em praticamente todas as ações que promovem aprendizagem. Levar essa perspectiva para um cursinho preparatório para vestibulares e ensino técnico foi uma experiência enriquecedora vivenciada no Educavest no CEU Vila Carrão e Curuça.

A proposta era simples: potencializar a leitura, a interpretação e a produção textual a partir de temas que fazem parte do cotidiano dos jovens. Afinal, para muitos estudantes, a redação ainda é vista como um verdadeiro desafio. O maior obstáculo não costuma ser escrever, mas organizar ideias, estruturar argumentos e desenvolver um texto coerente.

Não é tarefa fácil reunir uma turma interessada em obter um bom desempenho nos exames e, ao mesmo tempo, motivá-la a iniciar uma produção escrita. Naquela aula de duas horas, percebi que antes de falar sobre redação, precisava conversar com eles.

Comecei perguntando sobre algo que despertasse seu interesse: música.

Ainda um pouco tímidos, os estudantes citaram um cantor que fazia muito sucesso entre eles:

— Jão. (Clipe)

Confesso que não conhecia muito bem seu trabalho. Então perguntei:

— Que tipo de música ele canta? Sobre o que falam suas letras?

A resposta veio rapidamente:

— Professor, ele canta pop e suas músicas falam muito sobre relacionamentos e fracassos amorosos.

— E vocês gostam desse tipo de música?

Quase em coro, responderam:

— Sim!

Foi então que propus:

— Vamos trazer o Jão para a aula.

Liguei o projetor e assistimos juntos a um de seus sucessos. Aquele momento foi muito mais do que ouvir uma música. Foi uma oportunidade de demonstrar interesse pelo universo dos estudantes, compartilhar referências e construir uma conexão genuína. Ao acolher algo significativo para eles, estabelecemos um vínculo de confiança e diálogo.

Depois da música, fiz uma nova pergunta:

— Se o Jão estivesse aqui agora, o que vocês gostariam de perguntar para ele?

Rapidamente surgiram diversas questões. A curiosidade havia tomado conta da sala.

Foi então que expliquei:

— O Jão é o assunto. Fazer perguntas sobre um assunto é o primeiro passo para escrever sobre ele. As perguntas geram informações, ideias e caminhos para a construção do texto.

A partir daí, introduzimos uma das estratégias mais importantes da produção textual e do jornalismo: as seis perguntas fundamentais.

  • O quê?

  • Quem?

  • Quando?

  • Onde?

  • Como?

  • Por quê?

Expliquei que essas perguntas servem para organizar informações e estruturar diferentes gêneros textuais. Naquele momento, utilizaríamos a reportagem jornalística como exemplo.

Criamos coletivamente uma situação hipotética:

"O cantor Jão participará, nesta quarta-feira, de um bate-papo com os estudantes do Educavest no CEU Carrão."

Em seguida, identificamos as respostas para as quatro primeiras perguntas:

  • O quê? — Um bate-papo com estudantes.

  • Quem? — O cantor Jão.

  • Quando? — Nesta quarta-feira.

  • Onde? — No CEU Carrão.

Para facilitar a aprendizagem, começamos construindo um lead com as quatro informações mais básicas e, depois, aprofundamos o texto com as perguntas 'Como?' e 'Por quê?'."

Os estudantes receberam então o desafio de produzir, em dez minutos, o primeiro parágrafo da reportagem.

Durante a leitura dos textos produzidos, identificamos algumas dificuldades comuns, como parágrafos muito longos, ausência de pontuação e períodos extensos que dificultavam a compreensão.

Conversamos sobre a importância da clareza na escrita. Expliquei que o texto jornalístico busca informar de forma objetiva, ajudando o leitor a construir mentalmente a cena que está sendo descrita. Para isso, frases em ordem direta costumam facilitar a leitura:

Sujeito + Verbo + Complemento

Por exemplo:

"Carlos mora em São Miguel."

Também refletimos sobre a importância da pontuação. O ponto final, por exemplo, ajuda a organizar as ideias e cria pausas que tornam o texto mais agradável e compreensível.

Na sequência, passamos para as duas últimas perguntas:

  • Como?

  • Por quê?

Essas questões permitiram aprofundar o assunto, explicar as circunstâncias do evento e apresentar seus objetivos. Em cerca de quinze minutos, os estudantes concluíram a produção do texto.

Faltava apenas uma etapa: o título.

Expliquei que um bom título deve dar um "spolier", ou seja, precisa despertar o interesse do leitor e deve antecipar ao leitor a principal informação do texto e despertar seu interesse pela leitura.

