quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Juventudes e os novos cenários da vida cotidiana


As juventudes estão transformadas — e isso não é novidade. O que muda, o que nos inquieta e o que nos desafia é a maneira como essas transformações acontecem, cada vez mais atravessadas pelas tecnologias midiáticas. Para eles, celulares, redes sociais, vídeos curtos e plataformas interativas não são apenas ferramentas: são espaços de convivência, identidades e descobertas.

Proibir? Não resolve. Criar regras rígidas e verticalizadas? No máximo, produz um efeito paliativo. A grande questão não é afastar os jovens das telas, mas encontrar caminhos para sentar com eles, lado a lado, para construir uma apropriação criativa, crítica e benéfica dessas tecnologias. Talvez não seja o caminho perfeito — mas é um caminho possível, honesto e necessário.

Recentemente, vivi uma cena que sintetiza muito desse tempo. Perto de casa, uma multidão de adolescentes saía de um show de trap que misturou música, performance e até batalha de slam com teor político. A estética? Parecia uma viagem pelos anos 70, com uma pegada contemporânea. Meninos de saia-calça, meninas de coturnos policiais, cabelos black, coloridos, raspados. Ali estavam todas as cores, corpos, estilos e identidades: negros, brancos, morenos, nerds, rappers, “gordinhos”, “bonitos”, “nem tão bonitos assim”, meninas, meninos, menines. Uma diversidade pulsante.

Enquanto observava o grupo passar, uma senhora ao meu lado comentou:
“Este mundo está perdido. Olha ali: um menino de saia beijando uma menina de bota de policial.”

E ali eu viajei. A cena dizia muito sobre eles. A juventude tem camadas múltiplas — estética, comportamento, identidade, afetos, visão política, cultura — e a tecnologia é apenas uma delas. É através dela que encontram seus “points”, combinam encontros, fortalecem suas tribos e constroem pertencimento.

E, como tudo em juventude, isso também vai mudar. Sempre muda.

Talvez o nosso maior desafio seja reconhecer que não estamos diante de um “mundo perdido”, mas de um mundo em movimento. E, se quisermos caminhar com esses jovens — não atrás, nem à frente —, precisamos aprender a escutá-los, dialogar e construir junto. Afinal, educar nesta era não é controlar: é compreender, acompanhar e criar novas formas de convivência.


Por Carlos Lima : Educomunicador e professor

Imagem: Pixabay


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