domingo, 18 de outubro de 2026

Educomunicação deveria fazer parte do currículo das licenciaturas e dos cursos de Pedagogia


Por que formar educadores para compreender, dialogar e produzir com as mídias ainda não é uma prioridade na formação docente? Em uma sociedade marcada pela influência da comunicação e pela expansão das tecnologias digitais, preparar crianças e adolescentes para ler criticamente, produzir e compartilhar informações tornou-se uma necessidade da Educação Básica. Nesse cenário, a Educomunicação — entendida como um campo de conhecimentos e práticas que articula educação e comunicação — precisa conquistar um espaço mais consistente na formação inicial de professoras e professores.

Uma experiência importante nessa direção está na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, que, desde 2001, desenvolve iniciativas de Educomunicação em suas escolas. Ao longo de 25 anos, essa trajetória se consolidou por meio de programas, projetos, leis, portarias e orientações educacionais. Mais recentemente, a Educomunicação também ganhou espaço nas propostas de Educação Integral. Em 2026, esse percurso alcança um novo marco com a publicação das Orientações Pedagógicas de Educomunicação, documento curricular que reúne referências para apoiar o trabalho dos educadores. A dimensão dessa experiência é expressiva: aproximadamente 80% das unidades escolares desenvolvem algum tipo de prática educomunicativa.

Mas o que uma política educacional construída ao longo de décadas tem a nos ensinar sobre a formação dos futuros educadores? E por que as licenciaturas e os cursos de Pedagogia ainda precisam avançar na incorporação da Educomunicação em seus currículos?

Crianças e adolescentes não são apenas consumidores de mídia

As mídias sempre exerceram influência sobre a formação cultural, social e política das pessoas. A televisão, o rádio, o cinema, os jornais e as revistas já ocupavam um lugar importante na construção de valores, comportamentos e visões de mundo. Com a expansão da internet e das tecnologias digitais, entretanto, essa relação ganhou novas dimensões.

Crianças e adolescentes não são apenas consumidores de conteúdos. Eles também produzem vídeos, podcasts, memes, fotografias, músicas, transmissões ao vivo e outras formas de expressão. Participam de comunidades digitais, compartilham ideias e impulsionam culturas juvenis que ultrapassam os limites da escola e do território onde vivem.

Essa capacidade de produzir e fazer circular mensagens abre oportunidades extraordinárias para a aprendizagem, a criatividade, a participação social e o exercício do direito à comunicação. Quando encontram condições para se expressar, os estudantes podem transformar suas experiências em conhecimento, dar visibilidade às questões de suas comunidades e participar ativamente da vida pública.

Entretanto, essa mesma potência comunicativa pode ser utilizada para disseminar discursos de ódio, cyberbullying, notícias falsas, desinformação e preconceitos relacionados à raça, ao gênero e a outras dimensões da vida social. Somam-se a esses desafios a exposição indevida de crianças e adolescentes, o uso excessivo de telas, os riscos à privacidade e as questões éticas que emergem com a expansão da inteligência artificial.

Não basta, portanto, ensinar a utilizar ferramentas digitais. É preciso desenvolver competências para compreender como as mídias funcionam, identificar interesses por trás das mensagens, avaliar fontes, reconhecer estratégias de manipulação e produzir conteúdos com responsabilidade, respeito e compromisso com os direitos humanos.

A internet também é um espaço educativo

A internet não é apenas um canal de entretenimento ou um recurso complementar às atividades escolares. Ela se tornou um espaço de convivência, aprendizagem, produção cultural e disputa de narrativas. As ferramentas digitais utilizadas cotidianamente pelos estudantes também participam de seus processos de formação, mesmo quando não estão sob a orientação direta de um educador.

Em muitos aspectos, os ambientes digitais oferecem possibilidades de expressão e interação mais horizontais do que aquelas tradicionalmente encontradas em determinadas salas de aula. Neles, estudantes podem publicar suas ideias, dialogar com pessoas de diferentes contextos, produzir conhecimento coletivamente e encontrar outras formas de participação.

Essa horizontalidade, contudo, não significa que todos tenham as mesmas oportunidades de expressão ou que as informações disponíveis sejam confiáveis. As plataformas são organizadas por algoritmos, interesses econômicos e mecanismos de distribuição de conteúdo que influenciam aquilo que vemos, compartilhamos e valorizamos.

Compreender essa realidade é um desafio para a educação contemporânea. Como preparar os estudantes para participar criticamente de uma sociedade conectada se os próprios educadores não tiverem oportunidades de estudar a comunicação, suas linguagens, seus mecanismos de funcionamento e suas implicações sociais?

A formação docente precisa acompanhar as transformações da sociedade

O desafio de aproximar educação e comunicação não começou com a internet. Quando os meios analógicos ocupavam posição central na formação da opinião pública, já era necessário preparar educadores para trabalhar com as mensagens e representações que circulavam na sociedade.

Talvez pudéssemos ter avançado mais rapidamente na integração das linguagens midiáticas à formação dos profissionais da educação. A expansão das tecnologias digitais, entretanto, torna essa discussão ainda mais urgente.

Não se trata de transformar todo professor em jornalista, cineasta, radialista ou especialista em tecnologia. Trata-se de reconhecer que a comunicação faz parte dos processos de aprendizagem, das relações sociais e da construção do conhecimento. Por isso, precisa ser compreendida como dimensão pedagógica, cultural e cidadã da formação docente.