Uma estratégia simples é construir um título que responda a pelo menos duas das perguntas fundamentais.

Por exemplo:

"Jão participa de encontro com estudantes no CEU Carrão nesta quarta-feira."

Nesse caso, o título responde simultaneamente:

  • Quem?

  • Onde?

  • Quando?

Ao final da atividade, projetamos uma notícia real sobre o cantor Jão e analisamos coletivamente sua estrutura. Identificamos o título, o lead, os parágrafos de desenvolvimento e as respostas às seis perguntas fundamentais.

A atividade transformou os estudantes de receptores de informação em produtores de conteúdo, um princípio fundamental da Educomunicação.

Mais do que ensinar técnicas de redação, a atividade demonstrou como a Educomunicação pode transformar a produção textual em uma experiência significativa. Quando os estudantes escrevem sobre temas que fazem sentido para suas vidas, o processo torna-se mais envolvente e participativo.

Além de apoiar a escrita, essa metodologia fortalece a leitura e a interpretação de textos. O hábito de localizar informações por meio das perguntas fundamentais contribui para a compreensão textual e oferece estratégias valiosas para responder questões em provas e avaliações.

No fim da aula, ficou evidente que escrever não começa no papel. Escrever começa na conversa, na curiosidade, na escuta e na capacidade de transformar perguntas em conhecimento. E é justamente nesse espaço de diálogo que a Educomunicação encontra sua maior força.

Acesse Plano de Aula na Academia Imprensa Jovem 


Por Carlos Lima : Professor Educomunicador 

sábado, 23 de maio de 2026

Como potencializar a avaliação de processos educomunicativos com a avaliação da criatividade do PISA

 


A avaliação em projetos educomunicativos precisa ir além da análise do produto final. Em experiências que envolvem podcast, rádio escolar, jornal, vídeo, redes sociais, fotografia, campanhas ou agências de notícias estudantis, avaliar apenas o resultado não revela toda a riqueza do processo vivido pelos estudantes.

Nesse contexto, a avaliação da criatividade desenvolvida pelo Programme for International Student Assessment surge como uma importante referência para ampliar os instrumentos de avaliação da Educomunicação, especialmente por valorizar competências como autoria, resolução de problemas, pensamento crítico, colaboração e inovação.

Mais do que medir desempenho, a proposta pode contribuir para tornar a avaliação mais formativa, participativa e conectada às práticas de criação coletiva presentes nos projetos educomunicativos.

Criatividade como processo e não apenas talento

Uma das grandes contribuições do PISA Criatividade é compreender que criatividade não está relacionada apenas a habilidades artísticas ou talentos individuais. Ela envolve a capacidade de gerar ideias, experimentar soluções, adaptar estratégias e construir respostas originais para situações reais.

Nos processos educomunicativos, isso acontece constantemente. Um grupo de estudantes que reorganiza uma pauta jornalística após ouvir a comunidade escolar está exercendo criatividade. Jovens que transformam um conflito da escola em campanha de conscientização também demonstram pensamento criativo, participação e leitura crítica da realidade.

Por isso, os instrumentos avaliativos podem observar aspectos que normalmente ficam invisíveis em avaliações tradicionais:

  • como as ideias surgiram;

  • como o grupo lidou com desafios;

  • como ocorreu a construção coletiva;

  • quais experimentações foram realizadas;

  • como os estudantes ressignificaram problemas sociais em narrativas midiáticas.

Novos indicadores para avaliação educomunicativa

Ao dialogar com a perspectiva do PISA, a avaliação dos projetos educomunicativos pode incorporar dimensões relacionadas à criatividade, tais como:

  • expressão criativa por meio de múltiplas linguagens;

  • originalidade das propostas;

  • colaboração criativa entre os participantes;

  • capacidade de escuta e sensibilidade ao território;

  • experimentação de formatos e tecnologias;

  • inovação social;

  • pensamento crítico e responsabilidade comunicativa.

Esses indicadores ajudam a fortalecer uma avaliação mais coerente com os princípios da Educação Midiática e da Educomunicação.

Avaliar o percurso e não apenas a entrega

Muitas vezes, um produto final tecnicamente simples pode revelar um processo profundamente transformador. Um podcast gravado com poucos recursos, mas construído com escuta ativa, pesquisa, protagonismo e participação coletiva, pode ter enorme valor pedagógico.

