Guardo de Havana mais do que fotografias. Guardo conversas atravessadas por silêncios, fachadas descascadas que resistem ao tempo e uma sensação permanente de que ali a vida insiste — mesmo quando tudo parece faltar.
Fiquei em El Vedado. Caminhava por suas ruas arborizadas observando casarões que me lembravam bairros elegantes de São Paulo, mas ali havia algo diferente: não era ostentação, era permanência. As casas respiravam história. As praças eram extensões das salas de estar. Crianças corriam livres, jovens improvisavam futebol, idosos ocupavam os bancos no fim da tarde com charutos, histórias e copos de rum.
Dentro das casas, televisões ligadas exibiam novelas brasileiras — até que a energia decidisse partir sem aviso. A luz se apagava e ninguém sabia quando voltaria. Ainda assim, no dia seguinte, as crianças estavam uniformizadas a caminho da escola. Cadernos debaixo do braço, sonhos protegidos pela certeza de que estudar é direito, não privilégio. Ouvi relatos de médicos formados ali, enviados a outros países, como se a ilha pequena coubesse inteira dentro de um jaleco branco. Educação e saúde universais não eram discursos turísticos; eram marcas estruturais de um projeto de sociedade.
Cuba me parecia, ao mesmo tempo, frágil e firme. Carregava nas paredes a memória de uma resistência política que se transformou em identidade. O anti-imperialismo não estava apenas nos livros ou nos murais — estava na maneira como as pessoas falavam de soberania, de dignidade, de não se curvar. Pode-se interpretar de muitas formas, mas não se pode negar que há ali uma narrativa coletiva construída na defesa de seu próprio caminho.
Num desses deslocamentos entre uma rua e outra, entre um pensamento e outro, atravessei uma praça ampla. Um banco. Um homem sentado. Sozinho. Pensei ser um morador descansando da tarde. Aproximei-me devagar. Era uma estátua.
Ali estava John Lennon, em tamanho real, olhando o horizonte com óculos redondos e expressão serena. Nunca pisou na ilha, mas ganhou seu lugar permanente ali. A escultura, criada por José Villa Soberón, não impõe distância. Convida. Sentei-me ao seu lado como quem aceita um chamado silencioso.
Não tive vontade de fotografar. Tive vontade de conversar.
Obras produzidas pelas crianças do Atilier de Arte do projeto sociocultural Cintio Vitier
Queria dizer que, mais cedo, estive com crianças em um ateliê de arte. Elas falavam do que viviam com uma maturidade desconcertante. Tinham consciência das dificuldades, das ausências, das limitações. Mas falavam também de paz — não como utopia distante, mas como desejo urgente. Querem viver a paz. Não apenas defendê-la.
Enquanto organizava meus pensamentos, percebi que a cultura cubana atravessava tudo. A música escapava pelas janelas, ocupava esquinas, transformava escassez em ritmo. Há uma força cultural ali que não pede licença. Ela simplesmente acontece. E talvez seja essa a síntese mais profunda da resistência: continuar cantando.
Sentei ao lado de Lennon e, por alguns minutos, o tempo suspendeu sua pressa. A brisa leve da tarde passava pelas árvores, crianças riam ao longe, alguém dedilhava um violão invisível na paisagem sonora da praça.
Naquele banco, compreendi que Cuba se sustenta em três pilares que caminham juntos: educação e saúde como direitos que estruturam o presente, resistência política como afirmação de soberania e cultura como linguagem que atravessa fronteiras.
Olhei para o rosto de bronze. Havia algo no olhar fixo que parecia abrir espaço para o invisível. Não era apenas arte pública. Era um convite.
Ali, em silêncio, senti que alguém me dizia:
— Fale. Eu te escuto.
Por Calos Lima - Professor e Educomunicador


