quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Não há boa convivência sem diálogo

 


Não existe boa convivência onde não há comunicação dialógica. Diálogo não é apenas a conversa entre duas pessoas. A escola precisa promover o diálogo em múltiplas dimensões: entre professor e estudante, entre estudantes, entre gestão e comunidade, entre currículo e realidade.

Podemos começar pelo mais simples: a conversa de ponta a ponta. Em um bom diálogo, um fala e o outro escuta. Depois, os papéis se invertem. Não se fala ao mesmo tempo. Também não há silêncio absoluto de ambos. E, sobretudo, não é conversa quando apenas um fala. Isso é discurso.

Historicamente, a escola tem sido mais lugar de discurso do que de diálogo. O adulto fala; a criança e o adolescente do Ensino Fundamental escutam. Recebem conteúdos, normas, orientações, expectativas. E quando falamos em “deveres”, não nos referimos apenas às matérias, mas a como devem se comportar, o que não devem fazer, quais resultados precisam alcançar. Talvez seja nesse excesso de emissão e na ausência de escuta que muitos conflitos encontrem terreno fértil. Quando não há conversa, não há exercício de diálogo — e o relacionamento não “dá match”.

E é justamente o relacionamento que deve estar no centro de uma ambiência de paz. Relacionar-se é, inclusive, saber abrir mão de algo para preservar o vínculo. Ao longo de 5, 7 ou até 8 horas diárias na escola, é fundamental perguntar: estamos promovendo uma ambiência que se aproxima do horizonte dos estudantes?

Na perspectiva da Educomunicação, trabalhamos com o conceito de Ecossistema Comunicativo. Assim como na ecologia, quando o meio ambiente está em desequilíbrio, todo o território sofre. O mesmo ocorre na comunicação. Um ecossistema comunicativo saudável depende do diálogo, da circulação de vozes, da possibilidade de resposta. Ele se estrutura como um sistema aberto e criativo.

Uma forma simbólica de analisar esse ecossistema é observar as “flechas” da comunicação. Quando as flechas vão e voltam — de um para outro, alcançando diferentes pessoas e formando uma teia — temos indícios de diálogo. A conversa se expande, gera problematizações coletivas, constrói sentido compartilhado. Mas quando a flecha segue em apenas uma direção e nunca retorna, a comunicação se verticaliza. E, em algum momento, ela se rompe. Surge a apatia, o desinteresse, o distanciamento.

O que tudo isso tem a ver com convivência? Tudo.

Não há convivência sem participação. Não há convivência sem correção de fluxos pela escuta. Não há convivência sem diversidade de vozes e inclusão de opiniões. A escola precisa se abrir aos grandes temas de interesse dos estudantes — especialmente àqueles sobre os quais eles desejam dizer o que não lhes agrada.

A instância primeira de escuta da escola precisa ser a sala de aula. Ali é o locus privilegiado para gerar diálogos que ultrapassem o conteúdo formal e alcancem a vida, o território, as experiências. Trabalhar na perspectiva de projetos não é simples, mas é um caminho potente para desconstruir a lógica de que apenas um fala.

Por fim, é preciso reafirmar: o estudante tem voz. E nossa tarefa não é apenas oferecer espaço para que ela se expresse, mas garantir ouvidos atentos para acolher suas ideias, inquietações e propostas. Porque onde há diálogo, há relação. E onde há relação, há possibilidade real de convivência e paz.

Por Carlos Lima :  Professor Educomunicador

Foto : Praça John Lennon - Havana - Cuba 

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