Nesse sentido, a avaliação precisa considerar:

  • o envolvimento dos estudantes;

  • a qualidade das interações;

  • o desenvolvimento da autonomia;

  • a participação nas decisões;

  • a construção da autoria;

  • a capacidade de resolver problemas em grupo.

A criatividade passa a ser compreendida como prática social e coletiva.

Situações-problema e desafios abertos

Outra inspiração importante da avaliação do PISA é a utilização de desafios com múltiplas possibilidades de resposta. Em vez de buscar apenas respostas corretas, a proposta valoriza diferentes caminhos de criação.

Nos projetos educomunicativos, isso pode acontecer por meio de perguntas mobilizadoras:

  • Como comunicar determinado tema para diferentes públicos?

  • Como ampliar a participação dos estudantes?

  • Como transformar uma pauta em experiência interativa?

  • Que linguagem aproxima mais a comunidade escolar?

  • Como combater desinformação utilizando mídias escolares?

Questões como essas estimulam pensamento divergente, imaginação e protagonismo estudantil.

Autoavaliação e reflexão crítica

A Educomunicação também pode se fortalecer ao incorporar práticas de metacognição presentes nas abordagens contemporâneas de criatividade. Isso significa incentivar os estudantes a refletirem sobre seus próprios processos de criação.

Ferramentas como:

  • diários de bordo;

  • portfólios digitais;

  • rodas de conversa;

  • registros de bastidores;

  • podcasts reflexivos;

  • autoavaliações narrativas;

podem ajudar os estudantes a compreender:

  • como aprenderam;

  • como criaram;

  • como superaram desafios;

  • como colaboraram;

  • quais impactos geraram no território.

Criatividade conectada à cidadania

Na Educomunicação, criatividade não é apenas inovação estética. Ela está diretamente ligada à participação democrática, à ética da comunicação e à transformação social.

Projetos criativos podem:

  • ampliar vozes historicamente silenciadas;

  • fortalecer a cultura de paz;

  • promover os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável;

  • estimular o combate às fake news;

  • incentivar a leitura crítica da mídia;

  • fortalecer vínculos comunitários.

Assim, avaliar criatividade em processos educomunicativos também significa observar a capacidade de produzir sentidos, mobilizar pessoas e transformar realidades.

Caminhos possíveis para escolas e projetos

Uma proposta interessante é organizar a avaliação em quatro grandes etapas:

  1. Ideação — investigação, escuta e construção das propostas;

  2. Criação — experimentação, produção e resolução de problemas;

  3. Circulação — compartilhamento e diálogo com os públicos;

  4. Reflexão — análise crítica das aprendizagens e impactos.

Essa perspectiva ajuda a consolidar uma avaliação mais humana, processual e conectada à educação integral.


Integrar referências da avaliação de criatividade do PISA aos instrumentos de avaliação educomunicativa pode contribuir para transformar a maneira como observamos as aprendizagens dos estudantes.

A avaliação deixa de focar apenas no produto final e passa a reconhecer:

  • autoria;

  • colaboração;

  • criatividade;

  • pensamento crítico;

  • participação;

  • inovação social;

  • protagonismo juvenil.

Mais do que medir resultados, a avaliação passa a valorizar experiências, percursos e transformações. E isso aproxima ainda mais a Educomunicação de uma educação democrática, criativa, participativa e comprometida com a formação integral dos estudantes.


Por Carlos Lima - Professor  Educomunicador 

Imagem : Arquivo pessoal


domingo, 17 de maio de 2026

Aulões de Educomunicação - 20 aulas disponíveis

Os Aulões de Educomunicação surgiram durante a pandemia do coronavírus, a partir da escuta atenta das necessidades, interesses e inquietações dos estudantes. A iniciativa transformou o período de distanciamento social em uma oportunidade de formação, diálogo e participação, fortalecendo o protagonismo juvenil por meio da comunicação.

Realizados em formato de workshops on-line, os encontros reúnem convidados especialistas em Educação Midiática, Educomunicação, Comunicação Social e temas contemporâneos relacionados à cultura digital, produção de conteúdo, cidadania e participação estudantil.

Nesta série, os Aulões apresentam conteúdos alinhados às propostas e práticas do Programa Imprensa Jovem, ampliando repertórios, inspirando projetos e fortalecendo o uso crítico, criativo e ético das mídias na escola e na sociedade.

