Em uma reunião com as famílias no retorno das férias escolares, boa parte do encontro, os assuntos abordados foram normas e procedimentos: não correr no pátio; utilizar o horário do lanche exclusivamente para se alimentar; evitar ir ao banheiro durante as aulas; informar que faltas podem ser comunicadas ao Conselho Tutelar; acompanhar diariamente os cadernos, já que os estudantes nem sempre mostram as atividades aos pais; conferir as lições de casa; e garantir o uso obrigatório do uniforme.
Ao final da reunião, fiquei pensando: será que essas orientações representam, de fato, o que entendemos por educação? Será que a ampliação da jornada escolar se resume ao aumento do tempo de permanência na escola ou deveria significar a ampliação das oportunidades de aprendizagem, convivência, criação e desenvolvimento humano?
Como é a rotina de uma criança ou de um adolescente que permanece cerca de sete horas por dia na escola? Se considerarmos um dia de 24 horas, aproximadamente oito são dedicadas ao sono, duas à alimentação, duas aos cuidados pessoais e outras nove entre escola, deslocamentos e preparação para sair de casa. Resta muito pouco tempo para brincar, descansar, conviver com a família, encontrar os amigos ou simplesmente não fazer nada.
Enquanto isso, o mundo continua mudando. As transformações tecnológicas, culturais e sociais não pedem licença para acontecer. Novas formas de interação surgem diariamente e são rapidamente incorporadas pelas novas gerações. A escola, porém, muitas vezes permanece organizada por uma lógica em que o controle ocupa mais espaço do que a escuta.
Talvez seja por isso que tantos jovens encontrem, durante a madrugada, no celular, um espaço para conversar, expressar sentimentos e viver experiências que não encontram durante o dia. Não se trata apenas do uso da tecnologia, mas da busca por autonomia, pertencimento e conexão humana.
A rotina disciplinar de muitas escolas deixa pouco espaço para conversas espontâneas, para o diálogo entre colegas, para o exercício da escuta e da convivência. Aquilo que nós, adultos, valorizamos em nossas relações — uma boa conversa, um momento de descontração, uma pausa para compartilhar ideias — raramente é reconhecido como parte importante da experiência estudantil.
Talvez seja o momento de nos perguntarmos: por que a frequência escolar, especialmente entre os estudantes mais jovens, tem se tornado uma preocupação crescente? Será que eles se reconhecem na rotina que vivem? Participam da construção de sua experiência escolar ou apenas cumprem tarefas previamente definidas?
Uma escola comprometida com a emancipação não pode limitar-se à organização do tempo e ao cumprimento de regras. Ela precisa oferecer experiências significativas, valorizar a participação, promover o diálogo e reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, capazes de pensar, criar, opinar e transformar o ambiente em que vivem.
A ampliação da jornada escolar só faz sentido quando também amplia as possibilidades de aprender, de conviver, de sonhar e de viver plenamente a infância e a juventude. Caso contrário, estaremos apenas prolongando o tempo de permanência em um espaço que, em vez de libertar, pode acabar restringindo aquilo que a educação tem de mais precioso: a formação de pessoas livres, críticas e felizes.
Por Carlos Lima - Professor e Educomunicador

Nenhum comentário:
Postar um comentário