domingo, 4 de janeiro de 2026

Cuidado, vai quebrar!

 


​O Natal estava chegando e minha irmã cismou que queria fazer um vídeo. Nada de outro mundo, sabe? Umas fotos da família, uma musiquinha de fundo, aquele carinho em forma de pixels para mandar no grupo. Mas, para ela, parecia que eu estava pedindo para ela pilotar um foguete da NASA.

​Ela tentou, suou, quase desistiu e acabou batendo na minha porta: "Faz para mim? Não dou conta disso não".

​Eu olhei para ela e pensei: Se eu fizer, amanhã ela vai precisar de mim de novo. E depois de amanhã também. Falei: "Vem cá, senta aqui. Eu não vou fazer, eu vou te ensinar".

​Gente, precisava ver a cena. Quando ela pegou o celular para seguir o passo a passo, a mão chegava a tremer. Ela tocava na tela com uma delicadeza, mas uma delicadeza tão exagerada, que parecia que o celular era feito de um cristal finíssimo que ia estraçalhar no chão ao menor toque. Era o medo de "apagar tudo", de "estragar o aparelho", de "fazer bobagem".

​Fomos no ritmo dela. "Clica aqui, agora arrasta essa foto, escolhe a música...". Entre um erro e outro, o vídeo foi saindo. E o mais incrível não foi o vídeo pronto, foi o rosto dela quando terminou.

​Ela olhou para mim, deu uma risada meio sem jeito e soltou: "Ué... mas é tão fácil? E eu aqui sofrendo!".

​Essa frase dela me deu um estalo. O "sofrer" não era por falta de inteligência, era por falta de ponte. A gente vive num mundo que corre tanto que esquece de dar a mão para quem quer caminhar junto. Educomunicação — esse nome bonito que dão por aí — na verdade é só isso: é o que aconteceu na minha mesa da cozinha. É transformar o medo de quebrar o vidro na alegria de descobrir que ela também pode ser a diretora de cinema da própria vida.

​Esse foi o primeiro passo. E se ela aprendeu a fazer o vídeo de Natal, segura essa mulher que agora ninguém mais para!

Por: Rita de Cássia Baccari Pastor Martinez - Professora 

Imagem: Pixabay

sábado, 3 de janeiro de 2026

O certo não é vencer uma guerra. O certo é não ter guerra.


Uma nova guerra parece anunciar-se logo no quintal de onde é uma referência de território  pacífico do mundo. A América do Sul amanhece sob a sombra de ataques justamente após a virada de ano em que ainda se depositavam esperança para mundo mais pacífico em 2026. A sensação é de que a história insiste em se repetir, sempre à revelia dos povos que habitam nas regiões de conflitos.

Gaza  escancarou o preço cruel da intolerância. Um povo inteiro transformado em escudo humano, esmagado por interesses que não o representam. O que se impõe não é o diálogo, mas a força — uma força suspensa sobre vidas civis, somada a interesses obscuros, quase sobrenaturais, capazes de eliminar opositores sem qualquer consideração pelas crianças, famílias e comunidades que nada têm a ver com ódios geopolíticos ou disputas de poder.

Na Ucrânia, a guerra segue normalizada, enquanto o mundo se acostuma com o inaceitável. O multilateralismo — esse pacto civilizatório que deveria integrar diplomacia, direitos dos povos e mediação internacional — vai sendo rasgado, ou pior, picotado lentamente, sem grande comoção. Já não se fala em bom senso, mas em interesses. Não em vidas, mas em territórios, rotas, influência e poder.

Não precisamos de mais uma guerra no mundo. Uma guerra em qualquer lugar desestabiliza regiões inteiras, gera ondas de sofrimento, deslocamentos forçados, fome e pobreza.  Não existe guerra justa quando civis pagam o preço. Não existe “lado certo” quando o resultado é morte, destruição e o esvaziamento da humanidade.

O certo não é vencer uma guerra.
O certo é não ter guerra.

Diante de um mundo que parece flertar novamente com o colapso ético, é urgente reafirmar valores simples e profundos: diálogo, diplomacia, democracia,  respeito aos povos e à vida. A paz não pode ser tratada como ingenuidade. Ela é, hoje, o maior ato de coragem política e humana que nos resta.

Minha solidariedade ao povo amigo venezuelano. 

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Imagem : Pixabay

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Câmeras na sala de aula não educam: o risco de transformar a escola em espaço de vigilância

 


A recente aprovação na Assembleia Legislativa, em Santa Catarina, de um projeto de lei que autoriza o monitoramento de salas de aula por meio da instalação de câmeras reacende um debate essencial sobre o papel da escola, do professor e das relações pedagógicas. Apresentada sob o argumento de ampliar a segurança e prevenir situações de violência, a medida aposta na vigilância como resposta a conflitos complexos que atravessam o cotidiano escolar. Mas é preciso perguntar: o que se perde quando se transforma a sala de aula em um espaço permanentemente monitorado?

A legislação prevê o uso de câmeras como instrumento de controle do ambiente escolar, com acesso às imagens restrito à gestão e a órgãos responsáveis. Embora o discurso da segurança encontre respaldo em parte da sociedade, essa proposta desconsidera a natureza profundamente humana e relacional do processo educativo.

Atuei por mais de 20 anos em sala de aula. Hoje, realizo formação de professores e coordeno projetos de Educomunicação na mesma rede em que fui docente. Ao longo da minha trajetória, sempre utilizei metodologias participativas, especialmente nas aulas de Língua Inglesa, apostando no protagonismo dos estudantes, na escuta e no diálogo como fundamentos da aprendizagem. Atualmente, minha atuação é voltada à formação de professores para o uso de uma comunicação mais assertiva, capaz de potencializar a criatividade e a leitura crítica em qualquer área do conhecimento.

Essa experiência me permite afirmar: a sala de aula é um ecossistema comunicativo singular. Ali coexistem relações humanas complexas, atravessadas por diversidade cultural, social e emocional. O professor, diariamente, precisa ler o ambiente, escutar seus estudantes e ajustar sua prática. Essa competência não se constrói por meio de vigilância, mas por processos contínuos de formação, reflexão e troca.

Câmeras não são capazes de captar nuances pedagógicas, contextos emocionais ou intencionalidades educativas. Pior: podem gerar um ambiente de medo, autocensura e desconfiança. Não é razoável imaginar que alguém externo, a partir de imagens, possa determinar o que é certo ou errado na relação entre professor e estudante. Submeter educadores e alunos a manuais rígidos de conduta, sob monitoramento constante, por 5 a 7 horas diárias, transforma a escola em um espaço de tensão — e não de aprendizagem.

O discurso de que a escola é essencialmente violenta precisa ser analisado com mais responsabilidade. Antes de instalar câmeras, é necessário compreender o que está gerando os conflitos: precarização das condições de trabalho, ausência de políticas de escuta, fragilização dos vínculos, desigualdades sociais e falta de investimento em formação humana. Reduzir esses problemas à necessidade de vigilância é simplificar uma realidade complexa.

Ouvir, dialogar e formar é mais barato — e infinitamente mais eficaz — do que investir em tecnologias frias e caras. A Educomunicação aponta caminhos baseados na participação, no protagonismo juvenil, na mediação de conflitos e na construção coletiva de sentidos. Fortalecer a comunicação na escola é fortalecer a democracia.

Câmeras podem registrar imagens, mas não constroem relações. E sem relações, não há educação.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Imagem: Pixabay

Cuidado, vai quebrar!

  ​O Natal estava chegando e minha irmã cismou que queria fazer um vídeo. Nada de outro mundo, sabe? Umas fotos da família, uma musiquinha d...