Assista à primeira temporada no canal:


Playlist Aulões de Educomunicação – 1ª Temporada

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

domingo, 10 de maio de 2026

Em 1989 já era Educomunicador e não sabia


Em 1989, pisei pela primeira vez na sede da Grupo Bandeirantes de Comunicação. Era justamente o dia do histórico debate presidencial entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali para fazer minha estreia voluntária em um programa voltado às jovens lideranças evangélicas. O programa falava de Cultura de Paz, música e histórias de vida — e foi exatamente pelas histórias que comecei minha trajetória na comunicação.

Naquele tempo, eu caminhava pelo centro de São Paulo carregando um gravador Panasonic e fitas BASF, reutilizadas inúmeras vezes para registrar vozes, relatos e memórias de pessoas em situação de rua. Gostava de ouvir histórias. Mais do que entrevistar, queria compreender as dores, os sonhos e as marcas que cada pessoa carregava.

Naquele dia, antes de seguir para a emissora, encontrei um senhor acompanhado de um cachorro vira-lata. Ele me pediu algo para comer. Entreguei o alimento que tinha nas mãos e começamos a conversar. Era um homem extremamente culto. Trazia consigo um livro grosso, embora eu não me lembre mais do título. Enquanto se alimentava, contou sua trajetória: vinha de uma família rica, tinha uma profissão respeitada, mas, após perder a esposa, mergulhou no alcoolismo e acabou abandonado pelos próprios filhos. Perguntei se poderia gravar sua fala. Ele aceitou.

Fiquei profundamente tocado por aquele relato.

Cheguei então à Bandeirantes e encontrei a emissora tomada por seguranças e movimentação intensa por conta do debate político. Caminhei pelos corredores impressionado com aquele universo da comunicação. Tudo parecia grandioso. Em determinado momento, vi saindo de um estúdio da rádio FM um DJ que eu admirava muito na época. Aquilo me marcou.

Quando finalmente cheguei ao estúdio da rádio AM, o programa já estava no ar. O locutor — um pastor moderno, comunicativo e cheio de energia — me apresentou para falar sobre o trabalho que realizávamos com os jovens da igreja. Desenvolvíamos ações de evangelização, escuta, acolhimento e diálogo com jovens em situação de risco, além de visitas a idosos internados, atividades culturais e momentos de estudo coletivo.



Chamávamos aquele movimento de “Força Jovem”. Não sei se o nome permaneceu por influência direta daquela experiência ou se tomou outros caminhos ao longo do tempo, mas o fato é que o movimento cresceu e segue potente até hoje.

Durante a entrevista, contei sobre o encontro que havia tido horas antes com aquele homem em situação de rua. A gravação foi colocada no ar. O estúdio silenciou. Muitos se emocionaram. Ao final do programa, recebi a missão de produzir novas entrevistas para a rádio.

Sem perceber, ali começava minha trajetória educomunicativa.

Passados mais de 35 anos, retorno à Grupo Bandeirantes de Comunicação. Desta vez, levado por um projeto nascido da escuta de jovens na educação pública. Tudo começou quando uma diretora me ouviu falar sobre Educomunicação em uma reunião da Ashoka. Ao final do encontro, pediu meu telefone e marcamos uma conversa.


Fui à emissora acompanhado do amigo Rogério Gonçalves. Fomos muito bem recebidos. Tivemos uma longa e inspiradora conversa sobre projetos, juventudes, educação e possibilidades de parceria. Depois, percorremos os corredores, estúdios e espaços da emissora.

Enquanto caminhava, veio um forte flashback.

Percebi que estava novamente no mesmo lugar onde tudo havia começado: os corredores das rádios. O espaço onde, décadas antes, um jovem com um gravador na mão descobria que comunicar também era escutar. E que a escuta, quando genuína, pode transformar vidas — inclusive a nossa própria.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 





segunda-feira, 27 de abril de 2026

Educomunicação em Rede: todas escolas com e-mail institucionais em São Paulo


Hoje celebramos um marco histórico para a Educomunicação paulistana: demos mais um passo na institucionalização das práticas educomunicativas em toda a rede. A partir de agora, todas as escolas passam a contar com uma conta institucional educom — como, por exemplo, emefpaulofreireeducom@edu.com.br.

Essa conquista fortalece a criação de um ecossistema comunicativo potente, integrado e alinhado ao tripé da Educomunicação na rede: projetos, comunicação e formação. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, abre-se um campo fértil para que Educomunicação em Rede: um salto histórico que conecta todas as escolas e transforma a aprendizagem e educandos ampliem suas vozes, produzam conteúdos e desenvolvam aprendizagens significativas por meio das linguagens midiáticas.