Uma professora ou um professor que trabalha com leitura, escrita, história, ciências, artes ou matemática pode utilizar práticas educomunicativas para ampliar as possibilidades de investigação, autoria e participação dos estudantes. A produção de um programa de rádio, de um jornal escolar, de um documentário, de um podcast, de uma história em quadrinhos ou de uma campanha digital pode articular diferentes áreas do conhecimento e aproximar o currículo da realidade dos alunos.

A pergunta, então, é inevitável: se a Educomunicação não ocupou o espaço necessário na formação docente no passado, por que não incorporá-la agora?

O que ensinar sobre Educomunicação nas licenciaturas e em Pedagogia?

A presença da Educomunicação na formação inicial não deve se limitar a uma disciplina instrumental sobre recursos tecnológicos. É necessário proporcionar aos futuros educadores experiências que articulem fundamentos teóricos, reflexão crítica e práticas pedagógicas.

Entre os conteúdos e abordagens que poderiam integrar os currículos das licenciaturas e dos cursos de Pedagogia, destaco:

  • Fundamentos e metodologias da Educomunicação: princípios, conceitos e práticas que valorizam o diálogo, a participação, a autoria e a construção coletiva do conhecimento.

  • Linguagens midiáticas aplicadas à educação: rádio, jornal, podcast, audiovisual, fotografia, cinema, fanzine, histórias em quadrinhos e outras formas de expressão.

  • Cultura digital e processos educomunicativos: compreensão das redes, plataformas, algoritmos, culturas juvenis e transformações nas formas de aprender, comunicar e participar.

  • Educação midiática e leitura crítica dos meios: análise das mensagens, identificação de desinformação, verificação de fontes e compreensão dos interesses que influenciam a circulação de conteúdos.

  • Comunicação simples, inclusiva e equitativa: produção de mensagens acessíveis, valorização da diversidade e garantia de condições de participação para diferentes públicos.

  • Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade: integração da comunicação aos componentes curriculares e aos projetos pedagógicos.

  • Pedagogia de projetos: desenvolvimento de experiências nas quais os estudantes investiguem problemas reais, produzam conteúdos e compartilhem conhecimentos com a comunidade.

  • Ética, direitos e inteligência artificial: privacidade, proteção de crianças e adolescentes, uso responsável das tecnologias, autoria, direitos de imagem e avaliação crítica de conteúdos produzidos por IA.

Esses conhecimentos podem ser trabalhados em disciplinas específicas, projetos interdisciplinares, estágios supervisionados, atividades de extensão e experiências práticas de produção midiática. O importante é que a comunicação não apareça apenas como ferramenta eventual, mas como parte de uma concepção de educação que reconhece os estudantes como sujeitos capazes de interpretar e transformar a realidade.

Da formação universitária à escola: estudantes com voz e autoria

A experiência da Rede Municipal de Ensino de São Paulo demonstra a importância de construir políticas públicas que deem continuidade às práticas educomunicativas. Projetos como o Imprensa Jovem possibilitam que estudantes atuem como repórteres, entrevistadores, produtores de conteúdo e comunicadores de suas comunidades escolares.

Nessas experiências, o processo é tão importante quanto o produto final. Ao elaborar uma pauta, pesquisar informações, entrevistar pessoas, escrever um roteiro, gravar um áudio ou editar um vídeo, os estudantes mobilizam conhecimentos de diferentes áreas, aprendem a trabalhar coletivamente e desenvolvem responsabilidade sobre aquilo que comunicam.

A escola também passa a ser um espaço de exercício do direito à comunicação. Os estudantes deixam de ocupar exclusivamente a posição de receptores de informações e assumem o papel de autores, produtores e mediadores de conhecimento.

Para que iniciativas como essas se fortaleçam, é fundamental investir não apenas na formação continuada de quem já atua nas redes de ensino, mas também na preparação daqueles que ainda estão nas universidades. A articulação entre universidades, escolas e políticas públicas pode contribuir para ampliar o repertório pedagógico dos futuros docentes e aproximar a formação acadêmica dos desafios concretos da Educação Básica.

Educomunicação: uma necessidade da educação contemporânea

A formação de educadores precisa dialogar com o mundo em que os estudantes vivem. Um mundo no qual a comunicação influencia comportamentos, organiza relações, produz conhecimentos, mobiliza comunidades e interfere na maneira como compreendemos a realidade.

Incorporar a Educomunicação às licenciaturas e aos cursos de Pedagogia significa reconhecer que ensinar, na sociedade contemporânea, também envolve preparar pessoas para interpretar criticamente as mensagens que recebem, produzir informações responsáveis e participar de maneira ética e democrática dos espaços de comunicação.

Não podemos esperar que os futuros educadores enfrentem esses desafios apenas com os conhecimentos que adquiriram em sua própria experiência como usuários das tecnologias. É necessário oferecer formação, fundamentos pedagógicos e oportunidades para experimentar práticas que possam ser desenvolvidas com seus estudantes.

Afinal, se a comunicação está presente na vida cotidiana, na cultura, nas relações sociais e nos processos de aprendizagem, por que ela ainda deveria permanecer à margem da formação docente?

A Educomunicação precisa estar nas escolas, mas também nas universidades que formam os profissionais responsáveis pela educação das próximas gerações. Não como resposta passageira à chegada de uma nova tecnologia, mas como compromisso permanente com uma educação crítica, participativa, inclusiva e conectada ao direito de cada pessoa de compreender e transformar o mundo.

Por Carlos Lima — professor e educomunicador.

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