No sentido de advocacy e articulação política, para se consolidar como política pública institucionalizada chegar a todos, a Educomunicação precisa aprender a dialogar com o poder público, construir alianças e transformar boas ideias em políticas públicas.
Recentemente, participei de um encontro sobre ética e políticas públicas com estudantes de Educomunicação, Comunicação e pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Foi uma oportunidade de compartilhar a trajetória de 25 anos da Educomunicação na Rede Municipal de Ensino de São Paulo e refletir sobre os desafios que temos pela frente.
Ao longo de duas décadas de atuação, pude acompanhar de perto a chegada da Educomunicação às escolas, desde as experiências com a rádio escolar até o desenvolvimento do Programa Imprensa Jovem. Essa caminhada me ensinou que uma proposta pedagógica não se sustenta apenas pela força de suas ideias. Ela precisa criar vínculos com diferentes públicos, estabelecer parcerias pedagógicas e institucionais, conquistar reconhecimento e, sobretudo, encontrar espaço nas políticas públicas.
A história da Educomunicação na Rede Municipal de Ensino de São Paulo foi construída com diálogo, articulação e persistência. A criação de programas, a elaboração de legislações e o fortalecimento das parcerias ajudaram a transformar experiências educativas em uma política pública. Outro aprendizado importante foi a necessidade de manter o diálogo com governos de diferentes orientações ideológicas. Afinal, uma política pública que pretende permanecer ao longo do tempo precisa ser compreendida, defendida e valorizada por diferentes gestões.
Uma pergunta que provoca o futuro
Durante o encontro, uma pergunta dos estudantes me fez refletir: como tornar a Educomunicação possível em todas as redes de ensino? E como o educomunicador pode participar desse processo?
A questão surgiu depois de eu apresentar a possibilidade de ampliar a presença da Educomunicação na Educação Integral, inclusive como componente da experiência curricular dos estudantes.
Nesse cenário, a presença de educomunicadores nos territórios educacionais, especialmente nas Diretorias Regionais de Educação (DREs), poderia contribuir para a implementação e o acompanhamento de projetos, a formação de educadores e a articulação pedagógica entre escolas e instâncias de gestão.
Ter o educomunicador no quadro de profissionais da Rede é um desejo que precisa ser transformado em proposta concreta, debatida e construída institucionalmente. O PROIAD está diante do desafio de elaborar uma proposta para essa atuação.
Mas existe uma questão que não pode ser ignorada: nenhuma proposta se transforma em realidade apenas porque faz sentido pedagogicamente. É preciso também vontade política.
A incorporação de um novo profissional à estrutura de uma rede pública de ensino envolve decisões administrativas, planejamento, recursos e prioridades de gestão. É necessário demonstrar como essa atuação pode contribuir para os objetivos educacionais, responder às necessidades das escolas e fortalecer as políticas já existentes.
É justamente nesse ponto que entra a ideia central deste texto: a Educomunicação precisa fazer lobby.
Lobby não precisa ser uma palavra proibida
Quando ouvimos a palavra lobby, é comum pensarmos em interesses particulares, privilégios e tentativas de influenciar decisões em benefício de determinados grupos. Essa associação não surgiu por acaso: existem práticas de lobby que levantam questionamentos legítimos sobre transparência, desigualdade de acesso e interesses privados.
Mas podemos olhar para a questão também por outra perspectiva: a articulação legítima, transparente e ética em defesa de uma causa pública.
Se queremos que a Educomunicação chegue a mais escolas, precisamos aprender a apresentar nossas ideias a quem tem poder de decisão. Precisamos explicar o que fazemos, demonstrar os resultados, ouvir as necessidades da gestão pública e construir soluções que façam sentido para todos os envolvidos.
Isso exige diálogo, escuta, capacidade de argumentação, construção de confiança e disposição para negociar caminhos possíveis. Exige também reconhecer que os gestores públicos enfrentam diferentes demandas e precisam fazer escolhas em meio a prioridades concorrentes.
Fazer lobby pela Educomunicação, nesse sentido, não significa buscar privilégios. Significa defender uma proposta educacional de interesse público, com argumentos consistentes, transparência e compromisso com o direito à comunicação.
É preciso furar a bolha
Um dos riscos de qualquer campo de conhecimento é conversar apenas com quem já acredita nele.
Na Educomunicação, temos pesquisadores, professores, estudantes e gestores que reconhecem o potencial das práticas educomunicativas. Conhecemos experiências transformadoras, acompanhamos o protagonismo estudantil e defendemos uma educação em que a comunicação seja parte do processo de aprendizagem.
Mas será que estamos conseguindo dialogar com quem ainda não conhece essa proposta? Estamos conseguindo apresentar nossas ideias de maneira que façam sentido para gestores que precisam responder a metas, indicadores e avaliações educacionais?
