Durante muitos anos comecei minhas mensagens assim. Era quase um ritual. Um jeito de abrir conversa, de estender a mão antes mesmo de dizer qualquer outra coisa.
Foi também assim que comecei a escrever quando cheguei à Secretaria Municipal de Educação, em 2006, para cuidar do projeto Nas Ondas do Rádio.
Cheguei jovem.
Muito jovem.
Na verdade, olhando hoje, eu parecia mesmo um moleque. Cheguei energizado, com aquela inquietação de quem acredita que as coisas podem acontecer se a gente simplesmente começar a fazer. Naqueles primeiros tempos, minha missão era percorrer escolas pela cidade para ajudar a reativar os kits de radioescola do antigo Educom.Radio.
Era um tempo curioso.
Eu registrava tudo com uma câmera Mavica que salvava as fotos em disquete. Parece quase arqueologia digital, mas era assim que guardávamos as memórias daquele começo. Às vezes eu visitava três escolas no mesmo dia. Andava pela cidade com a sensação de que cada escola escondia uma pequena possibilidade de reinvenção.
Não foi uma caminhada fácil.
Ao longo desse tempo atravessei governos, mudanças de direção e diferentes tempos políticos. Foram cinco prefeitos, sete secretários, quatro coordenações dentro da Secretaria e, pelo menos, três espectros políticos distintos atravessando a educação da cidade.
Mas, se hoje olho para trás, percebo que o que realmente sustentou essa travessia não foram as estruturas administrativas. Foram as pessoas.
Foram vocês.
Quantos de vocês encontrei nas formações, nas visitas de JEIF, nas coberturas do Imprensa Jovem, nos aulões, nas lives, nas conversas rápidas no pátio da escola ou no corredor entre uma aula e outra.
Estar com vocês, nos territórios de cada escola, foi o maior aprendizado que eu poderia ter tido. Com vocês e com seus estudantes.
A escola nunca saiu do meu sangue.
Sempre que posso, volto.
Sempre que posso, estou por perto.
Costumo brincar — mas é uma brincadeira cheia de verdade — que o mestrado e o doutorado que eu não fiz na universidade eu acabei fazendo com vocês. Nas salas de aula, nas reuniões improvisadas, nas experiências pedagógicas que surgiam de uma inquietação coletiva.
Tudo foi inspirado em vocês.
Até mesmo uma das maiores criações dessa trajetória, o Imprensa Jovem, nasceu de uma escuta. A ideia não veio de um gabinete, nem de um planejamento institucional. Ela apareceu na fala de estudantes que queriam contar suas histórias, fazer perguntas, investigar o mundo e ocupar a escola com suas próprias vozes.
Talvez por isso seja tão difícil imaginar a possibilidade de me afastar um pouco dessa convivência cotidiana.
Porque a Educomunicação, para mim, nunca foi apenas um conceito.
Ela sempre foi encontro.
E continuo acreditando profundamente que a educomunicação pode existir em todas as escolas. Porque quando ela entra na escola, algo muda. A escola começa a se olhar de outro jeito. E quando a escola muda, quem muda são os estudantes.
Ainda há muito por fazer.
Às vezes imagino um horizonte em que existam, de fato, aulas de educomunicação. Lembro de uma conversa, tomando café com a diretora da escola Breves, em que falávamos justamente sobre isso — sobre a possibilidade de transformar essa prática em algo cada vez mais orgânico dentro da escola.
Antes mesmo de chegar à Secretaria, quando eu ainda era professor de Inglês e de Português, já tentava experimentar algumas dessas ideias. Eram projetos quase sempre voluntários, feitos na insistência e na curiosidade. Naquela época, não existiam programas estruturados como existem hoje.
Lembro de um episódio que guardo com carinho.
Em 2009, o então secretário Alexandre Schneider me chamou ao gabinete e fez uma pergunta direta:
— O que você gostaria para potencializar o Nas Ondas do Rádio?
Pensei pouco antes de responder.
E respondi com convicção:
— Pagar o professor.
Porque aquilo era trabalho.
Era dedicação.
Era prática pedagógica.
Não podia ser tratado apenas como voluntariado.
Dessa conversa nasceu a portaria que institucionalizou o programa e reconheceu o trabalho de tantos educadores que acreditavam que comunicação também é educação.
Hoje, quando olho para essa trajetória, vejo uma história feita de muitas mãos, muitas vozes e muitas persistências.
Por isso termino esta carta — que já virou uma pequena crônica — com um desejo simples:
Continuem persistindo na Educomunicação.
Ela é feita de amor, mas também de luta.
E que a esperança continue sendo o nosso horizonte.
Que sigamos esperançando, como ensinou Paulo Freire.
Obrigado por cada encontro.
Por cada parceria.
Por cada tentativa de reinventar a escola.
E, sobretudo, obrigado pela persistência de vocês.
Por Carlos Lima - Educomunicador e professor

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