O investimento também potencializa o trabalho pedagógico, apoiando desde aulas regulares até projetos de ampliação da jornada escolar. Com a integração de diversas ferramentas do Google, será possível criar, colaborar e compartilhar com mais autonomia e qualidade, fortalecendo práticas inovadoras no cotidiano dos projetos.

No campo da gestão, surgem novas possibilidades de acompanhamento, organização e criação de estratégias — com soluções que dialogam com os níveis escolar, territorial e de rede municipal. Trata-se de um avanço estruturante, que qualifica processos e amplia o alcance das ações educomunicativas.

Após duas décadas e meia de construção, vemos se consolidar um movimento potente de viabilização da Educomunicação em todas as escolas — uma política pública que reafirma o protagonismo de estudantes, o papel formativo dos educadores e o compromisso com uma educação mais democrática, crítica e conectada com o nosso tempo.

Para acessar o e-mail o POED (Professor Orientador de Educação Digital) deverá acessar a area administrativa da sua conta Google @edu. Lá será possivel acessar a conta nomeada como educom. Só alterar a senha. 


Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Dia histórico para a Educomunicação na celebração dos 25 anos em SP

 

No dia 13 de abril de 2026, vivenciamos um encontro marcante que reuniu estudantes da Licenciatura em Educomunicação e formadores das Divisões dos Centros de Educação Unificado e Educação Integral (DRE/DICEU). A articulação entre o curso Gestão de Projetos Educomunicativos (COCEU/DIGP/Educomunicação) e o Programa de Iniciação à Docência da Universidade de São Paulo revela um cenário promissor para o fortalecimento e a expansão das práticas educomunicativas na educação pública, com impactos diretos nos territórios, nas escolas e nos CEUs.

O encontro contou com uma aula magna do professor Ismar de Oliveira Soares (ECA/USP), que apresentou um panorama histórico do projeto Educom.Rádio, destacando sua relevância na consolidação da Educomunicação como política pública. Na sequência, os estudantes da Licenciatura conduziram uma oficina prática de produção audiovisual com celular, evidenciando o protagonismo juvenil e a potência das linguagens contemporâneas.


Também foi apresentado o PROIAD pelo professor Richard Romancini, que detalhou os objetivos e a proposta do programa, voltado à integração entre formação acadêmica e atuação pedagógica nos territórios.

A iniciativa conta com o apoio da Divisão de Gestão Democrática e Programas Intersecretariais e da COCEU, representada pela professora Daniela (DIGP), reafirmando o compromisso institucional com a formação e o fortalecimento da Educomunicação na rede.

Sobre a formação
A proposta tem como objetivo formar facilitadores de Educomunicação nas 13 Diretorias Regionais de Educação, potencializando o acompanhamento e a qualificação dos projetos nas unidades escolares.

Os encontros estão sendo realizados em espaços de grande relevância simbólica e formativa, como a Casa Sérgio Buarque de Holanda, a Escola de Comunicações e Artes da USP e a Fundação Padre Anchieta, fortalecendo a conexão entre educação, cultura e comunicação.

Agradecimentos
Nossos agradecimentos especiais a Thaís Brianezi, Richard Romancini, Clayton Scarcella, Julio Colabardini, aos colegas da DIGP e DICEU, ao professor Ismar de Oliveira Soares e aos estudantes de Educomunicação participantes do PROIAD, que tornaram este momento possível e significativo.


Por Carlos Lima : Professor e educomunicador


domingo, 5 de abril de 2026

Quando a escola erra — segregrar em salas não resolveu o problema

 


Uma ideia, no mínimo questionável, foi apresentada em uma reunião de conselho no final de ano. Diante dos problemas de indisciplina, baixa aprendizagem e faltas excessivas, decidiu-se criar turmas específicas nos 1º e 3º anos do Ensino Médio com estudantes que apresentavam esses desafios.

Na prática, a decisão concentrou o problema: duas salas passaram a carregar, quase que exclusivamente, esses estudantes — o 1ºF no período da manhã e o 3ºG no noturno.

Como professor recém-chegado, fiquei com essas turmas.

Era 1998, naquele tempo, ainda não se discutia com a força de hoje a educação inclusiva. Minhas aulas de Português pela manhã e de Inglês à noite eram bem diferentes dos colegas que, digamos, tinham mais “sorte” na escolha das turmas. Mas isso eu conto mais adiante.