Furar a bolha é fundamental.
Não basta afirmar que a Educomunicação é importante. Precisamos demonstrar como ela pode contribuir para a aprendizagem, a participação estudantil, a convivência, a leitura crítica da mídia, o uso responsável das tecnologias e o desenvolvimento de competências necessárias à vida em sociedade.
Também precisamos apresentar experiências concretas, evidências, resultados e possibilidades de implementação. Uma proposta pedagógica consistente ganha força quando consegue dialogar com os desafios reais das escolas e das redes de ensino.
Isso não significa subordinar a Educomunicação a uma lógica exclusivamente orientada por resultados mensuráveis. Significa reconhecer que, para conquistar espaço nas políticas públicas, precisamos traduzir nossos princípios em propostas compreensíveis, viáveis e relevantes para diferentes interlocutores.
A comunicação, afinal, também precisa ser estratégica quando o objetivo é ampliar o direito à comunicação.
A vontade política faz a diferença
Projetos podem levar anos para amadurecer. Experiências bem-sucedidas podem permanecer restritas a algumas escolas. Propostas consistentes podem ficar paradas quando não encontram espaço na agenda dos gestores.
A vontade política pode acelerar processos, abrir caminhos institucionais e criar condições para que uma ideia se transforme em programa, formação, estrutura de trabalho ou política pública.
Por isso, a Educomunicação precisa construir pontes com lideranças políticas, gestores públicos, parlamentares, pesquisadores, organizações da sociedade civil e outros atores capazes de contribuir para sua implementação.
Essas relações não devem se limitar à busca de apoio pontual. Precisam ser construídas com continuidade, clareza de propósitos e compromisso público.
Lideranças políticas, por exemplo, podem ajudar a levar uma proposta ao debate institucional, promover interlocuções com o Poder Executivo e contribuir para que determinadas questões sejam consideradas na formulação de políticas educacionais. Para isso, é importante que compreendam a proposta, conheçam suas experiências e reconheçam sua relevância social.
Não se trata de escolher um campo político para defender a Educomunicação. Trata-se de construir condições para que ela seja compreendida e valorizada por diferentes grupos, sem abrir mão de seus princípios éticos e pedagógicos.
Aprender a dialogar com diferentes governos
A defesa da Educomunicação precisa ser maior do que a duração de um mandato ou a orientação ideológica de uma gestão.
Se acreditamos que a comunicação é um direito e que os estudantes devem ter voz ativa nos processos educativos, precisamos defender essa perspectiva em diferentes espaços institucionais.
Isso exige compreender as linguagens, as prioridades e as preocupações dos nossos interlocutores. Exige apresentar propostas adequadas a cada contexto, sem distorcer seus fundamentos. Exige, principalmente, saber ouvir antes de tentar convencer.
Uma gestão pode se interessar pela Educomunicação por sua contribuição à Educação Integral. Outra pode valorizar seu potencial para a convivência escolar, a participação democrática, a alfabetização midiática e informacional ou o uso crítico das tecnologias digitais.
Essas diferentes portas de entrada podem ampliar o diálogo, desde que não reduzam a Educomunicação a uma ferramenta utilitária nem apaguem seu compromisso com o protagonismo dos estudantes e o direito à comunicação.
Dialogar com diferentes governos não é abandonar princípios. É criar condições para que esses princípios alcancem mais pessoas.
Educomunicação para todos
A pergunta dos estudantes da ECA-USP continua ecoando: como fazer a Educomunicação chegar a todas as redes de ensino?
Talvez uma parte da resposta esteja na nossa capacidade de sair dos espaços em que já somos reconhecidos e ocupar outros lugares de diálogo. Precisamos produzir conhecimento, formar educadores, sistematizar experiências, apresentar evidências e construir alianças.
Precisamos, também, aprender a defender nossas propostas diante de quem decide sobre currículos, estruturas profissionais, recursos e políticas públicas.
A Educomunicação tem uma contribuição importante a oferecer à educação contemporânea. Mas essa contribuição não se tornará realidade em escala apenas pela qualidade das experiências que desenvolvemos. Será necessário disputar espaço na agenda pública por meio de argumentos, articulação institucional e participação democrática.
Se queremos Educomunicação para todos, precisamos aprender a conversar com todos — inclusive com aqueles que ainda não conhecem nosso trabalho ou não compreendem plenamente seu potencial.
A Educomunicação precisa fazer lobby, sim. Um lobby ético, transparente, democrático e comprometido com o interesse público.
Porque defender a Educomunicação é também defender o direito de estudantes e educadores participarem da construção de uma educação em que a comunicação não seja apenas um instrumento para ensinar, mas uma prática de diálogo, autoria, participação e transformação social.
E essa defesa precisa chegar a quem tem o poder de transformar ideias em políticas públicas.
Por Carlos Lima - Professor Educomunicador

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