domingo, 30 de agosto de 2026

Precisamos desligar os drones?


Como qualquer nova tecnologia, os drones podem ajudar, transformar e ampliar nossas possibilidades. Mas também podem romper a barreira do bom uso.

A televisão, por exemplo, ajudou a integrar o país, levando informação, cultura e entretenimento a milhões de pessoas. Mas também foi utilizada para manipular massas. A automação criou processos mais rápidos e eficientes para resolver problemas, mas também substituiu mão de obra — e agora esse movimento ganha uma velocidade ainda maior com a inteligência artificial.

Eis que chegam os drones.

No primeiro momento, pareciam apenas brinquedos que voavam, uma espécie de versão aérea dos carrinhos de controle remoto. Mas rapidamente deixaram de ser brinquedos. Tornaram-se máquinas capazes de conquistar os ares de forma autônoma, embora continuem sendo orientadas por pessoas na terra, com interesses muito diferentes.

A mesma tecnologia que permite desenvolver carros autônomos, sistemas de pulverização agrícola e soluções para entrega de produtos a partir de pedidos por aplicativos também pode ser utilizada para matar pessoas nas guerras contemporâneas.

Recentemente, uma fila de interessados buscava uma oportunidade para aprender a operar drones em um curso promovido por uma facção criminosa. O crime também vem sofisticando o uso perverso da tecnologia para ampliar seu poderio.

Era de se esperar que aquele “brinquedinho” desse um tilt nas soluções para uma sociedade que sonha com um mundo “No Problem”. Mas talvez o tilt esteja justamente na nossa própria incapacidade de controlar aquilo que criamos.

Toda tecnologia pode ser uma faca de dois lados quando colocada nas mãos de pessoas com interesses diferentes. Por isso, as pessoas precisam permanecer no controle.

E nem quero entrar, ainda, na discussão sobre os robôs que estão em pleno desenvolvimento para pensar, aprender e tomar decisões cada vez mais autônomas.

O mundo precisa de democracia, pensamento crítico, educação para o uso das tecnologias, regulação, responsabilidade social e cultura de paz. Precisamos colocar rédeas no avanço tecnológico — não para impedir a inovação, mas para garantir que ela esteja a serviço da vida.

As novas gerações estão encantadas com a magia das transformações tecnológicas. Estão enfeitiçadas pela possibilidade de voar, criar, automatizar e ultrapassar limites. Talvez enxerguem no drone voador uma espécie de conexão com o antigo sonho humano de alcançar as estrelas.

Enquanto isso, lideranças econômicas e influenciadores de decisões estratégicas no mundo insistem que o avanço tecnológico é inevitável e necessário.

Mas necessário para quê? E para quem?

Às vezes, esquecemos o Bem Viver, a proteção da vida, do planeta e das comunidades diante das mudanças climáticas. Esquecemos que nem tudo aquilo que podemos fazer tecnologicamente significa que devemos fazer.

Talvez a pergunta não seja apenas até onde a tecnologia pode chegar, mas até onde a humanidade deve permitir que ela chegue.

Precisamos desligar os drones?

Talvez não.

Precisamos, antes, desligar o piloto automático da humanidade.

Por Carlos Lima - Professor Educomunicador 

Foto : Drone russo utilizado na guerra contra Ucrânia  carrega bomba. Por Alexander Reka/ TAR TADS / IMAGO


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