sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Câmeras na sala de aula não educam: o risco de transformar a escola em espaço de vigilância

 


A recente aprovação na Assembleia Legislativa, em Santa Catarina, de um projeto de lei que autoriza o monitoramento de salas de aula por meio da instalação de câmeras reacende um debate essencial sobre o papel da escola, do professor e das relações pedagógicas. Apresentada sob o argumento de ampliar a segurança e prevenir situações de violência, a medida aposta na vigilância como resposta a conflitos complexos que atravessam o cotidiano escolar. Mas é preciso perguntar: o que se perde quando se transforma a sala de aula em um espaço permanentemente monitorado?

A legislação prevê o uso de câmeras como instrumento de controle do ambiente escolar, com acesso às imagens restrito à gestão e a órgãos responsáveis. Embora o discurso da segurança encontre respaldo em parte da sociedade, essa proposta desconsidera a natureza profundamente humana e relacional do processo educativo.

Atuei por mais de 20 anos em sala de aula. Hoje, realizo formação de professores e coordeno projetos de Educomunicação na mesma rede em que fui docente. Ao longo da minha trajetória, sempre utilizei metodologias participativas, especialmente nas aulas de Língua Inglesa, apostando no protagonismo dos estudantes, na escuta e no diálogo como fundamentos da aprendizagem. Atualmente, minha atuação é voltada à formação de professores para o uso de uma comunicação mais assertiva, capaz de potencializar a criatividade e a leitura crítica em qualquer área do conhecimento.

Essa experiência me permite afirmar: a sala de aula é um ecossistema comunicativo singular. Ali coexistem relações humanas complexas, atravessadas por diversidade cultural, social e emocional. O professor, diariamente, precisa ler o ambiente, escutar seus estudantes e ajustar sua prática. Essa competência não se constrói por meio de vigilância, mas por processos contínuos de formação, reflexão e troca.

Câmeras não são capazes de captar nuances pedagógicas, contextos emocionais ou intencionalidades educativas. Pior: podem gerar um ambiente de medo, autocensura e desconfiança. Não é razoável imaginar que alguém externo, a partir de imagens, possa determinar o que é certo ou errado na relação entre professor e estudante. Submeter educadores e alunos a manuais rígidos de conduta, sob monitoramento constante, por 5 a 7 horas diárias, transforma a escola em um espaço de tensão — e não de aprendizagem.

O discurso de que a escola é essencialmente violenta precisa ser analisado com mais responsabilidade. Antes de instalar câmeras, é necessário compreender o que está gerando os conflitos: precarização das condições de trabalho, ausência de políticas de escuta, fragilização dos vínculos, desigualdades sociais e falta de investimento em formação humana. Reduzir esses problemas à necessidade de vigilância é simplificar uma realidade complexa.

Ouvir, dialogar e formar é mais barato — e infinitamente mais eficaz — do que investir em tecnologias frias e caras. A Educomunicação aponta caminhos baseados na participação, no protagonismo juvenil, na mediação de conflitos e na construção coletiva de sentidos. Fortalecer a comunicação na escola é fortalecer a democracia.

Câmeras podem registrar imagens, mas não constroem relações. E sem relações, não há educação.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Imagem: Pixabay

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