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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Em cenários de governos de direita, como a Educomunicação pode ampliar seu espaço na Educação?


Sabemos que o Brasil vive um cenário de disputas políticas e de avanço de forças de direita, uma tendência que também se manifesta em outros países, com a chegada ao poder de governos conservadores e, em alguns casos, de extrema direita. Nesse contexto, as agendas sociais, democráticas e inclusivas nem sempre encontram convergência com as prioridades desses governos.

Para a Educomunicação, que tem como fundamentos o diálogo, a valorização das humanidades, a aprendizagem construtivista, o protagonismo estudantil e o direito à comunicação, esse cenário apresenta desafios importantes. Como preservar uma cultura educativa baseada na participação, na autonomia e na pluralidade diante de sistemas de ensino cada vez mais orientados por resultados, competências técnicas, empreendedorismo, disciplina, hierarquia e determinados valores comportamentais? Como ampliar os espaços da Educomunicação sem abrir mão de seus princípios?

A resposta começa pela escuta. Pela escuta e pelo reconhecimento do direito à fala.

O direito à comunicação não é um benefício concedido ao estudante quando a escola considera conveniente. É parte do seu direito de existir, participar e construir sentidos no ambiente escolar. Embora muitas instituições se apresentem como democráticas, ainda estamos longe de alcançar uma escola plenamente democrática, na qual os estudantes tenham condições reais de expressar suas ideias, questionar, dialogar e participar das decisões que afetam suas vidas.

Essa contradição também pode representar uma oportunidade. Em vez de enxergar o atual cenário apenas como uma barreira, podemos identificar caminhos para ampliar a presença da Educomunicação a partir de aspectos que a própria escola reconhece como fundamentais para a aprendizagem. Afinal, a Educomunicação tem uma potência que ultrapassa os alinhamentos ideológicos: ela cria ambientes de aprendizagem que mobilizam, envolvem e encantam estudantes e educadores.

Mudar as estratégias de aproximação, sem mudar a essência, pode ser um caminho.

Se nossa prioridade é promover o direito à expressão, a criatividade, a comunicação, a pluralidade de pensamentos e culturas, a participação e o protagonismo estudantil, podemos estabelecer pontes com outras prioridades presentes nas políticas educacionais. A potencialização da leitura e da escrita, o desenvolvimento de competências tecnológicas, a aprendizagem por projetos, a resolução de problemas, a criatividade e até mesmo o empreendedorismo podem se tornar oportunidades para desenvolver práticas educomunicativas.

Um projeto de podcast, por exemplo, pode contribuir para a oralidade, a escrita, a pesquisa, a leitura crítica e o domínio de tecnologias. Uma agência de notícias estudantil pode desenvolver competências de comunicação, trabalho colaborativo, análise de informações e resolução de problemas. Uma campanha produzida pelos próprios estudantes pode mobilizar conhecimentos curriculares, criatividade e planejamento, ao mesmo tempo que fortalece o protagonismo e o direito à comunicação.

O que garante a natureza educomunicativa dessas experiências não é apenas o produto final, mas a homologia de processos: a coerência entre os princípios que defendemos e a maneira como organizamos as práticas educativas. Não basta produzir um podcast ou um vídeo para afirmar que estamos fazendo Educomunicação. É preciso assegurar que os estudantes participem das decisões, tenham voz, compartilhem responsabilidades, construam conhecimentos coletivamente e sejam reconhecidos como sujeitos de direitos.

Essa distinção é fundamental. Podemos dialogar com diferentes prioridades educacionais sem transformar a Educomunicação em uma simples ferramenta para alcançar resultados preestabelecidos. A aprendizagem é um campo de convergência possível, desde que o diálogo, a participação e a autonomia não sejam reduzidos a recursos instrumentais.

Não se trata de abandonar conquistas, diluir princípios ou aceitar passivamente qualquer orientação política. Trata-se de compreender o contexto, reconhecer as contradições e identificar oportunidades para ampliar espaços de participação e democratização da comunicação dentro das escolas.

É preciso preservar as conquistas, mas também manter os olhos abertos para novas possibilidades, sem perder a ternura.

A Educomunicação precisa ser como o bambu: flexível diante dos ventos, capaz de se curvar sem perder suas raízes. Adaptar estratégias não significa renunciar à identidade. Pelo contrário, pode ser justamente o que nos permite continuar crescendo, ocupando espaços e criando novas possibilidades de transformação.

Porque, no fim, independentemente do espectro ideológico que orienta as políticas educacionais, permanece uma questão essencial: que escola queremos construir? Uma escola que apenas transmite conteúdos, disciplina comportamentos e mede resultados ou uma escola que também ensina a escutar, dialogar, criar, questionar e participar?

A Educomunicação tem muito a contribuir para essa resposta. E talvez um dos seus maiores desafios — e também uma de suas maiores oportunidades — seja demonstrar que não existe aprendizagem verdadeiramente significativa sem diálogo, nem educação plenamente democrática sem o direito à comunicação.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

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