As salas eram verdadeiros barris de pólvora, prestes a explodir. Havia muitos estudantes com atitudes violentas. Parecia cena de filme sobre escolas em crise: pouco interesse em aprender.

Entre eles, também havia jovens em Liberdade Assistida — curiosamente, alguns dos mais tranquilos, justamente por não querer mais problemas.

Em duas ocasiões, estudantes de ambas salas, incendiaram o lixo da sala. Em outra, destruíram o banheiro da escola. Como resposta, a gestão decidiu isolar essas turmas no final do corredor, reforçando ainda mais a lógica da segregação.

Os professores que passavam por essas salas saíam exaustos, emocionalmente abalados, muitas vezes revoltados. Os demais colegas observavam, tentavam ser solidários, mas sem saber exatamente o que fazer.

Para quem estava começando, como eu, restava ser criativo.

Sem histórico de convivência com os estudantes, eu era visto com desconfiança. Não havia vínculo, não havia respeito. Foi então que pensei: talvez eu precise sair do lugar de conforto. Brinquei comigo mesmo: “vou ser um louco entre loucos — talvez assim haja algum reconhecimento”.

E arrisquei.

No 3ºG, entrei na sala e comecei a falar apenas em inglês. Sem parar. No início, vieram as risadas e deboche. Mas como eu não interrompi, algo mudou: quebrei o padrão. Desestabilizei o jogo de poder que eles já dominavam na sala.

Aos poucos, começaram a prestar atenção.

Até que um estudante, lá do fundo — conhecido por seu envolvimento com o tráfico e temido pelos colegas — gritou:

E aí, teacher, o que está escrito na minha camiseta?

Olhei para ele e respondi com calma:

— Você quer mesmo saber? Posso ir até aí e te contar.

Fui até ele e falei, em voz baixa, apenas para ele. Não era uma frase bacana. Era uma tradução de algo que ele nem esperava.

Ele ficou constrangido.

Mas, a partir dali, algo mudou. Criou-se uma relação de respeito. E, surpreendentemente, ele passou a ajudar a manter a ordem nas aulas.

As aulas começaram a fluir.

Mas eu sabia: aquilo não era uma solução estrutural. Foi uma combinação de ousadia, contexto e acaso.

Já no 1ºF, vivi minha primeira experiência como professor de Português. Minha formação era em Inglês, mas a necessidade falou mais alto. Foi ali que recorri ao que eu já dominava: a comunicação.

Decidi integrar linguagens.

O 1ºF era uma constelação de desafios. Sala cheia, estudantes com histórico de fracasso escolar, muitos aprovados automaticamente por conselho de classe, carregando defasagens significativas.

Mas também havia talento.

Comecei o ano apresentando a proposta:

  • 1º bimestre: Teatro

  • 2º bimestre: Poesia

  • 3º bimestre: Rádio escolar

  • 4º bimestre: “A gente decide”

Escrevi tudo na lousa e perguntei:

— Alguém quer comentar?

Um estudante, considerado “problemático”, mas extremamente inteligente, respondeu:

— Gostei do teatro e da poesia… já até escrevi uma para uma menina.

Sem hesitar, pedi que ele recitasse.

Ele abriu o caderno e leu.

A sala veio abaixo — gritos, aplausos, batidas nas carteiras. A movimentação foi tanta que a direção apareceu, preocupada.

— Professor, aconteceu algo?

— Não. Estamos em aula de poesia.

Saíram sem entender.

Ali, percebi algo essencial: aquela turma, apesar de todos os rótulos, era cheia de potência.

No bimestre de rádio, todas as turmas produziram programas sobre literatura brasileira. As melhores produções vieram justamente do 1ºF.

Aulas menos convencionais ajudaram a construir respeito. Mais do que isso: ajudaram a construir pertencimento.

Não conto essa história para romantizar contextos difíceis.

Conto para afirmar que uma boa sala de aula se constrói na convivência — e quanto mais diversa, melhor.

Segregar não resolve. Isolar não educa.

Estudantes com histórico de fracasso precisam de mais atenção, mais escuta, mais oportunidades de reconstrução de trajetória — não de confinamento em “salas-problema”.

E, acima de tudo, é fundamental investir na formação dos professores.

Porque quando há intencionalidade pedagógica, escuta e construção coletiva, os resultados aparecem.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Foto: Wikipedia 

Educomunicação em cursinhos preparatórios para vestibular

Sempre acreditamos que a Educomunicação tem espaço em praticamente todas as ações que promovem aprendizagem. Levar essa perspectiva para um ...